Análise | La Casa de Papel (2017 – 2018) – um fenômeno superestimado

Um lembrete: esse texto contém spoilers sobre a minissérie “La Casa de Papel”,

mas continue lendo, o texto não se alongará por 22 episódios.

 

Em 25 de dezembro de 2017 chegava ao catálogo da Netflix “La Casa de Papel”, a minissérie em 15 capítulos da rede espanhola Antena 3, dividida em duas partes: 9 episódios exibidos entre maio e junho, e os seis restantes entre outubro e novembro. Até então, a minissérie ainda não fazia barulho por conta dos holofotes do hype estarem em cima da quarta temporada de “Black Mirror“, que viria a estrear no dia 29 de dezembro.

Em pouco tempo, a primeira parte da minissérie (os 9 episódios cujo conteúdo a Netflix distribuiu em 13, infelizmente) começou a fazer o burburinho inesperado e cair no gosto do espectador. “Já assistiram La Casa de Papel, a nova série da Netflix?”, “é muito boa, um grupo de assaltantes adentra a Casa da Moeda da Espanha e faz muitas pessoas de refém”, “tem um professor, o cabeça do plano que tipo… Ele é muito inteligente, sabe de tudo mesmo”… Foram mais ou menos assim os comentários após o sucesso estrondoso da minissérie, e a essa altura, você, que está lendo esse texto, deve sabe de tudo isso e muito mais, mesmo que a segunda parte tenha chegado ontem ao catálogo da Netflix – ou você, que não escolheu esperar e recorreu aos meios da internet para assistir com antecedência.

Seja como for, vamos lá debater um pouco sobre esse fenômeno superestimado chamado “La Casa de Papel”.

Para estar fazendo tanto barulho, a coisa deve ser muito boa… Pelo menos assim eu pensava. Mais de um mês se passou desde a estreia da primeira parte e finalmente decidi conferir a tão elogiada minissérie, que até os três primeiros episódios parecia mesmo digna de rasgar elogios e arrastar telespectadores para o melhor entretenimento esperado. Depois dessa primeira impressão, o que se apresenta foge do aspecto instigante do início para entregar um tremendo novelão.

Primeira parte – A novela de momentos interessantes

A trama se estabelece de maneira simples: o “Professor” (Álvaro Morte), reúne um grupo com os oito melhores assaltantes para executar um grande assalto à Casa da Moeda da Espanha. Assim a minissérie se apresenta, destacando o leque de personagens e entregando pouco sobre o que realmente trata o plano central do assalto.

Não demora muito para que a trama comece a instigar, e isso deve a sua narrativa, que não entrega demais, prendendo o espectador. Dessa maneira, “La Casa de Papel” começou a agradar com a sua premissa, sendo conduzida de maneira inteligente e curiosa ao não relevar mais do que o necessário e ao mesmo tempo empolgar com o que desenvolvia nos primeiros episódios.

Dito isso, parecia que seria uma preciosidade acompanhar os treze episódios da primeira parte sem muitos problemas, pois a abordagem era fluida e ágil. No entanto, o que era bom virou novela do tipo desgastado e previsível que não fazia nada diferente do esperado. Parecia não melhorar nunca e muito disso se deve ao modelo de episódios da Netflix, esticando o que não precisava apenas para prender a audiência. Perante os pontos negativos da primeira parte, esse formato não soou tão positivo e tornou a minissérie maçante de assistir.

Poucas horas vão se passando desde o início do assalto e, enquanto a tensão sobre as vidas dos reféns dentro da Casa da Moeda se instaura e o plano real já ganhou forma, o que resta para “La Casa de Papel” é trabalhar os seus personagens. Nessa dinâmica é que a minissérie obteve um dos melhores feitos: ganhar o público com o carisma dos personagens.

Dentro da Casa da Moeda, em nome da sobrevivência é que os relacionamentos começam a ser moldados e definem o que será a favor ou não do assalto. Ainda sobre o desenvolvimento dos mesmos, o telespectador se coloca a conhecer os perfis dos assaltantes enquanto os reféns gritam por liberdade. No aspecto criativo da minissérie, não nos é permitido saber os nomes reais dos assaltantes, sendo assim, eles são conhecidos por nomes de grandes cidades: Tóquio (Úrsula Corberó), Rio (Miguel Herrán), Nairóbi (a talentosa Alba Flores), Denver (Jaime Lorente). Moscou (Paco Tous), Berlim (Pedro Alonso), Helsinki (Darko Peric) e Oslo (Roberto García Ruiz) e em cima disso se limitam sobre a regra de não se envolverem pessoalmente e manter o foco sobre o plano, para o qual se preparam por meses.

Graças a isso, “La Casa de Papel” se permite trabalhar com flashbacks para que conheçamos as verdadeiras motivações dos oito assaltantes, dessa forma, o espectador é distanciado do pensamento entre torcer pelos mocinhos (a polícia arduamente traçando planos para salvar os reféns e encerrar o assalto) e as pessoas más (os assaltantes que executam o plano e contam com a ajuda dos reféns). Enriquecendo a trama, os flashbacks lançam o olhar sobre a personalidade do povo do mal, criando a curiosidade e empatia – nem que seja pela risada icônica e ridícula de Denver.

Como supracitado, nem tudo são flores. “La Casa de Papel” parece mais uma novela chata. Do lado de fora da Casa da Moeda a tensão é grande, visto o papel da polícia para resolver o caso. Além disso, de maneira “genial”, a minissérie decidiu desenvolver o típico relacionamento do “inimigo que dorme ao lado”… Se não ficou tão claro, é como costumamos ver nas novelas: a protagonista, a pessoa sofrida que nunca nem sequer mentiu ou matou uma muriçoca e se esforça demais na vida, é enganada pela pessoa que decidiu confiar e se apaixonar.

Aqui, a grandiosa e esforçada inspetora, Raquel Murillo (Itziar Ituño), luta pela guarda de sua filha contra o também inspetor (o melhor da cidade, como é conhecido), ex-marido e abusivo, Alberto Vicuña (Miquel García Borda). Em um dos momentos de coincidências que a vida traz, ela conhece o Professor Salva e aos poucos vemos ela se apaixonar pelo cabeça do plano de assalto. Mas, na verdade, é enganada pelo cabra inteligente que já pensou em tudo antes mesmo da polícia (e a minissérie inventa de usar dos flashbacks para justificar tudo e não questionarmos o QI do Jimmy Neutron e dizer que é impossível, furo do roteiro e etc), que se aproveita da situação e dribla a polícia como ninguém faria.

O problema é que colocam o moço como uma representação de um desses personagens intelectuais que esbanjam conhecimento em tela. Mas não é nada disso. Soa forçado e longe de ser brilhante, mas para a minissérie convencida de que é grandiosa, tudo foi bem feito.

“La Casa de Papel” é criativa, empolgante, boa de assistir e tudo mais, mas toda essa essência novelesca e “inteligência” do Professor só não se salva da previsibilidade. Aos poucos, todas as desculpas e intervenções do personagem pareciam aceitáveis, mas em certos momentos começou a se estabelecer como uma mesmice dentro do próprio conceito. E não só os pombinhos ficaram irritantes, como também o personagem chamado de Arturo Román (Enrique Arce), um refém desnecessário e covarde que só quer mandar e deixar os outros ferrados por querer sobreviver.

Depois de tantos altos e baixos, chatices e mesmices, a primeira parte de “La Casa de Papel” conseguiu se encerrar no auge e no previsível, o suficiente para ser instigante. Confira abaixo um compilado de imagens dos principais personagens.

 

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Segunda parte – A novela que não acaba mais

Na sua primeira parte, a ênfase de “La Casa de Papel” foi trabalhar os relacionamentos dos personagens, levantando a questão de qual lado o espectador estava: torcendo para que a inspetora Raquel acabasse logo com a novela e descobrisse a identidade ou se importando com “o povo mal” que se apaixonava  e se envolvia em conflitos, mas ainda assim queria terminar o plano.

Para incrementar esse questionamento, a minissérie ousou ao desenvolver relações intimas entre os reféns e os assaltantes, que ao contrário de se apaixonar e se apegar aos bandidos, deveriam constantemente se rebelar e lutar pela liberdade. Mais uma vez, a novela não acabou. O que poderia terminar nos seis episódios restantes, sabendo que era a reta final depois de quase quatro meses de espera, a Netflix transformou em nove episódios (totalizando assim 22 episódios), elevando o nível de chatice da novela.

Um fato que ainda gerava curiosidade na primeira parte era os episódios serem narrados pela voz de Tóquio. Ora, se a personagem narrava os acontecimentos, era sinal que alguma coisa acontecera: no final, o plano de assalto daria errado e ela seria a única sobrevivente ou estaria intimamente envolvida com tudo. Mas ainda na primeira parte, Tóquio não teve nenhum arco desenvolvido de maneira importante na narrativa. Pelo menos até a reta final, a personagem era isso: enrolação em meio à trama. No entanto, o momento do auge para a moça chegou e acertaram em cheio, o que também serviu para segurar as pontas até a segunda parte.

Mas, da maneira que se encerrou, com o ciclo do Professor se fechando, a certa altura e dada a atuação, era de esperar que a persona Jimmy Neutron iria se relevar e dizer que não era nada daquilo que estávamos pensando – e mais uma vez, tudo faria parte do plano. Dito certo. A previsibilidade da novela não iria sumir tão cedo e assim sucederia até o termino da minissérie.

Dessa maneira, a série foi abraçando cada vez mais o irritante e o ridículo diante da relação da inspetora com o Professor. Logo, a resolução esperada era novelesca mesmo: a minissérie não estava preocupada em subverter um pouco a trama e inovar de outras maneiras. Terminaria como o previsto: com a inspetora na reta final descobrindo tudo e finalmente raciocinando além do Professor.

Tirando isso, “La Casa de Papel” soube ser importante quando queria e isso se deve ao grande desenvolvimento e representatividade feminina na minissérie. Apesar do relacionamento chato de Raquel com o professor, a moça foi fundamental para destacar o papel de mulheres fortes, empoderadas que lutam para mostrar como são grandes e que crescem sobre os que esperam que elas sejam enfraquecidas. Ao lado dela, Tóquio também colabora para essa representatividade. No que parecia não ser tão importante dentro da trama, ela encontra o espaço para mostrar a que veio e ser tão forte quanto determinada.

O terceiro exemplo se estabelece graças a Mónica Gaztambide (Esther Acebo). No momento mais inoportuno decidiu revelar que estava grávida e em seguida foi desprezada. Ainda assim se sacrificava acreditando que valia a pena. Nisso, vimos a personagem crescer e lutar pela vida inocente que carregava, sobrevivendo a tudo que a colocava para baixo e sentir-se mais forte para, por fim, permitir-se encontrar um novo amor.

Talvez o quarto exemplo seja o maior para destacar o empoderamento feminino, e as os louros vão para a Nairóbi. Para firmar isso, a trama trabalhou em cima do contraste do personagem machista da minissérie: Berlim. Entre nuances e conflitos, abriu-se espaço para debater a importância, a liderança e a força da feminina de maneira grandiosa.

La Casa de Papel

Por fim, somando todos esses elementos “La Casa de Papel” não deixa de ser um fenômeno superestimado, cheia de furos, absurdos, exageros e babaquices. E seu desfecho novelesco – digno de vergonha alheia – reitera isso, ainda que aparentemente tenha corrido para caminhos diferentes (a fim de firmar o debate sobre o ato do assalto ser legítimo). Seja como for, com burburinho e elogios de que se trata da melhor série de assalto já feita, “La Casa de Papel” é uma verdadeira novela que não sabe quando acabar.

 


E você o que achou de “La Casa de Papel”? É boa mesmo ou foi superestimada? Nos conte nos comentários ou nos nossos grupos do Facebook ou do Telegram.

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Felipe Oliveira

Gosto de tudo um pouco, mas me limito em não arriscar muito e talvez escrever seja o meu momento mais sincero no qual posso expor minhas ideias e pensamentos.