Yellow Sounds #53 – Kind Of Blue (1959)

“Não toque o que está lá, e sim o que não está”

Kind of Blues - Miles Davis

Miles Davis foi lembrado ainda ontem, em função dos 25 anos de sua morte. Acho justo honrar artistas ouvindo suas obras e foi assim que, finalmente, dei a devida atenção a ele, um dos maiores jazzistas de todos os tempos. 

De um improviso ao outro, Davis e seu trompete singular integraram a vanguarda de diferentes etapas do desenvolvimento do jazz. Não sem motivo, ele tem vários álbuns na nossa lista-guia dos “1001 discos para ouvir antes de morrer” e, por tudo o que representa, Kind Of Blue é o clichê necessário para inaugurar os textos do gênero na Yellow Sounds.

Por que é um clichê necessário?  Porque a) Kind Of Blue é comumente considerado o maior álbum de jazz de todos os tempos e; b) essa grandeza se deve também ao fato de ser um álbum acessível a quaisquer ouvidos, treinados ou não para o jazz.

Não é que os demais álbuns não sejam próprios para leigos, como eu. O jazz tem muito do feeling e isso independe de conhecimentos mais técnicos relacionados às marcações, incorporações e variações de um estilo para o outro, por exemplo.

É que, muitas vezes, o jazz parece me exigir momento e humor certos e Kind Of Blue fluiu mais livre, leve e natural. E pode ser que isso tenha motivos para além do meu próprio feeling.

Kind of Blues - Miles Davis

Davis estava um pouco cansado da crescente complexidade do bebop, vendo ali um entrave para a criatividade e o improviso. Pronto para mudar isso, ele formou um de seus melhores grupos com Bill Evans no piano, Paul Chambers no baixo, Jimmy Cobb na bateria, Cannonball Adderley e John Coltrane nos saxofones. Juntos, exploraram o jazz modal que, em termos leigos, é uma simplificação que dava mais abertura ao desejado improviso.

Antes de irem para o estúdio, Miles havia fornecido aos músicos poucas informações sobre as músicas que iriam gravar. Ao que se sabe, apenas rascunhos sob os quais eles deveriam improvisar. Por essa razão, muito se destaca a qualidade e beleza de um álbum feito com pouco preparo, por assim dizer. Por essa razão, talvez, tenham sido bem sucedidos na ideia de dar novo fôlego a um jazz que lhes parecia estagnado.

Dentre os vários clássicos e obras essenciais, Kind Of Blue é um bom começo tanto para quem quer conhecer Miles Davis, especificamente, quanto para quem quer se iniciar no gênero.

A versão original do álbum tem cinco faixas em seus pouco mais de 45 minutos de duração: So What, Freddie Freeloader, Blue in Green, All Blues e Flamenco Sketches e elas vão deslizar por seus ouvidos. Digo isso só para justificar não ter considerado necessário destacar qualquer uma delas.

Kind Of Blue é uma pedida válida, mesmo para o ainda não-fã de jazz, por ser considerado uma excelente porta de entrada. Bem como para quem não tem pretensão de se tornar um ouvinte do gênero, por ser um dos mais influentes álbuns de todos os tempos. Em outras palavras, algo que pode ser recebido como obra essencial aos fãs de música.

 

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lrmatta

Lari Reis é um ser de outro planeta que acredita que se transformará em purpurina roxa quando morrer. Até lá, passa o tempo tentando aprender algo sobre música.