Segundas Impressões #22: It Follows – critérios para transar?

Esse texto possui spoilers de It Follows, mas leia mesmo assim.

Há algum tempo, fiz uma resenha mais negativa sobre It Follows (Corrente do Mal) aqui no site. Você pode lê-la aqui. Como será possível notar: 1) minha escrita melhorou consideravelmente e 2) algumas visões minhas mudaram depois de uma nova assistida na sexta-feira 13 mais recente — dia em que normalmente, assisto algum (alguns) filmes de terror. Em linhas gerais, o que tenho a dizer de novo sobre o filme é que ele é muito mais bem feito e premeditado do que eu poderia imaginar antes, contudo, fica ainda a impressão que havia um “algo mais” que poderia ter brotado dessa história.

It Follows

A premissa do filme rodado em 2014 permanece interessante, contemporânea e sedutora. Uma jovem descobre que, após ter feito sexo com um rapaz, herdou uma espécie de maldição em que uma entidade misteriosa e metamórfica que apenas ele e ela conseguem enxergar irá persegui-la implacavelmente para, caso a alcance, matá-la. As regras são simples, “it”, pronome em inglês para não-pessoas, pode vir com o rosto de alguém conhecido ou de alguém completamente aleatório, apenas caminha em um ritmo contínuo e lento e, aparentemente, não sofre nenhuma espécie de ferimento. A princípio, o fato de não haver nenhuma explicação para essas regras me incomodou bastante, mas, percebo hoje que isso ajuda a criar a atmosfera insolitamente incômoda do filme. Vale lembrar que, como o Erik disse em algum cast (ou conversa nossa), bons filmes de terror precisam ser incômodos e isso é uma característica que It Follows certamente tem.

Outro aspecto muito interessante dessa trama é a questão de o medo não ter face. Normalmente, filmes de terror abordam assassinos, criaturas e entidades que, por algum motivo, assustam e incomodam já com a sua aparência. É fácil pensar no flash com o rosto de Pazuzu em O Exorcista, em Jack Torrance de O Iluminado e até mesmo na safra de assassinos com instrumentos cortantes dos filmes slasher dos anos 80neo-slasher dos anos 90. Contudo, It Follows subverte a face do medo ao torná-la completamente irrelevante. Tanto faz se a protagonista está vendo uma idosa mal-encarada, um gigante, uma mulher que parece ter sido molestada ou o próprio pai. Não importa se as pessoas que a estão perseguindo estão nuas e a vigiando de cima de um telhado ou se parecem ser apenas mais alguém atravessando uma rua. O fato é que algo a está perseguindo e ela não pode lutar contra isso. Sua única opção é correr, o que, a longo prazo, mostra-se inútil, visto que eventualmente “a coisa” retornará. Talvez, a dinâmica que isso cria deixe o filme com um aspecto meio estagnado, mas também não descarto isso ser proposital, pois o incômodo da situação corrobora muito com a manutenção da tensão.

It Follows

Mesclada à preocupação contemporânea dos stalkers, está a questão sexual. Muito mais do que uma forma de passar a maldição adiante, o filme aborda o sexo de uma maneira que faz, a princípio, com que tenhamos a impressão de que  o “monstro” vem para punir quem transa. Para quem já viu qualquer filme dos anos 80, essa é uma interpretação automática. Porém, ao longo do filme vemos que sexo não é um tabu e, portanto, ao menos no mundo das personagens, ele não precisa ser punido. Temos alguns motivos para pensar assim. O filme se passa apenas entre adolescentes, então o julgamento dessa faixa etária é o único existente e, segundo eles, transar com o namorado não é um grande momento da vida de alguém, na verdade isso é extremamente banal. Além disso, a sexualidade dos personagens vai sempre se mostrando nos diálogos e em diversas cenas como algo do dia-a-dia deles.

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Num determinado momento, todos chegam à conclusão de que basta que a personagem principal transe com alguém para que ela se livre da maldição e não demora muito para que os dois meninos do grupo se voluntariem para o “serviço”. Em poucas palavras, um dos rapazes é muito próximo e tem um relacionamento com a moça, mas parece ser mais sensível/frágil, o que faz com que ele não seja a primeira opção. Já o outro aparenta ser “mais apto” para a situação — argumento inclusive usado para determinar sua escolha. De maneira alegórica, talvez isso queira dizer que as pessoas não têm feito sexo com as pessoas com quem elas estabelecem relacionamentos, mas com as que vão lidar melhor com a “perseguição” que isso pode gerar. O filme usa de certa ironia ao mostrar que o rapaz escolhido estava cético em relação à maldição, o que o levou a uma morte trágica. Eventualmente, o outro jovem, supostamente menos capaz de lidar com o problema, também tem uma relação para contrair o mal que assola a moça. É sútil, mas podemos ver que esse foi um momento muito mais prazeroso para a personagem feminina do que na primeira tentativa de ser ver livre.

Em suma, o filme é conduzido de maneira muito interessante e se mantém tenso o tempo todo, o que é essencial para uma boa história de terror. Entretanto, fica uma leve impressão de que It Follows poderia ter sido muito mais e não foi. Ainda assim, quem vê com bons olhos, dificilmente se arrependerá.

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