It: A Coisa (2017): quando horror e aventura se cruzam (resenha sem spoilers)

it: a coisa

Título: It: A Coisa (It)

Diretor: Andy Muschietti

Ano: 2017

Pipocas: 8,5/10

Quanto menos racional, mais visceral um filme consegue ser. Seja atacando sua nostalgia através de lembranças juvenis ou através de sustos (às vezes baratos), a capacidade de mexer com nossas sensações é o que torna o cinema algo funcional para distribuição em massa. Adaptação de um livro (imenso) de Stephen King, “It: A Coisa” é um filme que alcança nossas emoções através da simpatia nostálgica e de um medo constante pontuado de sustos, entregando um longa coerente e divertido.

A história é consideravelmente simples: na cidade de Derry, no Maine, um demônio capaz de mudar sua forma se transforma no maior medo de sua presa para que possa se alimentar de seu horror. Percebendo que a criatura ataca a cada 27 anos, e que agora está mais uma vez à solta em sua cidade, um grupo de párias escolares – chamado de “Clube dos Otários” – se une para enfrentar o bichão em 1989, tentando ao máximo não morrer no processo.

A estrutura simples do filme é comum a muitos longas ambientados nos anos 80. Embora o primeiro exemplo que nos salte à mente seja o fenômeno “Stranger Things“, da Netflix, é importante lembrar que a série da Gigante Vermelha foi um sucesso exatamente por nos remeter a outras obras anteriores a ela. Dentre esses trabalhos, cabe listar a primeira versão de “It: A Coisa”, uma minissérie/telefilme de 1990, que trazia esta mesma estrutura. Além desta adaptação, outros clássicos como “Clube dos Cinco” e “Os Goonies” trabalham dentro deste esqueleto narrativo – popularmente conhecido pelo termo “coming-of-age”, ou “história de amadurecimento”, em tradução livre.

Embora este “It” claramente surfe a onda de nostalgia coming-of-age que “Stranger Things” suscitou mais uma vez, me parece ser mais relevante apontar outra obra de Stephen King como uma referência interessante para se pensar o filme: “Conta Comigo”. Baseado em um conto de King e dirigido por Rob Reiner (de “Harry & Sally – Feitos um para o outro” e “A Princesa Prometida”), “Conta Comigo” apresentava um grupo de garotos que têm seu amadurecimento disparado pelo achado de um corpo. Além de cenas perto de trilhos de trem que muito lembram o clássico de 1986, “It” também compartilha esse arco ao fazer com que a Coisa sirva ao mesmo propósito que o cadáver em “Conta Comigo”: ao assumir a forma dos medos das crianças, a Coisa os abriga a enfrentar seus limites, o que as leva a crescer emocionalmente.

Da esquerda: Mike, Richie, Bev, Bill, Eddie e Ben.

Para um coming-of-age funcionar, é crucial uma boa equipe de atores mirins, e, assim como “Stranger Things” acertara incrivelmente em seu elenco, “It” também consegue essa proeza – inclusive repetindo uma das crianças da série acima. Este elemento só não é melhor explorado pela quantidade de personagens; o Clube dos Otários é composto por sete crianças, o que dificulta desenvolvê-las todas em duas horas de filme de maneira igualitária. O destaque maior acaba recaindo sobre Bill Denbrough (Jaeden Lieberher), Bev Marsh (Sophia Lillis) e Eddie Kaspbrak (Jack Dylan Grazer) – esse último sempre um espetáculo divertido à parte, sendo o mais convincente em seus horrores e sustos.

Contudo, a atuação que define o filme é a de Bill Skarsgård como a Coisa – também conhecida como Pennywise, o Palhaço Dançarino. O ator está aterrorizante no personagem, com sua interpretação abarcando desde uma voz arrepiante e uma movimentação perturbadora até seus olhos se movendo de forma independentemente e encarando a câmera e outro personagem ao mesmo tempo. Tudo em Pennywise grita “perigo”.

Um olho em Georgie e outro no espectador.

Isso é ainda mais pronunciado graças ao roteiro que, fugindo das convenções do terror, se recusa a trabalhar suas cenas de horror exclusivamente à noite; muitas sequências de susto e de construção de suspense e medo se dão em plena luz do dia, a céu aberto sob o sol escaldante. Uma escolha corajosa e fora do comum, ter cenas diurnas horripilantes acrescenta uma camada de insegurança ao roteiro: ao contrário de Freddy Krueger, que atacava durante o sono, ou Michael Myers, que insistia em aparecer na época do Halloween, Pennywise não tem hora nem lugar para atacar suas vítimas. O palhaço pode surgir espontaneamente em qualquer cena, de forma que os personagens nunca estão totalmente a salvo.

Esse é um elemento que realça um roteiro competente e ousado em diversos níveis. Tratando desde racismo e abuso sexual de menores (bem como os traumas que estes verdadeiros atos de horror causam), até a consciência do próprio corpo e puberdade, passando por bullying grave e psicopatia infantil, o texto e subtexto de “It: A Coisa” dançam com sucesso sobre uma linha tênue entre a construção de personagem e a exploração exagerada desses elementos. Com sutileza, o filme consegue explicar porque esses personagens fazem parte do Clube dos Otários sem transformá-los em seres unidimensionais – ou “só” vítimas, ou “só” alívio cômico, assim por diante.

“Equilíbrio” é um bom adjetivo para descrever “It: A Coisa”. Transitando entre piadas, sequências aventurescas, drama psicológico e cenas de terror diretas – com bastante sangue, por sinal -, o filme consegue se tornar algo suficientemente único e bem elaborado, de forma que o público abraçou o filme; “It: A Coisa” se tornou a maior bilheteria de abertura para um filme de terror em toda a história do cinema, bem como a maior abertura da história para o mês de setembro. Com uma sequência confirmada, adaptando a outra linha narrativa do livro original, “It” é um filme com crianças, mas de forma alguma um filme para crianças: por mais que seu terror seja pontual e dissolvido em uma aventura a la Sessão da Tarde, o conteúdo gráfico e psicológico está longe de ser apropriado para crianças menores de 16 anos, como a classificação etária indica.

De resto, assim como já comentamos aqui anteriormente, se você tem certeza de que este filme não lhe fará mal e busca algo que entretenha com conteúdo e qualidade técnica, você encontra uma ótima opção em “It”. Dinâmico, intenso e terrivelmente divertido, “It: A Coisa” é visceral – em todos os sentidos da palavra.

 

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erikavilez

Erik (sem C) é escritor, roteirista e dançarino de hula profissional lá fora. Aqui dentro, Erik é redator-chefe e comercial do site, além de criador, host e editor do PontoCast, o podcast carro-chefe da casa.