I’m Dying Up Here (2017) e a Síndrome do Palhaço Triste (sem spoilers)

Você quer saber sobre “I’m Dying Up Here”, certo? Tudo bem. Você sabe aquela piada do Pagliacci, não sabe? Um homem foi à psiquiatra, falando que estava depressivo. “Não consigo sorrir, doutora. Nada me faz feliz”. A doutora, pensativa, teve um lampejo subitamente. “Tem um palhaço no centro da cidade que faz milagres, o nome dele é Pagliacci”, ela respondeu. “Alguns dos meus clientes estavam muito tristes, e depois de ver a apresentação do Pagliacci, melhoraram subitamente.” “Mas doutora”, o homem respondeu, “eu sou o Paglacci”.

Não é necessariamente uma piada, mas também não é uma tragédia. Assim como tantos, Pagliacci era um palhaço triste, mergulhado em sombras densas dentro de si, das quais tirava todo o seu humor. Nossa geração teve – e ainda tem – muitos Pagliacci, o maior deles atendendo pelo nome de Robin Williams. Agora, alguns anos depois, a série “I’m Dying Up Here”, que fala sobre comediantes lutando pelo sucesso na década de 70, traz em ser produzida por Jim Carrey ao mesmo tempo um grande chamariz e sua sinopse embutida na persona de um dos atores de comédia mais bem-sucedidos dos últimos trinta anos.

i'm dying up here

Agora, segure um pouco. Pode parecer que estou devaneando, mas confia em mim, está conectado: Jim Carrey está com uma barba enorme. Semelhante a um ermitão, ele apareceu no talk show “Jimmy Kimmel Live!” para falar sobre “I’m Dying Up Here”. Foi ovacionado por 40 segundos ao entrar no palco. Ao ser perguntado sobre a barba, respondeu que ela tem sido uma estrela maior do que ele, mas não pareceu se incomodar, e o motivo veio logo a seguir: Kimmel perguntou como ia a vida do ator, ao que ele responde que ela ia muito bem, principalmente quando ele estava ausente dela.

A pergunta seguinte, obviamente, era se Carrey estava se ausentando do mundo, ao que ele respondeu que não, que era o oposto; “não me entenda errado, Jim Carrey é um ótimo personagem, tive muita sorte em conseguir o papel, mas não penso mais nele como sendo eu”. O público ri, Kimmel ri, Carrey sorri. O programa segue.

Robin Williams suicidou-se em 11 de agosto de 2014, três anos atrás. Enforcou-se em sua casa. Enquanto Carrey coleciona papeis como “O Máskara” e “O Todo-Poderoso”, Williams era uma estrela de grandeza maior, do tipo que o mundo vê poucas. Papeis de comédia e aventura, como em “Uma Babá Quase Perfeita”, “Flubber – Uma Invenção Desmiolada” e “Jumanji” somaram-se a interpretações dramáticas poderosas, como em “O Homem Bicentenário”, “Gênio Indomável” e, principalmente, “Sociedade dos Poetas Mortos”. Enquanto o último me tornou professor, o acréscimo de todos os outros tornaram Williams meu ator favorito; depois de anos afastado da legendagem para séries na internet, voltei a fazê-lo quando soube que ele estrelaria uma série de comédia promissora chamada “The Crazy Ones“. Robin Williams era absolutamente brilhante, hilário e de um carisma sem paralelos em Hollywood.

Robin Williams suicidou-se em 11 de agosto de 2014, três anos atrás. Enforcou-se em sua casa.

i'm dying up here

“I’m Dying Up Here” vem com a resposta para a pergunta que salta às nossas mentes quando vemos uma notícia como essa: por quê? Entre diálogos bem construídos, embora por vezes exagerados e floreados demais, uma fotografia modesta, mas eficiente, e ótimas atuações, a série consegue construir o perfil destas estrelas as quais vimos a ascensão, em êxtase, apenas para testemunharmos uma queda abrupta. “I’m Dying Up Here”, em dez episódios, fala sobre dor, perda e lutas – tudo isso que inevitavelmente compõe um comediante de sucesso. Nas palavras de Goldie (Melissa Leo), a dona do clube de comédia e papel materno dos comediantes, ainda no piloto da série:

“Se você espera que eles ajam de forma estável, sua espera vai ser longa pra cacete. Eles têm problemas com as mamães, com os papais, e são tão estáveis quanto um cessar-fogo no Oriente Médio. Essa volatilidade, essa dor (…) esse é o preço do brilhantismo, não é?”

Aparentemente sim. Apesar do roteiro previsível, a série se faz valer dos seus personagens para construir nosso apego com eles através de uma narrativa fluida e intensa, mesclando humor natural com drama humano, nos levando a nos importarmos mais com as pessoas que vemos do que com se estamos de fato nos divertindo ou não. Ao vê-los subir ao palco noite após noite para fazer seu stand up, lemos sua vulnerabilidade em seus olhos, tudo o que estão arriscando, todos os traumas que os levaram até ali. É impossível ver qualquer stand up de novo com os mesmos olhos.

i'm dying up here

Williams e Carrey são dois espectros do mesmo eixo que demonstram que muitas vezes o comediante não está sorrindo por trás da maquiagem. Pelo contrário: é sua incapacidade de fazer a si mesmo sorrir que o força a buscar que todos consigam o que ele não consegue. Enquanto Williams se enforca e Jim Carrey deixa a barba crescer e abandona o personagem de Jim Carrey, os comediantes de “I’m Dying Up Here” continuam contando piadas. Carrey disse que muitas das histórias da série foram baseadas em acontecimentos reais – e, assistindo ao programa, não duvido. Uma boa série, ao mesmo tempo densa e divertida, que nos faz pensar em todo o peso que há em ser aquele que todos esperam que os faça rir, mas sem ninguém para por um sorriso em seu próprio rosto.

O que me lembra uma história. Você sabe aquela piada do Pagliacci, não sabe?

The following two tabs change content below.

erikavilez

Erik (sem C) é escritor, roteirista e dançarino de hula profissional lá fora. Aqui dentro, Erik é redator-chefe e comercial do site, além de criador, host e editor do PontoCast, o podcast carro-chefe da casa.