Homem-Aranha: De Volta ao Lar (2017): heroi com ares de Sessão da Tarde (resenha sem spoiler)

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Título: Homem-Aranha: De Volta ao Lar (“Spider-Man: Homecoming)

Diretor: Jon Watts

Ano: 2017

Pipocas: 8,5/10

E digo o título deste texto com a melhor das conotações. Difícil encontrar jovens nascidos nos anos 80 e 90 que não cresceram com clássicos como “Curtindo a Vida Adoidado”, “Clube dos Cinco” e “Os Goonies” – em vários sentidos, a Sessão da Tarde formou o nosso caráter. Obviamente, não foi só no Brasil que gerações cresceram vendo esses filmes, e a prova está nos lançamentos que chegam aos cinemas ainda nos nossos dias com ares de infância – e “Homem-Aranha: De Volta ao Lar” é um deles. Em um filmes simples, divertido e bem articulado, o Cabeça de Teia voltou a habitar a Casa das Ideias em grande estilo.

Não vou te contar essa história que você já está cansado de saber. Além de passar por dois reboots em cinco anos e ter meia dúzia de filmes solo desde 2002, o Homem-Aranha é um heroi que já habita o imaginário popular há bastante tempo. Da série de TV da CBS e o Homem-Aranha japonês, na década de 70, até a animação dos anos 90 e os desenhos deste milênio, a figura balançante em sua teia é reconhecida por jovens mundo afora. Aqui, Peter Parker (Tom Holland, de 6 milhões de notícias sobre ele na internet recentemente) tem 15 anos e, conforme vimos em “Capitão América: Guerra Civil“, já está combatendo o crime como o heroi aracnídeo.

de volta ao lar

Como não poderia deixar de ser, “Homem-Aranha: De Volta ao Lar” brilha exatamente por fazer o que não foi feito antes. Por ser mais novo do que suas versões anteriores no cinema, Parker aqui está na escola, lidando com inimigos terríveis, como sua timidez que o impede de se declarar para Liz Allan (Laura Harrier), professores que o obrigam a assistir a todas as aulas acordado e o bullying constante que ele sofre na mão de Flash Thompson (Tony Revolori). Nesse meio tempo, o Homem-Aranha faz valer seu apelido de Amigão da Vizinhança, prendendo ladrões na rua até instruindo senhorinhas a como chegar nos seus destinos.

Isso é, de longe, o que mais destaca esta versão do nosso heroi. É fantástico vê-lo finalmente olhando para fora de seu próprio umbigo, lidando com o cotidiano do Queens somente por amar o seu bairro e ser o Homem-Aranha. O carisma de Holland ajuda a fazer com que simpatizemos com o personagem de cara (agora que finalmente encontraram um equilíbrio entre o Paspalhão-Maguire e o Hipster-Garfield), e a semelhança que o ator tem com o Peter Parker dos quadrinhos ajuda aos fãs mais antigos a aceitarem a adaptação com mais facilidade.

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Se a temática de aventuras-no-colegial não fossem o suficiente para trazer à tona nossas memórias de Toddynho e biscoitos nas nossas tardes, em “Homem-Aranha: De Volta ao Lar” Peter Parker tem seu próprio grupo diverso. Com a popular Liz, o atleta Flash, a estranha Michelle (Zendaya) e o nerd Ned (Jacob Batalon) fazem sua própria versão de “Clube dos Cinco“. Do início ao seu fim, o filme é recheado de referências temáticas e diretas aos filmes que citei aqui – com uma, especificamente, nos fazendo sorrir ao nos lembrar de “Curtindo a Vida Adoidado“.

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E estamparam as inspirações com muito orgulho.

Essa fanfarra anos 80 é balanceada pela necessidade constante do filme de nos posicionar dentro do Universo Cinematográfico Marvel. Desde a primeira sequência até os desdobramentos finais do filme, “Homem-Aranha: De Volta ao Lar” recompensa quem acompanha os muitos filmes da Marvel Studios desde 2008, e a bendita Fórmula Marvel está presente aqui, ajustada conforme a necessidade, mas representada, por exemplo, pelo vilão Abutre. Fraco e pouco representativo, o bichão voador é mais palatável por ser carismático, graças à interpretação do eterno Batman/Birdman, Michael Keaton. Além disso, o filme é repleto de referências aos outros personagens da Marvel, além da já estabelecida aparição de Stan Lee, e ainda conta com duas cenas pós-créditos.

Outro traço relevante da Fórmula Marvel é a falta de um traço autoral no filme. Não há nada que o diferencie, visual ou narrativamente, dos longas anteriores do estúdio, pelo contrário: o diretor, Jon Watts, tem pouquíssima bagagem na sua carreira, mostrando ter sido contratado mais para simplesmente executar o que veio ordenado de cima – especificamente pelos produtores Kevin Feige, da Marvel, e Amy Pascal, da Sony.

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Isso, contudo, não torna “Homem-Aranha: De Volta ao Lar” ruim, mas o torna esquecível. Amando ou odiando a trilogia original de Sam Raimi, uma coisa que “Homem-Aranha” (2002) e suas continuações ofereceram foi uma miríade de cenas memoráveis – algumas delas, inclusive, referenciadas diretamente nesse novo filme. Em “De Volta ao Lar”, temos o bom-humor esperado, cenas interessantes de ação e diálogos divertidos dentro de um arco narrativo bem construído, mas falta algo que o distingua de todo o resto.

Se há uma expressão popular que resume “Homem-Aranha: De Volta ao Lar”, essa expressão é “redondinho”. O filme não tem grandes furos de roteiro, é competente e faz com que o público saia da sessão com um sorriso estampado no rosto – e, no meu caso, com um balde personalizado de pipoca bem bonito. Mesmo que menos memorável do que algumas de suas aparições anteriores, “Homem-Aranha: De Volta ao Lar” funciona como uma celebração de um personagem que retorna para casa com muito potencial, provando que o personagem ainda tem novidades a oferecer e muita teia para lançar.

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erikavilez

Erik (sem C) é escritor, roteirista e dançarino de hula profissional lá fora. Aqui dentro, Erik é redator-chefe e comercial do site, além de criador, host e editor do PontoCast, o podcast carro-chefe da casa.