Resenha | Hollywood (1989) – as adversidades da indústria cinematográfica

O mundo do cinema nunca fora motivo de interesse para Henry Chinaski, mas a oportunidade de escrever um argumento para um filme em Hollywood (e uma boa quantia em dólares) foi o suficiente para fazer o autor abandonar sua rotina relativamente tranquila aos cinquenta e oito anos e dar início à uma nova jornada.

“Advogados, médicos, bombeiros mecânicos, eles é que ficavam com a grana toda. Escritores? Os escritores morriam de fome. Os escritores se suicidavam. Os escritores enlouqueciam.”

hollywood

A proposta para o argumento veio por um dos leitores de Hank que estava disposto a investir no autor e dar todos os passos para transformar o argumento (que ainda não havia sido escrito) em um filme de sucesso nas telas da grande Hollywood. A paixão de Jon Pinchot pela escrita de Chinaski e o incentivo de sua namorada Sarah fizeram com que as negociações tivessem início e que a ideia do filme começasse a ser colocada no papel.

No entanto, para Chinaski o cinema não era sinônimo de glamour e, uma vez dentro do processo de criação e produção, o escritor teve certeza de que aquela realidade era tão complexa e dura quanto o que vivera até então. Todo o processo criativo, a escolha dos atores, o desenvolvimento do argumento e das nuances cinematográficas, a árdua tarefa de designação dos cargos de poder fazia do filme um desafio que por vezes parecera inacabável.

Os problemas com orçamento ao longo da produção, as discussões com produtores e a obrigatoriedade em cumprir para com os eventos sociais fazia com que Hank odiasse ainda mais o meio em que se metera. Ao mesmo tempo, seus fãs o apontavam como um autor vendido, que deixara a escrita para se render aos possíveis luxos da vida hollywoodiana, algo que Hank sempre apontara como desprezível.

“E à medida que ele for sendo revisto várias vezes, as pessoas descobrirão novos sentidos nos diálogos e cenas, sentidos que ninguém pretendeu.

Elogiar demais e de menos é a norma em nossa sociedade.”

“Hollywood” foi publicado em 1989 e está entre as obras com maior teor autobiográfico de Bukowski, visto que conta sua experiência durante a criação do filme “Barfly – Condenados Pelo Vício” (1987), filme baseado na vida de um poeta americano, Henry Chinaski, por Hollywood. O filme foi dirigido por Barbet Schroeder e conta com a participação do próprio Bukowski em uma das cenas.

O ponto essencial a ser tocado quando falamos de Hollywood, além de sua metalinguagem, é a forma como Bukowski descreve e desmascara todo o processo de criação cinematográfica, tratando-o da mesma maneira como trata os demais fatos de sua vida. A escrita não se torna mais rebuscada e por vezes o autor se utiliza de termos baixos para intensificar os diálogos, proporcionando ao leitor um olhar menos inocente sobre todo a indústria do cinema e dando ênfase à presença da marginalidade em todos os âmbitos da vida humana.

 


Marília Molinari é graduanda em Letras e viciada em comprar livros. Leitora apaixonada de Ayn Rand e Bukowski, tem preguiça de séries de TV muito longas e não entende muito de tecnologia. Você pode segui-la no Twitter e no Instagram.


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