Hitchhiker – Neil Young (2017): como pintar uma paisagem com som

A sinestesia é um fenômeno raro no qual os sentidos se confundem e o indivíduo é capaz de sentir o cheiro de uma cor ou o gosto de um som, por exemplo. Em “Hitchhiker”, o mitológico Neil Young entrega uma pintura de um acalentador faroeste estadunidense em dez canções gravadas em 1976, mas somente lançadas este ano. À base somente da voz e do violão, um álbum rejeitado ressurge 41 anos depois como uma joia na discografia de um músico símbolo do folk rock.

hitchhiker
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A história por trás do álbum é tão curiosa quanto o efeito que ele causa. Nos idos de 76, Neil Young e seu produtor, David Briggs, tinham o hábito de se reunir nas noites de lua cheia em um rancho para fazer gravações – você sabe, como pessoas normalmente fazem. Nos altos anos 70, as noites certamente não passavam puras, e Young, à base de maconha, cerveja e cocaína, sentava diante de um microfone com seu violão e as músicas surgiam. O vício de drogas, especialmente heroína, sobre a qual Young comentou em “The Needle and the Damage Done” (“Harvest“, 1972) e no álbum “Tonight’s the Night” (1975), era uma epidemia na década de 70. Com pouco conhecimento sobre os danos permanentes que os químicos poderiam trazer sobre o corpo, aliado à total inconsequência juvenil e a rebelião propelida pelo rock n’roll de vento em popa, Young não era um ponto fora da curva, mas praticamente mais um na unanimidade de músicos que faziam (ab)uso de entorpecentes durante o Super Seventies, como estes anos ficaram conhecidos posteriormente.

De qualquer forma, lá estava Young, com suas drogas lícitas e ilícitas, em um estúdio em um rancho americano numa noite de lua cheia. Era lá que Neil Young pegava seu violão e se dedicava a compor suas canções – mas não num estilo tradicional. Não era uma experiência de papel-e-caneta. Era com seu violão, seu microfone e vinte minutos encarando seu produtor até que saísse, por exemplo, “Pocahontas“, a brilhante canção que abre este álbum, enquanto Briggs fazia a mixagem de som simultaneamente. Era um processo tão íntimo quanto era simples.

Este processo define o rumo do álbum. São canções curtas, quase sem refrão – em grande parte devido ao fato de que Young não tinha as músicas escritas, e também porque estava completamente chapado -, extremamente simplistas, na base da voz-e-violão e uma gaita ocasional. A textura homofônica das músicas, somada às letras reflexivas sobre a vida no oeste dos Estados Unidos – com seus “álamos”, pólvora nos dedos, valsas country e caroneiros na estrada – nos dá a sensação de estarmos ouvindo um viajante andarilho sentado no entorno de uma fogueira, improvisando canções.

Embora estas músicas tenham sido reaproveitadas em outros discos, depois que a gravadora Reprise as rejeitou na forma do álbum que hoje ouvimos, é em “Hitchhiker”, gravadas de uma forma quase improvisada, que elas têm sua força criativa potencializada; como um “The Dark Side of the Moon“, “Hitchhiker” ganha ímpeto e impacto quando suas partes são somadas e criam algo maior do que elas.

De “Pocahontas” à “Old Country Waltz“, o disco consegue ser simples sem ser repetitivo, mostrando que Young traz um domínio das ferramentas de seu ofício que remonta há pelo menos quarenta anos. É a exibição do poderio de pintar retratos com sua voz, ligeiramente fanha e cheia de vibrato, a qual, junto àquela igualmente marcante de Bob Dylan, viria a definir as estradas do folk rock. Sob todas as perspectivas, “Hitchhiker” é um álbum ao mesmo tempo único e familiar, que remonta a dias que, embora mais simples, de forma alguma devem ser queridos com saudade – principalmente pelos familiares daqueles que morreram nas carreiras de coca e na ponta de uma agulha. Ainda assim, é uma fotografia sonora vívida – e viva – de uma vida gasta na música à beira de uma interminável estrada.

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erikavilez

Erik (sem C) é escritor, roteirista e dançarino de hula profissional lá fora. Aqui dentro, Erik é redator-chefe e comercial do site, além de criador, host e editor do PontoCast, o podcast carro-chefe da casa.