Hibike! Euphonium: o belo encontro sonoro de muitas artes

Nunca neguei que tenho problemas com animes. Assistia, quando pequeno, aqueles que todo mundo via: das esferas do dragão aos monstros de bolso/digitais, minhas manhãs eram controladas por animações, muitas delas de origem japonesa. Apesar disso, me afastei dos desenhos animados com 10 anos, e, ao tentar retornar a animes variados alguns anos depois, eu não consegui me acostumar ao estilo narrativo, esporadicamente exagerado e com a frequente hipersexualização de mulheres – muitas vezes menores de idade. Em meio aos grandes títulos da mídia, um amigo tentou me convencer a dar uma nova chance ao mundo dos animes, e sua recomendação para que isso acontecesse era “Hibike! Euphonium” – e eu topei.

Foi uma sábia escolha: “Hibike! Euphonium” é uma obra de arte linda que, embora decaia em sensibilidade e bom gosto no seu segundo ano, ainda consegue entregar a arte da música em uma bela roupagem.

hibike! euphonium

O anime conta a história de Kumiko Oumae, uma garota do primeiro ano do Ensino Médio que, após ter sua banda eliminada no concurso regional, retorna para os ensaios, buscando o sucesso musical mais uma vez. Apesar de querer mudar de instrumento, Kumiko aceita continuar no eufônio – instrumento da família dos metais -, contando com a companhia de suas amigas Hazuki Katou – a qual assume a tuba -; Sapphire “Midori” Kawashima, no contrabaixo; e a quieta e introspectiva Reina Kousaka, uma brilhante trompetista. Juntas, as alunas do Colégio Kitauji vão enfrentar desafios internos e externos para alçar voos cada vez mais altos com a banda de sua escola, lutando contra disputas internas, ensaios extensivos e um condutor exigente.

hibike! euphonium

Se a trama não traz nada de novo nem muito digno de nota, a técnica com a qual o anime é feito é impressionante. O primeiro elemento que salta nem é aos olhos, mas aos ouvidos: a sonoplastia e o cuidado com todos os aspectos musicais na animação é impressionante. O cuidado alcança os mínimos detalhes; os movimentos que as mãos das personagens fazem nos instrumentos são exatamente aqueles que ocorrem na vida real, e mesmo as inserções de teoria musical são feitas com muito esmero. Isso transborda mesmo em suas músicas de abertura e encerramento, com destaque para “Tutti!”, a canção que encerra os episódios da primeira temporada.

Para os apreciadores de música, “Hibike! Euphonium” entrega shows constantemente – tanto figurativa quanto literalmente. Embora pequenos eventos estejam presentes – alguns fidedignos a um ensaio, como o fato do oboé dar o tom em si bemol, e outros delicados, como o anime apresentar instrumentos diferentes para a audiência em cada intervalo -, encorpando a trama, quando os personagens são silenciados pela música, “Hibike!” brilha. Uma cena especificamente se destaca, no episódio 1×11, na qual duas garotas estão competindo por um solo. São feitas então duas apresentações da mesma peça, e mesmo que não haja nenhum conhecimento prévio de música, o próprio som nos conta quem é a melhor. É a narrativa musical funcionando em sua forma mais pura.

Se “Hibike! Euphonium” se destaca quando seus personagens emudecem, é devido ao seu sucesso musical, não sendo demérito para suas personagens – pelo contrário, o anime tem um quarteto principal bastante carismático e firme em seus comportamentos. Demora poucos episódios para que você diferencie as personalidades, identificando manias e trejeitos, mas isso não se dá de forma jogada ou descoordenada: as figuras são construídas sem pressa, aproveitando o número reduzido de protagonistas para desenvolvê-los com carinho.

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O segundo elemento de destaque é, de fato, o visual. Vários frames da animação poderiam – e mereciam – ser emolduradas e transformadas em belos quadros, e isso não é uma ocasião rara no anime. Os movimentos são fluidos, os instrumentos retratados com riqueza de detalhes em suas silhuetas, cordas e válvulas, e as linhas dos rostos tanto masculinos quanto femininos dançam com uma delicadeza firme muito interessante. Em outras palavras, o desenho aceita o desafio de tornar complexos seus personagens, e realiza uma entrega de qualidade exemplar.

hibike! euphonium

A segunda temporada, no entanto, ambiciona apresentar mais personagens, expandindo histórias de fundo ao longo de seus episódios. Falta, porém, o mesmo esmero apresentado anteriormente, e parece que, em seu segundo ano, “Hibike! Euphonium” parece se contentar em ser mediano. Se havia uma delicadeza, por exemplo, em evitar sexualizar garotas menores de idade sem torná-las menos femininas, o episódio no qual elas vão à piscina capta diversos ângulos absurdos para realçar os seios e traseiros das meninas (fato que de forma alguma pode deixar de nos incomodar; devemos ser perturbados toda vez que um menor é sexualizado, independente da mídia). Da mesma forma, a narrativa se apresenta mais dispersa; embora continue intensa em suas emoções, ela não consegue se aproximar do nível de seu ano de estreia.

hibike! euphonium

Se antes de “Hibike! Euphonium” eu tinha problemas com animações japonesas, termino seus episódios… Ainda os tendo. Embora o anime se mostre artisticamente ambicioso e bem-sucedido, os maneirismos e vícios da mídia – com seus closes sexualmente criminosos e seu drama extremamente intenso – ainda me incomodam. Ainda assim, “Hibike! Euphonium” prova para mim – e para qualquer um que o assista – que animes de qualidade transcendem as paredes do Estúdio Ghibli, sendo a Kyoto Animation (ou KyoAni) uma fonte de brilhantes ideias executadas com excelência.

Anime e música: se você é fã de um dos dois, assista “Hibike! Euphonium”. Caso não seja, essa animação é uma belíssima apresentação – de ambas as artes.

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erikavilez

Erik (sem C) é escritor, roteirista e dançarino de hula profissional lá fora. Aqui dentro, Erik é redator-chefe e comercial do site, além de criador, host e editor do PontoCast, o podcast carro-chefe da casa.