Harry e Sally – Feitos Um Para o Outro (1989)

“Eu vim aqui esta noite porque quando você percebe que quer passar o resto da sua vida com alguém, você quer que o resto de sua vida comece o mais cedo possível.”

harry e sally

Título: Harry & Sally – Feitos Um Para o Outro (When Harry Met Sally)

Diretor: Rob Reiner

Ano: 1989

Pipocas: 10/10

O amor é um bicho terrivelmente escuso. Tentamos defini-lo em fórmulas (algumas mágicas), em teorias com pouca validade e muito esforço, e muitas vezes tentamos limitá-lo aos traumas e sucessos acumulados por nós ou por outros. A verdade, no entanto, é que o nascimento de um amor mútuo possui tantas variáveis que se mostra tão improvável quanto a origem das espécies.

Tempo, experiências de vida e coincidências inexplicáveis: esta é a dinâmica do amor, e é sobre isso que versa “Harry e Sally – Feitos Um Para o Outro”, em uma das melhores comédias românticas já feitas.

(Recomendo ler este texto ao som da maravilhosa trilha sonora deste filme. Volto nela logo mais.)

Harry Burns (Billy Crystal) e Sally Albright (Meg “Suspiro Geral” Ryan) têm sua história dividida em três partes. Eles se conhecem quando viajam juntos para Nova Iorque após o fim de seus respectivos cursos na faculdade, em 1977, e a dinâmica de ódio e atração logo se estabelece. Harry é um jovem fatalista e exageradamente pragmático – afirmando que é impossível ter uma amizade entre homem e mulher sem interesse sexual -, enquanto Sally é uma mulher independente e metódica, mas romântica, de forma que a visão de mundo de Harry – e suas investidas – são fracassadas.

Esta primeira fase da vida mostra como, mesmo que atraídos fisicamente (e, em certo ponto, intelectualmente) um pelo outro, o momento não está certo. Em fases diferentes de suas trajetórias pessoais, um caso entre os dois, ali, resultaria em Harry simplesmente desaparecendo na cidade assim que eles terminassem de fazer sexo. A imaturidade é o primeiro obstáculo a vencê-los.

Dez anos se passam, estamos em 1987, e encontramos Harry e Sally em seus pontos mais diametralmente opostos da vida. Sally está há três meses em um relacionamento, e Harry está para se casar. Amadurecido, Harry parece conceder em suas afirmações, que antes eram tão categóricas e cheias de certezas juvenis; Sally, por outro lado, parece estar reafirmada em suas convicções, visto que seu método tem funcionado até ali – muito bem, inclusive e obrigado.

Harry, ainda mais desagradável, impõe sua presença (claramente a fim de provocar Sally) durante a viagem, e então percebemos o novo obstáculo que vence a dupla: a felicidade. Neste momento específico de suas vidas, Harry e Sally estão felizes demais, mesmo que de forma transitória, para se importar em sair de sua zona de conforto. A alegria do amor que põe um sorriso fixo nos lábios de Sally e a felicidade contrafeita de Harry faz com que não haja esforço em sair do bom em busca do ótimo.

Mas como aos poucos vamos aprendendo, principalmente através do olhar dos personagens, a felicidade acomodada é transitória; a segurança que o certo nos traz é mais incerta do que percebemos. Quando seus respectivos relacionamento vêm ao chão, eis que mais um caso fortuito coloca Harry e Sally no mesmo ambiente, cerca de três anos depois de seu último encontro. Amadurecidos e endurecidos pela vida, eles põem à prova o que ele afirmara há longínquos 12 anos: é impossível que homens e mulheres sejam amigos sem segundos interesses.

As opiniões quanto a esta resposta divergem, inclusive. Veja o filme, o final da história, e decida por si se o imaturo Harry jovem estava certo, ou se Sally tinha razão. Enquanto a amizade dos dois evolui e se aprofunda, seus respectivos amigos também se esforçam em sair dos buracos que estão. A melhor amiga de Sally, Marie (vivida pela nossa querida Carrie Fisher, a Princesa Leia), luta com o fato de que o homem de quem é amante jamais deixará a esposa (ou talvez deixe?); o melhor amigo de Harry, Jess (Bruno Kirby), tem seu sucesso profissional, mas não encontra um relacionamento que o deixe em equilíbrio…

…e você pode imaginar o que acontece daí.

E na verdade, não importa que você saiba; é uma comédia romântica, todos nós temos uma noção de como estes filmes funcionam. “When Harry Met Sally” se destaca não pela imprevisibilidade do seu roteiro, mas por seus diálogos excelentes, piadas naturais e atuações com química (em tempo: Meg Ryan, ofensivamente linda neste filme). Como se tudo isso não fosse o suficiente, a trilha sonora com orquestra e cantada por Harry Connick Jr. embala o filme de maneira magistral – e não foi à toa que Connick Jr., à época com seus 22 anos, levou seu primeiro Grammy por suas interpretações de clássicos do jazz.

Outro ponto de destaque são os casais idosos que contam suas histórias de amor – algumas lindas, outras… Desconfortáveis. Em todas elas, os infortúnios que os separaram sempre cederam a qualquer que fosse o magnetismo cósmico (metafísico demais?) que os unia. Estas pequenas cenas estão entre um segmento e outro, normalmente antes de uma passagem de tempo, e ajudam o filme a não perder ritmo enquanto fica ainda mais charmoso.

Todos esses elementos são usados com muita naturalidade enquanto o filme explora todas estas dificuldades – e às vezes facilidades – da vida que se interpõem entre nós e coisas que “eram para ser”. É dessa leveza e espontaneidade de roteiro e cena que saiu uma das cenas mais clássicas da história do cinema, quando Sally finge um orgasmo em público para provar a Harry que ele não saberia diferenciar um real de um falso. Veja abaixo. Garanto que no final você vai querer pedir o que ela pediu.

Quando os acordes finais da voz de Connick Jr. descem e os créditos sobem, nós sabemos que presenciamos um ótimo filme que nos mostrou que sabemos menos do que imaginamos sobre a vida – e principalmente sobre o amor. Muitos foram os acasos que uniram Harry e Sally, mas tantos quanto foram os acasos que os separaram. Se há destino, caso Harry ficasse com sua esposa ou o ex-namorado de Sally quisesse filhos, e um dos casais não se separasse, isso fadaria o outro à solidão e tristeza? Mas se não há um destino, como explicar cada nascimento de um amor, que é sempre tão improvável quanto as circunstâncias que a ciência diz ter posto vida na Terra?

Tendemos a pensar que seria difícil este filme se passando em nosso tempo, na era do Facebook e Whatsapp Telegram, embora eu creia que não seja; a possibilidade de mantermos contato não raro fica sendo somente isso, uma possibilidade. O que importa é que, com ou sem destino, havendo tais amizades desinteressadas ou não, muitas vezes perdemos o prazer na vida com nossas tentativas frustradas de controlar um destino que talvez nem exista; enquanto isso, o Tempo parece se divertir muito mais, graças à sua paciência e consequentemente amadurecimento.

Assim sendo, preciso dizer: eu vou querer pedir o que ele pediu.

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erikavilez

Erik (sem C) é escritor, roteirista e dançarino de hula profissional lá fora. Aqui dentro, Erik é redator-chefe e comercial do site, além de criador, host e editor do PontoCast, o podcast carro-chefe da casa.