Resenha: Hardwired… to Self-Destruct – Metallica (2016)

Lançado no dia 18 de novembro, Hardwired… to Self-Destruct é o mais novo e aguardado álbum de uma das bandas mais polêmicas da história do rock/metal: o Metallica. Antes de entrarmos no faixa a faixa, é importante ressaltarmos algumas coisas. A primeira delas é que este é o primeiro disco da banda desde Death Magnetic (2008), isso se desconsiderarmos Lulu (2011), um disco de Lou Reed e Metallica. Além disso, nesse disco, Hammet não participou das composições e o disco foi produzido por James Hetfield e Lars Ulrich junto com Greg Fidelman (Red Hot Chili Peppers, Slayer, Black Sabbath, etc). Essa suposta monopolização da banda sobre o controle criativo pode ter resultado no som mais “cru” que o disco tem, com composições que possuem uma pegada muito mais característica do Metallica dos anos 80 do que da tenebrosa fase pós-Black Album. Há quem diga que Hardwired… seja uma continuação para o injustiçado …And Justice for All (perdão pelo trocadilho).

hardwired... to self-destruct

Por fim, como uma última, mas não menos surpreendente, informação, cada uma das 13 canções do disco ganhou um vídeo clipe que está disponível numa playlist no canal da banda no Youtube (você pode vê-los aqui). Essa postura é curiosa para o Metallica, visto que o grupo entrou num briga judicial ferrenha com a Napster, episódio marcante da história da banda. Além dos clipes no Youtube, o álbum já está disponível nas redes de streaming (ouça no Spotify). Será que os dinossauros resolveram aceitar os tempos modernos de “democratização” da música? Aparentemente, sim e todos ganham com isso.

Informações dadas, vamos ao faixa a faixa de Hardwired… to Self-Destruct. 

Hardwired

A primeira faixa do disco já dita o conceito do álbum. Tradicionalmente, o Metallica trabalha com temas. Para falar do trabalho anterior, Death Magnetic, a banda explicou que a ideia era mostrar como a morte estava próxima em todos os momentos, e como as pessoas são imãs para ela (ou vice-versa). Neste disco, a ideia é falar de comportamentos, atitudes e rotinas autodestrutivas. Em diversos momentos o disco fala da destruição que vem fora para dentro, ou que habita nos seres humanos. Assim, Hardwired já mostra a que veio, com uma pegada bastante thrash. A música é agressiva nos riffs e no refrão desbocado. Um chute na porta. A melhor maneira possível de abrir um álbum.

Atlas, Rise!

Certamente uma das melhores faixas do disco, pois é uma daquelas canções longas que não enjoam pela variedade da composição. Hetfield faz a guitarra base que o consagrou como um dos melhores guitarristas nessa função. Além disso, a música tem solos memoráveis e um interlúdio digno de grandes composições da banda como One Master of Puppets. Não bastasse isso, a letra da música faz referência ao titã da mitologia grega que suportava o mundo nas costas; uma evidente alusão a como estamos todos tentando equilibrar os nossos mundos nos ombros o tempo todo. O refrão da música, diga-se de passagem, é feito para se cantar junto e a plenos pulmões.

Hardwired... to Self-Destruct

Now that We’re Dead

Aqui, a primeira baixa do disco. A música está longe de ser ruim, mas destoa da pegada mais agressiva do álbum, pois a canção soa como um hard rock bem pesado (lembra sons de Load Reload, por exemplo). Vale mencionar que essa é a primeira aparição do baixo de Trujilo no disco e, ainda assim, não é tão empolgante assim. A passividade das linhas do instrumento podem ser consideradas um ponto baixo do disco como um todo. É doloroso fazer uma resenha do Metallica e ainda ter que comentar que substituir Cliff Burton e Jason Newsted é uma tarefa bastante ingrata. No fim das contas, o que fica da música são o refrão e os riffs grudentos.

Moth into Flame

Outro grande momento do disco. Novamente uma música grande, com riffs nervosos, uma bateria empolgante e Hetfield fazendo palhetadas invertidas como se não houvesse o amanhã. Kirk Hammet também manda um solo muito bom aqui e, novamente, o baixo da música poderia ser sido mais do que aquele som de fundo entre as guitarras e a bateria que você sabe que está lá, mas não consegue identificar. Por fim, a letra da música aborda a autodestruição sob o ponto de vista de quem se encanta pelos holofotes, tal qual uma vespa nas chamas (título da música traduzido). Pensando nisso, o refrão diz “a mesma ascensão e queda/ quem se importa?/ seduzido pela fama/ uma vespa nas chamas”. Os versos nos fazem pensar: estaria a banda, de certa forma, referenciando o “tempo em que andou perdida”?

Dream No More

Aqui entramos numa verve mais grooveada do Metallica, quando o som desacelera e ganha um peso monstruoso junto de um ritmo feito para bater cabeça. Nessa letra, Cthulhu volta a entrar no vocabulário da banda e o fim do mundo é trazido à baila. Como já disse, a faixa mostra ótimos grooves e peso das guitarras e bateria, além disso, Hetfield faz um vocal um pouco mais agudo do que o normal em alguns momentos. O vocal dele nunca esteve melhor, diga-se de passagem. Por fim, a música tem uma parte melódica bastante interessante e uma paradinha que vai causar muitos ataques cardíacos durante os shows.

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Halo on Fire 

Aqui temos um momento dispensável para o disco. A canção começa muito empolgante, variando momentos mais limpos e momentos mais pesados e agressivos. Contudo, a canção acaba caindo para o lado mais clean e isso se mostrou uma decisão improdutiva. Fora isso, o solo é estranho e a música cansativa. Fica a impressão que uns dois ou três minutos a menos teriam feito bem à canção.

Confusion

Apesar de essa música não se assemelhar à grandiosidade de outras faixas, talvez ela exemplifique muito bem o disco como um todo. Seus riffs são muito bons, mas os solos de Hammet aqui são esquecíveis e cheios de wah-wah, nenhuma novidade para quem acompanha o Metallica. Essa canção é uma das que vale a pena assistir o clipe junto, pois sua letra faz uma grande alusão que é bem expandida pelo vídeo.

ManUNkind

Um ponto interessante do álbum. Novamente o groove é explorado num riff principal que lembra bastante bandas como o Pantera, porém, “mais leve”. Isso só ressalta a falta que um baixo mais marcante faz. O título da música é um jogo com as palavras “man“, “unkind” e “mankind”, algo que se relaciona diretamente com letra que fala, basicamente, da maldade dos seres humanos e sua incapacidade de serem bons. A composição é recheada de citações bíblicas o que casa com o visual black metal dos anos 90 usado no clipe. A caracterização teve direito à logo ilegível, crucifixos invertidos, cabeças de porco, automutilação no palco e banho de sangue. No fim das contas, tudo soa como uma grande piada, o que pode deixar fãs do estilo irritados. Mas, ainda assim, vale a pena assistir e se divertir.

Hardwired... to self-destruct

Here Comes Revenge

Os grandes trunfos dessa faixa são o seu peso e, principalmente, a sua letra, que conta uma história sobre o que Tarantino considera o maior motor para boas narrações: vingança. O clipe vale muito a pena ser assistido, pois é uma animação bizarra e que, aos poucos, vai se mostrando surpreendente.

Am I Savage?

Outro grande momento do álbum, também na seara das músicas com uma pegada mais grooveada, lembrando um pouco King Nothing, porém muito mais pesada. A letra fala da maldade e selvageria contida dentro de cada ser humano, porém, a mensagem é desenvolvida através de uma metáfora envolvendo a figura da fera. Assim, diversos itens típicos da mitologia do lobisomem são citados, mostrando o empenho com a composição.

Murder One

Aqui temos um momento especial do álbum. Recentemente, um ícone da música pesada nos deixou. O baixista/vocalista do Motorhead, Lemmy Kilmister, faleceu em dezembro de 2015, e talvez ele  seja uma personificação do que significa autodestruição, já que ele nunca deixou o estilo de vida perigoso que escolheu para si, no maior estilo “no remorse, no regrets“. Murder One homenageia esse ícone com peso e muitas citações do próprio Lemmy. O vídeo, uma animação, pode deixar os mais saudosos emocionados.

Hardwired... to Self-Destruct

Spit out the Bone

Uma música ligada no 220 o tempo inteiro que varia partes velozes com melodias interessantes e outras grooveadas e com muito peso. Além disso, finalmente, um solo marcante aparece com partes em que temos guitarras dobradas e arpejos em meio à típica fritação da guitarra. A letra da música também vale menção, pois fala de um futuro distópico em que os homens são substituídos por máquinas. O clipe é como se fosse um micro-filme trash de ação com muitos efeitos toscos e lutas bem coreografadas. É bastante divertido.

Lords of Summer

O disco termina muito bem com Lords of Summer e suas referências à vinda de um tempo em que acabaram as intempéries do inverno. Isso é algo que pode ser entendido como uma referência ao atual bom momento da banda em relação ao inferno astral vivido alguns anos atrás. A canção foi um single especial lançado em 2014 e melhorado para esse álbum. A música tem todos os elementos que fizeram do Metallica o que é hoje e, justamente por isso, a canção termina e você fica satisfeito pelo conjunto da obra.

Em conclusão, sob os aspectos positivos e negativos, Hardwired… to Self-drestruct é um típico álbum do Metallica, que tem vários momentos diferentes, nem todos com a mesma capacidade de agradar. Porém, como um todo, o disco tem muita personalidade e vale bastante a pena de ser ouvido.