The Handmaid’s Tale (2017): da liberdade à submissão (resenha com spoilers)

Chegamos ao final da primeira temporada de “The Handmaid’s Tale”. Fomos mergulhados em uma realidade na qual tudo parece ter virado de cabeça para baixo, marcada por cenas chocantes, traições, romances e estratagemas. Neste texto discutiremos um pouco sobre a gênese de Giliead e a relação entre diversos personagens ao longo da trama.

Este texto contém spoilers da primeira temporada de “The Handmaid’s Tale”. Caso queira ter uma noção da série sem spoilers, clique aqui.

 

Os porquês de “The Handmaid’s Tale”

Ao longo da trama fomos descobrindo o passado das personagens e os caminhos que às levaram ao estágio atual da história. Flashbacks mostraram os dilemas pessoais de June, Luke, Serena e outros, ao passo que nos davam vislumbres da criação da República de Gilead.  Desde o projeto de governo à implementação do novo regime, Fred Waterford e Serena Joy foram decisivos para a afirmação das “novas-velhas” ideias.

Handmaid's Tale

Enquanto Fred se focava na politicagem do processo, Serena se interessava pela propagação de ideias alinhadas à ideologia radical. A futura Srª. Waterford era uma escritora dedicada à literatura do “feminismo doméstico”. Apesar de os diálogos não detalharem o conteúdo dos livros de Serena, a série deixa claro o posicionamento da escritora, tanto pelos flashbacks de conversas entre ela e Fred, quanto pela transformação dos costumes em Gilead.

 

Feminismo Doméstico

Na vida real, “feminismo doméstico” é uma corrente ideológica que basicamente diz que uma mulher, em especial uma mãe, deve ter o direito de optar apenas pelos afazeres domésticos e não precisar trabalhar fora de casa.

Esse conceito era largamente difundido na Era Vitoriana. Uma escritora inglesa chamada Charlotte Elizabeth Tonna foi uma das maiores propagadoras desse pensamento na época. A escritora é pouco conhecida, embora tenha sido vanguardista na utilização da literatura ficcional como forma de debate de problemas sociais, em especial da Inglaterra.

A análise do momento de uma sociedade é uma tarefa complicada quando o ponto de vista é somente interno. Pensamentos como os de Charlotte, apesar de seguirem a premissa feminista do direito de decisão, podem soar estranhos ao entendimento contemporâneo, por exemplo.

Handmaid's Tale

Entretanto, costumes e ensinamentos como os da época de Charlotte, se fundiram às práticas cotidianas tornando o que deveria ser “direito” em um padrão a ser seguido. Esta concepção de viés machista perdura até hoje, por isso, é comum que mulheres acabem reproduzindo estes pensamentos e atitudes inconscientemente, sem enxergar problemas e simplesmente vivendo como foram ensinadas a viver.

No decorrer de nossa História, a fome de poder masculina formou mulheres submissas. Apesar de muitos movimentos e lutas por direitos, ainda hoje é comum que mulheres não sejam vistas com os mesmos olhos que homens em determinadas situações. Mulheres precisaram se organizar para que pudessem votar, trabalhar, passear, vestir-se à sua maneira – para terem o mínimo de controle sobre suas vidas.

 

A arte imita a vida

Em “The Handmaid’s Tale”, o mundo é acometido por algo que ninguém imaginava ser possível: algumas mulheres se tornaram inférteis, desencadeando o envelhecimento da população e colocando em risco a existência da humanidade. Com a consolidação da República de Gilead, testemunhamos a relegação de direitos femininos. Desvirtuando o conceito de feminismo doméstico defendido por Serena, as mulheres foram obrigadas a deixar seus postos de trabalho, tiveram suas contas bancárias suspensas e postas sob o poder dos representantes masculinos mais próximos.

Imediatamente somos remetidos alguns séculos ao passado, quando mulheres eram vistas não como pessoas, mas propriedades, primeiro pertencendo aos pais e depois aos maridos – ideia demonstrada pela existência de um dote no momento do casamento, por exemplo. Não era uma relação entre iguais, mas uma compra, uma troca.

Handmaid's Tale

Retomemos Charlotte Elizabeth Tonna, escritora e cristã radical. Suas obras, em geral, tratavam do papel que a mulher exercia ou deveria exercer durante o processo de revolução industrial inglesa. A autora usava justificativas como a insalubridade das fábricas e o “perigo de que mulheres estivessem tomando o espaço masculino no mercado de trabalho” para contestar o papel feminino que tomava forma na época.

Assim como Serena Joy, Charlotte direcionava seus textos para o comportamento feminino. Em espelhamento, ambas se mostram tão fielmente imersas na religiosidade das ideias que parecem não perceber o impacto que poderiam causar. O pensamento de Serena é bastante linear quanto à situação que é construída. Ela se condicionou a isso. Sabia que o resultado seria aquele, mas ajudou a desenvolver o sistema por acreditar em um “bem maior”.

 

Relação natural x Relação artificial

A a primeira temporada de “The Handmaid’s Tale” faz distinções bem claras entre a importância e a validade das diferentes relações humanas, bem como sobre o significado dos contratos matrimoniais e costumes sociais, e de como podem ser facilmente transformados quando enfrentam barreiras emocionais.

Enquanto o relacionamento de June e Luke é ilustrado desde o início como uma ligação de afetividade, reforçada pelo nascimento da filha, Hannah, Fred e Serena são o paralelo mais próximo de “The Handmaid’s Tale” com o casal Underwood, de “House of Cards“.

Ao analisar o passado e o presente do casal Waterford, é visível a transformação das personagens ao sentirem na pele os efeitos práticos das próprias ideias. A decisão de viver sem liberdade de direitos, de pressionar a si mesma para “ter” um filho e o fato de não possuir mais uma relação de marido e mulher descrevem Serena. Enquanto isso, o afastamento sexual, intelectual ou mesmo familiar compromete o casal como um todo.

Handmaid's Tale

Serena e Fred eram felizes de início, mas, com o advento da “nova ordem”, essa relação se converteu em uma ligação mecânica de “patrão” e “subalterna”. A pressão que Serena impõe sobre si mesma para formar uma família (“completa”, nos moldes cristãos demarcados na série) se repete nas casas de outros comandantes, uma vez que a taxa de natalidade deve manter um padrão.

Essa gana pela construção de uma família é um reflexo de tempos antigos, que até hoje refletem na nossa sociedade. Em muitos casos, a completude feminina só passa a ser validada pela comunidade em volta quando a mulher se casa e/ou gera uma criança.

 

Leis humanas x Leis divinas: a teocracia simbólica em “The Handmaid’s Tale”

Valendo-se do poder, Fred substitui, com a figura de June, o que está quebrado em seu casamento, de conversas e jogos até o sexo. Ignorando as regras que ele mesmo ajudou a criar, Fred leva June a um covil secreto de prostituição controlado por homens importantes do governo de Gilead. Nesse lugar, aias fugitivas e outras mulheres que não conseguiram se encaixar no sistema se tornam concubinas declaradas. Seu papel é servir aos caprichos e necessidades sexuais dos homens de poder, visto que, pelas leis da nova república, as relações sexuais diretas entre maridos e esposas não são permitidas.

A exemplo de Serena, Fred também precisa lidar com os efeitos colaterais do sistema na série. Era simples para ele, enquanto homem de poder, exercer o domínio sistemático, controlando e usufruindo das vantagens de ser um comandante.

Handmaid's Tale

Basta o exemplo de comportamento da esposa de um dos comandantes (acusado de traição e que teve sua pena agravada a pedido da mulher) para que Fred tente voltar à segurança do relacionamento com Serena. A série nos mostra, porém, que o poder das esposas não está no exercício do domínio, mas na habilidade em contornar a falta dele.

A contradição da situação é um paralelo à realidade política do nosso mundo. Seja com a atitude omissa de uma secretária de estado em uma operação militar, seja nas maquinações para a deposição de uma presidente ou na reformulação de leis para a redução de direitos de uma classe: “The Handmaid’s Tale” nos lembra, em meio aos seus debates sobre a subjugação da mulher dentro da sociedade patriarcal, que atos políticos abusivos tem o mau hábito de reincidir nos próprios autores.

***

Artigo em co-autoria.

Escrito por Lenise Moretti, rainha das séries (boas e ruins), membro do Cantinho Sentimental, do Vilacast, tuiteira (twitter.com/lelemoretti) e a melhor social media do PontoJão.

Escrito por Leandro Bezerra. Encontre-o no Twitter.

The following two tabs change content below.
Do cult popular ao pop culto: PontoJão é o lugar para você ir além do senso-comum. Seu ponto além da curva.