Comentário | Como Gundam revolucionou o gênero de mecha

Mesmo antes do sucesso de “Gundam”, o Japão sempre teve uma tendência a gostar de obras com máquinas – o nicho chamado de mecha, e as representações deste interesse na indústria do anime surgiram nos anos 60 com “Astroboy” (1963) de Osamu Tezuka e “Cyborg 009” (1966) de Shotaro Ishinomori. Nesta época o robô era retratado o mais próximo possível da aparência humana e a fórmula foi um sucesso absoluto, vendendo uma infinidade de merchandising.

gundam
“Astroboy” e “Cyborg 009”

No mesmo período, outra vertente dentro gênero estava tomando força: a “Super Robô”. Essa, por sua vez, consistia em robôs gigantes controlados de alguma maneira por humanos, com “Tetsujin 28-Go” sendo seu principal expoente. Até que, em 1972, Go Nagai revolucionou o sub-gênero com “Mazinger Z”, onde pela primeira vez vimos um robô sendo pilotado por um cockpit e mechas com identidades visuais criadas já com ideia de serem transpassadas para bonecos, outro gigantesco sucesso.

“Mazinger Z” (1972).

Alguns anos depois, em 1979, chega “Kidou Senshi Gundam”, ou “Mobile Suit Gundam”, trazendo ideias e conceitos totalmente novos ao gênero. Os robôs eram visualmente mais realistas, o que criou o sub-gênero “Real Robots”, mas agora dividiam o tempo de tela com dramas pessoais e politicagem – a série se levava mais a sério. Infelizmente, o anime foi um fracasso no Japão inicialmente, visto que poucos brinquedos foram vendidos.

“Mobile Suit Gundam” (1979)

Dois anos depois, a série foi exibida fora do Japão e ela encontrou seu público: as crianças que cresceram assistindo os animes de mecha do começo dos anos 70 e queriam algo a mais do gênero que tanto amavam. Esta talvez seja a maior revolução que Gundam criou. Mechas não eram mais um produto para crianças, também incluindo os adultos dentro do seu público-alvo. Como você já deve ter percebido, o sucesso dos animes de mechas são medidos por bonecos, e nesse caso não foi diferente. Junto com a popularização da série entre os adultos surgiram os gunplas, modelos de plásticos que deveriam ser montados e pintados pelo próprio comprador. Os brinquedos venderam toneladas e assim criadores e estúdios viraram os olhos para esta nova fatia do mercado.

Com essa revolução o gênero de mecha nunca mais foi o mesmo, dividido nitidamente entre pré e pós-Gundam. Durante todo os anos 80 era possível ver a influência de “Gundam” em obras como “Macross”, “Patlabor” e “VOTOMS”. O gênero só foi ter outra grande mudança em 1995 com “Neon Genesis Evangelion” introduzindo dramas psicológicos pesados e robôs mais humanoides, mas, é claro, “Evangelion” também possui sérias influências de “Gundam”. Dizer que não existem mais animes de mecha sem esses impactos é completamente impossível.

“Gundam” virou uma franquia com o tempo e sobrevive até hoje contando com mais de quinze séries, filmes, mangás e OVAs. Gunplas ainda vendem como água até hoje, consistindo em 90% do mercado de modelos de plástico e movimentando bilhões de ienes todos os anos. A franquia não só revolucionou o gênero de mecha, como todo um mercado de brinquedos e a vida de diversas pessoas por todo o mundo, transformando programa de criança em negócio de adulto.

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Aldeão da terra do morango, tokufã de carteirinha e editor dos tronos