Resenha | Good Girls: 1ª Temporada (2018) – saindo do comodismo

Para haver mudança é necessário sair do comodismo. Ainda que não estejamos preparados para encarar tal mudança, dar o primeiro passo pode ser desafiador e capaz de mexer com muitas estruturas, e a única maneira de saber o que acontece é arriscando. Lançada em 26 de fevereiro de 2018, a primeira temporada de “Good Girls” pode muito bem ser tida como uma análise de quando damos o primeiro passo para obter a mudança, no entanto, foi traçando um delicioso e empolgante caminho, misturando o gênero do crime com a dramédia, que a série conseguiu ser muito mais que isso.

Título: Good Girls

Ano: 2018

Criada por: Jenna Bans

Estrelas: 4/5

Este texto contém leves spoilers

Sendo comparada com o longa “Thelma e Louise” de 1991 e a finalizada série “Breaking Bad”, “Good Girls” estreou tendo um início semelhante a muitas outras séries em que vimos os personagens se afundarem na lama por tentarem resolver seus problemas – como esquecer de Norma e Norman na inesquecível “Bates Motel“? -, porém, sabendo agradar à medida que cativava o seu público. No filme de “Thelma e Louise”, como uma ode à liberdade feminina, tivemos as respectivas figuras (interpretadas por Susan Sarandon e Geena Davis) visando deixar a rotina de dona de casa e uma estadia como garçonete. Juntas, seguem na estrada para uma viagem, mas no caminho acabam se envolvendo num assassinato. Já “Breaking Bad”, tivemos o professor de química Walter White (Bryan Craston) que, desesperado para oferecer uma vida melhor para a sua esposa grávida e filho deficiente físico, passou a produzir e vender metanfetamina juntamente com o seu antigo aluno Jesse (Aaron Paul) depois de descobrir que sofre de câncer de pulmão.

Em “Good Girls”, fomos apresentados às três melhores amigas: as irmãs Annie Marks (Mae Whitman, do filme “D.U.F.F“) e Beth Roland (Christina Hendricks), e a terceira integrante Ruby Hill (Retta). A primeira, enrolada para conseguir um bom advogado que a ajude a não perder a guarda da filha Sadie (Izzy Stannard); Beth vivendo a cansativa rotina de ser dona de casa e cuidar de quatro filhos enquanto seu marido Dean (Mattew Lillard, o eterno intérprete de Salsicha) trabalha numa concessionária, até descobrir que ele a traía com a secretária; e Ruby na constante luta para conseguir um rim saudável para a sua filha Sara (Lydia Jewett). O que as três tinham em comum além da maternidade e os problemas familiares, era a necessidade de dinheiro, o que as levam a assaltar o grande mercado em que Annie trabalha, e roubar a quantia que tinha no cofre. O que elas não esperavam era que o dinheiro roubado se tratava de algo muito maior e complicado.

cena do filme “Thelma e Louise”.

A comparação da série com “Thelma e Louise” e “Breaking Bad” vale pelo estado em que os personagens se encontravam e pelo impulso radical que os levaram a mudar, o que também acontece com o trio feminino de protagonistas da série. O torto e irônico no show está atrelado ao fato das personagens fazerem coisas erradas que violam leis e ética para salvarem quem ama, e ainda assim o público perceber que está torcendo a todo tempo para que tudo dê certo na bola de neve que se formou. Nesse caminho, “Good Girls” desenvolveu dois pontos que elevaram o nível de discussão: a autodescoberta do trio e o retrato de que como o machismo, a misoginia e o preconceito atuam na sociedade.

Uma boa maneira que “Good Girls” arranjou para conduzir esses dois pontos foi abordando situações cotidianas para tratar de suas personagens devidamente. Começo aqui falando de Ruby e o talentoso trabalho de sua intérprete Retta (que eu não conhecia). A personagem é totalmente dedicada à sua família e principalmente à Sara. E no trajeto para conseguir o máximo de dinheiro para continuar comprando remédios até que surgisse a doação de um rim saudável para a filha, Ruby teve que lidar com o duro ambiente como garçonete numa lanchonete perante a injustiça que é proposta quando as pessoas deixam de ser honestas a fim de se livrarem do mal que cometem. Outro aspecto muito bem colocado e trabalhado através de Ruby, foi quando de maneira hilária e genial ela resolveu pacificamente o atrito que tinha com outra figura feminina que flertava com o seu marido.

good girls

Com Annie, indo além do arco envolvendo a guarda de sua filha (que sofria bullying por ser transgênero), a personagem carregou outro ponto importante que resultou num diálogo necessário que predomina na nossa sociedade: a cultura do estupro e a culpa sobre a vítima. Enquanto Annie estava sendo ela mesma, alguém muito próximo dela entendia que o seu jeito, corpo e gestos eram uma forma de sedução, e por não conseguir possuir o que queria, essa pessoa a perseguiu de todos os jeitos para tirar a pouca paz que tivesse. Por mais que toda a abordagem parecesse tão batida e usada só para encher linguiça, na verdade tinha uma forte discussão e reflexão sendo levantas e maior exemplo disso fica a cargo da frase “não é porque você quer possuir uma coisa que você pode pegá-la” – ou algo do tipo.

Por último, tivemos o maior exemplo e destaque da temporada com Beth. A descoberta de traição foi o suficiente para que Beth apertasse o botão de reiniciar e não aceitasse mais viver sob qualquer julgo que lhe impusessem. Se saber como mexer no controle remoto da TV e sincronizar o sinal da antena foi o primeiro passo, Beth andou e pisou firme determinada aos poucos a dar a volta por cima. Se livrar do julgamento de que deveria ser sustentada e protegida (“eu não tenho medo do escuro”, que cena, queridos, que cena”) pelo marido enquanto deveria apenas cuidar da casa e crianças, foi o que Beth precisou para abraçar toda a fúria e saber que poderia assumir o controle e fazer tudo o que não esperava porque tinha sua liberdade ditada e limitada pelo medo, insegurança e mimos falsos de quem não a amava de verdade.

Foi com um humor certeiro e espontâneo, combinado com a química contagiante de todo elenco e um bela carga dramática que Good Girls sustentou o seu primeiro ano em cima de pontos e mais pontos para findar a temporada com maestria de um jeito insano e arrebatador, deixando o público com o gostinho de querer a segunda temporada para ontem.

 


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Felipe Oliveira

Gosto de tudo um pouco, mas me limito em não arriscar muito e talvez escrever seja o meu momento mais sincero no qual posso expor minhas ideias e pensamentos.