GLOW – 1ª Temporada (2017): glitter, golpes e mulheres no poder (resenha sem spoilers)

A década de 1980 é, por uma série de fatores, a fonte mais prolífica para a cultura pop até os dias de hoje. Entre penteados bizarros e roupas que são praticamente uma exposição de arte moderna, a Década Perdida foi reencontrada nos últimos 15 anos, trazendo um banho de nostalgia para quem a viveu e uma saudade contraditória para quem nasceu já na época que Mark Wahlberg era ator e não cantor. “GLOW”, a nova série da Netflix ambientada nos anos 80, traz diversos elementos nostálgicos para seus episódios, e, com um combo de glitter/porradas/mulheres, consegue trazer um olhar relevante para um produto que, em primeira análise, seria só um desfile de fetiches.

Para os preguiçosos, já adianto: “GLOW” é uma série excelente, com ótimo roteiro e ambientações, bem como atuações e uma dramédia no ponto. Agora leia o porquê abaixo.

GLOW

Trazida à vida pela Netflix, “GLOW” é uma mistura curiosa de “Orange is the New Black” com “Stranger Things” – outra cria imensamente popular do serviço de streaming. “GLOW” compartilha a produtora-executiva Jenji Kohan (criadora de OITNB) com a série das presidiárias, além de absorver o seu conceito de mulheres retomarem o controle das suas vidas – e de seus corpos -, mesmo que em circunstâncias diferentes; de “Stranger Things” é transportada toda a inspiração para toda a ambientação da série: do letreiro em neón na abertura à trilha sonora oitentista, “GLOW” poderia muito bem ser “a palavra que ouvimos”, como “Grease” foi um dia.

Essa construção do ambiente em “GLOW” faz com que nos sintamos automaticamente conectados à série, e esse é o poder bem empregado dos anos 80: a série se preocupa menos em construir um mundo com o qual você se importe, já que tudo o que você vê e ouve já te desperta lembranças e te põe familiarizado, muitas vezes com coisas que nem mesmo vivemos. A Netflix já é mestra nessa técnica: além do neón comum entre “GLOW” e “Stranger Things”, “Wet Hot American Summer: First Day of Camp” traz várias canções também vistas na série das mulheres lutadoras, como a “Rock You Like a Hurricane”, do Scorpions. Entendendo cada vez mais precisamente do que o seu público gosta, a Giganta Vermelha lança séries com tantos pontos em comum que poderiam se passar no mesmo universo, mas mantendo a identidade una e distinta de cada uma de suas atrações.

GLOW

“GLOW”, por exemplo, é um alto conceito em sua melhor forma: mulheres aspirantes à fama participam de um programa de luta livre produzido por um jovem rico mimado e um diretor idiossincrático que insiste em chamar tudo o que faz de arte, seja isso um programa sobre mulheres em lutas coreografadas ou seu último slasher blaxploitation – pense num Tarantino/Robert Rodriguez, e eis o homem que coordena as câmeras de GLOW.

Esse conceito não é novo, pelo contrário: Gorgeous Ladies of Wrestling (Belas Damas da Luta Livre, em tradução também livre), ou GLOW, foi um programa que inicialmente foi ao ar de 1986 a 1992 e se diferenciava dos outros programas de luta por apelar mais para um enredo, além de ter mais glamour e humor do que outras “competições” do gênero. Na “GLOW” criada pela Netflix, o pano de fundo é exatamente o mesmo, inclusive no ano de lançamento do programa[1], porém focando no desenvolvimento das personagens que trazem o programa à vida.

GLOW
As GLOWs originais.

E são essas personagens que realmente fazem o sangue correr em “GLOW”; é brilhante ver como cada mulher consegue ganhar seus traços que a definem, além de trazerem seus próprios desenvolvimentos para a série. Alison Brie (de “Community” e “Mad Men“) está incrível como Ruth “Zoya, a Destruidora” Wilder, uma atriz frustrada que, após cometer um erro grave, se vê obrigada a não só conviver com ele, mas tirar o melhor proveito possível da situação para talvez ter o grande sucesso que busca. Betty Gilpin (que brilhou em “American Gods“) traz à sua Debbie “Liberty Belle” Eagan dimensões que correspondem à complexidade de sua personagem: antes uma atriz de novela com considerável sucesso, Debbie agora tenta se convencer de que ser mãe e ter um marido e uma casa no subúrbio é o suficiente para trazê-la felicidade.

Embora cada uma das Belas Damas da Luta Livre tenha seus próprios traços curiosos – como Sheila, a Loba-Mulher, que se veste como uma gótica-lupina diariamente, ou Carmen “Machu-Pichu”, que quer corresponder às expectativas de uma família tradicional da luta livre -, todas elas têm em comum o traço de que precisam desesperadamente retomar o controle de suas vidas. Sendo dominadas e enfraquecidas por homens importantes em suas vidas ou pela sociedade, como um todo, todas elas inicialmente veem em GLOW somente uma forma de garantir seu ganha-pão, mas encontram no programa uma forma de serem donas de seus próprios corpos, fazendo com que se sintam no real domínio de suas vidas.

GLOW

Este ponto faz com que “GLOW” seja uma série além do comum e especialmente relevante: vemos mulheres nuas, com roupas sensuais e cavadas (à la maiô da Xuxa, nada que você não tenha visto na sua infância) e se esgalfinhando com outras mulheres, mas não para satisfazer ao fetiche masculino. Elas fazem isso por elas mesmas. Toda vez que a nudez ou o corpo feminino é apresentado na série, as mulheres estão em pleno domínio dele, e quando lutam dificilmente o fazem uma contra a outra, mas uma com a outra, em uma parceria que visa apresentar o show que é esperado delas. É uma visão revigorante, uma vez que na imensa maioria das vezes que estes elementos são apresentados, eles ocorrem sob o ponto de vista do desejo do homem – o que ele espera e quer -, fazendo com que a série da Netflix torne-se diferenciada e mais rica em sua abordagem – semelhante ao que fez “Orange is the New Black” se destacar dentre os lançamentos iniciais da Titã Rubra dos streamings.

Ao final da excelente primeira temporada, vemos que todas as mulheres chegam a “GLOW” desesperançadas e cansadas em suas lutas diárias, buscando sucesso em uma carreira canibal e cruel para as mulheres – o famoso showbiz – que as trata como chicletes mascados. Se a História nos diz que elas não conseguiram a fama perene que buscavam (visto que não reconhecemos nenhuma das atrizes da GLOW real), essas lutadoras da nova série da Netflix permanecem na jornada do maior combate que já viveram: aquele pela retomada do controle de seus corpos e, em última instância, da sua vida.

OBS.: Se a GLOW real teve 6 temporadas, já podemos começar nossa demanda, familiar à Alison Brie e os fãs de “Community”: six seasons and movie!

GLOW

[1] Menciona-se que “De Volta Para o Futuro” tinha acabado de lançar nos cinemas, colocando as filmagens da GLOW da série por volta de julho de 1985.

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erikavilez

Erik (sem C) é escritor, roteirista e dançarino de hula profissional lá fora. Aqui dentro, Erik é redator-chefe e comercial do site, além de criador, host e editor do PontoCast, o podcast carro-chefe da casa.