Yellow Sounds #54 – Get Behind Me Satan (2005)

“Não confio em ninguém que não tenha tempo para música”

get behind me satan

É outubro e, para aqueles que não tem mais o direito de celebrar o Dia das Crianças, o mês remete ao Halloween. Ou, ao menos, é o que gostaríamos nós que sempre sonhamos com “trick or treat” e outras tradições nada brasileiras.

Como tudo no nosso mês das bruxas parece estar errado, escolhi começar com um álbum que apenas no nome remete a algo assustador ou não. Get Behind Me Satan é o quinto dos seis álbuns de estúdio do The White Stripes. Um dos três a figurar em nossa lista-guia dos “1001 discos para ouvir antes de morrer”  e, possivelmente, o mais incompreendido de todos.

Arrisco dizer que um dos motivos que fizeram alguns torcerem o nariz para Get Behind Me Satan foi o mesmo que fez com que outros o considerassem bom o bastante para figurar em listas de álbuns essenciais: a experimentação e a tal inventividade que levaram Meg e Jack a apresentar algo diferente daquilo que já havia se tornado sua marca.

Durante todos os anos em que os White Stripes estiveram nos holofotes, eu basicamente os ignorei. Provavelmente, a única faixa a receber minha atenção à época, graças aos tempos áureos de MTV, foi The Hardest Button to Button, do álbum Elephant (2003) que projetou a dupla para o mainstream. Então, cheguei à Get Behind Me Satan sem nenhuma expectativa de que a banda pudesse me soar familiar. Sem nenhum apego ou exigência.

Aqui, Jack White praticamente abandonou a guitarra. Algo inesperado para quem foi considerado um dos melhores guitarristas de seu tempo. A mudança colocou os vocais de Jack em evidência e abriu espaço para o piano – que deu origem à minha combinação favorita do álbum, ao lado da bateria de Meg -, e também para o violão e elementos de percussão.

The Nurse, em que se destaca a marimba, é um contraponto à familiaridade da envolvente Blue Orchide, que abre o álbum . Logo no início, um aviso de é preciso estar disposto a sair do lugar comum para estabelecer uma relação com Satan. E vale a pena.

Além de Blue Orchide, outras duas faixas foram lançadas como single. A animada My Door Bell é um dos bons exemplos do sucesso da combinação piano/bateria no álbum e uma de minhas favoritas. A outra é The Denial Twist, que merece o mesmo destaque.

Em meio às mudanças e combinações, Get Behind Me Satan traz a influência do blues no som do duo nas faixas Instinct Blues e Forever For Her (Is Over For Me), outra favorita. O country/folk também está presente com a divertida Little Ghost, que conta com a interessante participação de Meg nos vocais. Diferente do que acontece em Passive Manipulation.

Por mais dispensável que seja a faixa supracitada, é ela que aparece como um marco para a sequência que apresento como um prêmio para quem se dispôs a escutar Satan completo: Take, Take, Take, As Ugly As I Seem, Red Rain e I’m Lonely (But Ain’t That Lonely Yet) fecham muito bem o álbum, de forma a dar sentido à toda essa confusão que, a princípio, Get Behind Me Satan parece ser.

Ainda que divida opiniões até hoje, Satan é o que de mais experimental que o duo já havia apresentado e representa um marco na mudança musical dos White. “A verdade é como o tema número um ao longo do álbum”, dizia Jack, ainda antes do lançamento. E a verdade, vinda de alguém tão excêntrico e misterioso, só pode ser interessante.

The following two tabs change content below.

lrmatta

Lari Reis é um ser de outro planeta que acredita que se transformará em purpurina roxa quando morrer. Até lá, passa o tempo tentando aprender algo sobre música.