Resenha | Gegege no Kitaro (2018) – a evolução de um clássico

“Gegege no Kitaro” é um anime criado por Shigeru Mizuki que conta a história do jovem Kitaro, um dos últimos yokais sobreviventes da Tribo Fantasma, suas investigações e embates contra uma miríade de yokais, espíritos e demônios do folclore japonês, em função de proteger o equilíbrio entre o mundo dos humanos e dos yokais. Ao seu lado estão sempre presentes outros “monstros” como o Homem Rato, a Garota Gato, o Velho Chorão e o olho do seu pai, criativamente nomeado de “Pai Olho”. O anime usufrui desses e outros personagens bizarros e assustadores das lendas japonesas para criar uma série animada procedural com um leve toque de terror para crianças, mas o passado da franquia nem sempre teve essa leveza.

“Existe um mundo além daquele que se pode ver. Não consegue sentir a escuridão às suas costas?”

As histórias de Kitaro começaram em 1933 através do kamishibai, a milenar arte do teatro de papel japonês. Em 1960, suas histórias foram parar nas páginas de mangás semanais por todo o Japão, e a franquia ainda era conhecida como “Kitaro do Cemitério”, cujo objetivo era ser realmente assustadora. Em 1967, o mangá foi renomeado para “Gegege no Kitaro” – na tradução literal é algo como “Kitaro dos Sons Assustadores”. Suas tramas foram suavizadas para alcançarem o público infantil e a obra explodiu em popularidade.

Shigeru Mizuki é considerado o maior responsável pela popularização dos yokais no Japão. O autor era grande conhecedor do folclore do seu país e revitalizou esssa parte da cultura, que havia sido descartada pós-guerra. Sua contribuição para a consolidação desta parte da mitologia japonesa é tão reconhecida pelo próprio governo que na cidade de Sakaiminato existem mais de 150 estátuas de yokais inspirados em sua obra.

Quase 90 anos após sua criação, cinco séries animadas e dois filmes, o jovem Kitarou voltou às telas japonesas em 2018 com duas missões extremamente complicadas: substituir o espaço da programação antes ocupado por Dragon Ball Super e atualizar a franquia para os tempos atuais. Felizmente, a TOEI Animation conhece muito bem o público que tem e executou tudo com primazia. A primeira notável diferença do anime atual para o seu passado é o visual. Não só os traços limpos, mas também no fato de nenhum dos yokais causarem estranheza ao olhos, tornando-os assim mais relacionáveis para o público e, obviamente, mais vendáveis.

Gegege no Kitaro
Zoku GeGeGe no Kitarou(1977) e Gegege no Kitarou (2018)

Além de adições de elementos atuais na solução e desenvolvimento das tramas, como smartphones e YouTubers, o anime não dá tempo para repetição, mesmo sendo procedural. Com apenas 14 episódios até o momento, há momentos de reais calafrios, alguns hilários e outros de pura ação. A série já variou inclusive de protagonista, com Kitarou sequer aparecendo em alguns episódios. Entretanto, o anime não seria um bom desenho infantil se alguma mensagem não fosse passada.

Yokais não são os únicos inimigos que Kitarou precisa enfrentar, o antagonismo nos episódios é dividido entre as criaturas e humanos consumidos pela ganância. Dessa maneira, o anime não vilaniza a cultura do país ao mesmo tempo que ensina as crianças sobre os perigos que determinadas ações humanas podem ter sobre o mundo. Além disso, com ameaças dos dois lados afetando os dois mundos, o anime fala sobre a árdua, mas necessária, tarefa de lutar por uma coexistência com a natureza e os demais seres vivos.

O soma de todos esses fatores torna “Gegege no Kitaro” umas das obras infantis mais completas que já tive o prazer de assistir. Carismática, icônica, atual e sem cair na repetição. Um excelente desenho para acompanhar com seus filhos, ou sozinho, que felizmente pode ser legalmente assistido no Brasil pela Crunchyroll.

 


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