Full House (1987-1995): “Três é Demais”, a série que sobreviveu na força da fofura

Você pode não conhecer o nome “Full House”, mas se você foi criança ou adolescente nos anos 90, você certamente conhece “Três é Demais”. Em exibição nos Estados Unidos entre 1987 e 1995, por oito temporadas, a série foi exibida no Brasil pelo canal a cabo Warner Channel, e mais popularmente pelo SBT. Sucesso das manhãs, com outros clássicos como “Step by Step”, “Três é Demais” foi acompanhada e adorada pelo público tanto quanto foi recebida com desdém pela crítica. Revivida pela Netflix na forma de uma continuação, com o intraduzível título de “Fuller House“, a série voltou com intensidade à atenção do público. Ao ver a série inteira, em ordem, características saltam aos olhos, sendo a principal delas como “Três é Demais” sobreviveu oito anos somente na base da fofura extrema.

full house

E sim, vou privilegiar o nome brasileiro nesse texto sempre que possível, especialmente porque seria inviável ver “Três é Demais” com o interesse e no ritmo que vi – numa média de 4 a 5 episódios por dia, durante 40 dias – caso não fosse a nostalgia. A série é incrivelmente simples em proposta, formato e mesmo estrutura de comédia: três solteirões precisam cuidar de três menininhas depois que o pai delas, Danny Tanner (Bob Saget, a voz de Ted do Futuro em “How I Met Your Mother“), fica viúvo. Com a ajuda de seu cunhado, Jesse Katsopolis (John Stamos), e seu amigo comediante, Joey Gladstone (Dave Coulier), Danny dividirá seu tempo entre seu trabalho como apresentador de programa matinal na televisão e criar suas três filhas: DJ (Candace Cameron), de 10 anos, Stephanie (Jodie Sweetin), de 6, e a pequena bebê Michelle Tanner (as irmãs Mary-Kate e Ashley Olsen, as quais os produtores tentaram por anos esconder o fato de que existia duas e que eram gêmeas).

Se isso não fosse prova o suficiente, o humor de “Três é Demais” reitera que a série é a própria concepção de “programa para a família toda”. Grande parte dos conflitos dos episódios gira em torno das meninas estarem crescendo e enfrentando novos desafios, das diferenças de personalidade entre os três homens ou do fato da casa estar cheia – como o nome em inglês sugere. Assim, mesmo tratando tangencialmente assuntos como ingestão de bebida por menores, morte de familiares queridos (visto que a premissa da série é a recente morte da esposa de Danny) ou imprudência no trânsito, o tom de “Full House” jamais cai em um tom sombrio o suficiente para o episódio acabar triste: todo episódio começa fofo e termina em uma risada.

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Essa, inclusive, é a principal marca de “Três é Demais”: a série se esforça muito para ser fofa o tempo todo. A maioria dos episódios das primeiras temporadas da série começam com alguma das crianças ou um dos adultos interagindo com a pequena Michelle. Normalmente o escolhido era Jesse, o astro da série – primeiro nome nos créditos de abertura e já famoso por “General Hospital” – fazendo absolutamente qualquer coisa com a bebê; de escovar os dentes ao primeiro pum de Michelle, os roteiristas não se esforçavam muito para abrir seu episódio; o roteiro poderia trazer somente “Michelle faz qualquer coisa enquanto Jesse é bonito e interage com ela” e faria pouca diferença no resultado final.

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Mas, como era óbvio, os anos passaram e Michelle cresceu, de forma que “Três é Demais” precisava de outra fonte inesgotável de fofura. Trouxeram um filhote de golden retriever, batizado de Cometa (um cachorro fora da média, capaz desde se comunicar efetivamente com os moradores da casa até jogar basquete), que também logo perdeu seu apelo. Restou, então, recorrer a mais uma criança – para garantir, trouxeram duas logo.

O conquistador Jesse logo se amarrou à Rebecca (Lori Loughlin), co-apresentadora de Danny em “Acorde, São Francisco”, com quem se casou e imediatamente teve belos gêmeos loiros e gorduchos. Pronto: a série tinha garantido seu estoque de “awns” até seu fim. Agora Michelle, já com seus 4, 5 anos, estava relegada a ser trampolim para os gêmeos Alex e Nicky serem fofos nos começos dos capítulos.

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Além da fofura, outros dois pilares sustentam a série ao longo dos primeiros anos: o charme rebelde à la James Dean de Jesse e o apelo musical do programa. John Stamos chegou em “Full House” já com créditos por “General Hospital” e com fama de arrasador de corações. Com seu cabelo mais armado que jogo de pôquer em casa de mafioso, seu personagem – que teve o nome alterado para seguir a tradição familiar grega de Stamos – ganhava aplausos por fazer qualquer coisa em cena. O ator ainda saiu da série com créditos de produtor e dono parcial dos direitos do programa. Vantagens de ser bonito.

A música também é relevante na série. Com participações de Little Richard e diversas aparições dos Beach Boys – inclusive com esta banda recebendo o elenco em um show – “Três é Demais” sabia que tinha um potencial sonoro que podia explorar em seus atores. Logo no primeiro episódio, os três rapazes harmonizam e cantam para Michelle dormir – cena que seria repetida várias vezes ao longo da série, e depois em “Fuller House”. Mesmo Stephanie, que nunca cantou na série, dançava. De todas as versões e adaptações vistas em “Full House”, talvez essa linda apresentação de “Forever”, dos Beach Boys, seja a mais relevante.

Ainda assim, nem com todos esses elementos colaborando, “Full House” conseguiu passar do seu oitavo ano. Com um elenco adulto já claramente cansado e um núcleo adolescente que não era mais tão carismático como quando crianças, a série perdeu fôlego – mesmo em sua abertura, em que os personagens parecem estar exaustos daquela vida. Foram 192 episódios, e em um problema na renegociação do contrato de Candace Cameron, que iria para a faculdade, assim como sua personagem DJ, acabou atravancando o avanço da série. Todos os outros contatos também travaram, com o reajuste que os atores pediram, e discretamente, com um final neutro, “Full House” foi terminada – e o set foi reaproveitado para a série “Friends”, de forma que John Stamos, anos depois, ao participar da série, encontrou a cueca do ator Dave Coulier pendurada em uma parte do cenário.

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E a série se foi como uma vela que se apaga: discretamente, sem polêmicas. Isso mostra o quanto “Três é Demais” era uma série pragmática e consciente de suas limitações. Sabendo como apelar para seu público específico, nunca buscou ter grandes reviravoltas de roteiro, nem casais que iam e vinham; somente contou a história de crianças crescendo ao longo de suas vidas, com um clima agradável e piadas simples e acessíveis. Humilde, ganhou uma legião de fãs mundo afora, que agora reassistem o programa pela Netflix, sem gerar outra multidão de gente que a odeia, exatamente porque ela é tão neutra; tudo grita “gostem de mim, mas se não gostarem, tudo bem também”. No fim das contas, “Três é Demais” é a prova de que não é preciso ser a melhor comédia da vida para se ter sucesso e ser agradável – mas que cai bem uma boa dose de carisma e fofura.

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erikavilez

Erik (sem C) é escritor, roteirista e dançarino de hula profissional lá fora. Aqui dentro, Erik é redator-chefe e comercial do site, além de criador, host e editor do PontoCast, o podcast carro-chefe da casa.