Comentário | O universo de terror compartilhado da franquia Invocação do Mal

O quinto filme e segundo spin-off a se juntar à franquia de terror que conta com “Invocação do Mal” e “A Freira”, fez a sua estreia nos cinemas na última quinta-feira, acompanhado da promessa de ser o capítulo mais assustador da saga – em breve, você poderá conferir o que achamos do longa -, enquanto isso, vamos recapitular e entender, não por ordem de lançamento, mas cronologicamente, como o universo de terror compartilhado da franquia se conecta.

 

Annabelle 2: A Criação (2017) – Uma horripilante história de origem

Introduzida em “Invocação do Mal”, a rápida aparição de Annabelle foi suficiente para gerar um desconforto sobre o que uma boneca de porcelana poderia fazer. Deixando de lado a comparação com o brinquedo assassino Chucky, Annabelle é protagonista de uma origem macabra e aterradora.

Título: Annabelle 2: A Criação do Mal (“Annabelle: Creation”)

Direção: David F. Sandberg

Ano: 2016

Pipocas: 8,5/10

 

“Annabelle 2: A Criação do Mal” é mais um dos casos de quando a sequência de um longa se torna responsável por corrigir erros do passado. Já que o seu antecessor não foi tão bem recebido pela crítica e público, uma boa saída foi apelar para um prelúdio, fazendo com que o potencial da boneca amaldiçoada fosse aproveitado do jeito que deveria ser.

A trama se passa no ano 1955 e é centrada nas seis garotas órfãs que estão se mudando, acompanhadas da irmã Charlotte (Stephanie Sigman), para um casarão transformado em um orfanato para meninas, anos depois que o casal Samuel e Esther Mullins (Anthony LaPaglia e Miranda Otto respectivamente) perderam a filha Annabelle (Samara Lee) em um acidente. O novo lar deixa de ser aconchegante depois que as jovens começam a testemunhar coisas estranhas e temem por suas vidas.

Quem foi ver “Annabelle” nos cinemas deve ter ido assistir a esse filme carregado de expectativas. A pauta aqui foi realmente curiosa, considerando que o público já estava familiarizado com a forma que a maldição funcionava, a ideia foi desenvolver como tudo começou. Mas como conduzir a história da boneca demoníaca sem parecer repetitivo no seu conceito? Bem, felizmente, David F. Sandberg (“Quando as Luzes se Apagam”) alcançou esse feito com competência.

O quarto capítulo da franquia “Invocação do Mal” foi sortudo por ser tão contido e característico de um tom único se comparado aos demais títulos da série. Talvez o longa passe a sensação de um terror já visto antes, mas David construiu a narrativa de “Annabelle 2” de uma maneira lenta, porém bem amarrada, e instigante. E seu maior mérito foi saber assustar de verdade.

A Freira fazendo uma pontinha em “Annabelle 2”

Para isso, David utilizou com eficiência a ambientação escura, deixando o espectador sentir a tensão se espalhar sobre o que poderia ter visto; e quando não se apoiava nesses aspectos, apenas deixou a própria Annabelle e os traços que a compõem aterrorizar. Se nos filmes de “Invocação do Mal” fomos apresentados a boneca, a freira e o homem torto (que em breve ganhará sua história nos cinemas), aqui fomos sinalizados de que o demônio Valak de alguma forma estava envolvido com os acontecimentos mostrados.

“Annabelle 2: A Criação do Mal” poderia ser um filme fraco, mas muito pelo contrário, sabia onde queria chegar e demonstrou isso do melhor jeito – ainda mais com o seu final encontrando o ápice da narrativa e ligando os pontos. E de novo, melhorando o fraco “Annabelle”.

 

Annabelle (2014) – a boneca de porcelana não vingou

Muito bem utilizada em “Invocação do Mal”, mesmo que por um pouco, a bizarra e assustadora boneca de porcelana deixou aquele gostinho de quero mais. Com o sucesso garantido antes mesmo de lançar, o segundo filme da franquia (e primeiro spin-off) se propôs a mostrar o que mais a boneca Annabelle poderia fazer. Por querer ser demais, o filme solo da boneca acabou não chegando a lugar algum.

Título: Annabelle (“Annabelle”)

Direção: John R. Leonetti

Ano: 2014

Pipocas: 2/10

Se passando um ano antes (1967) dos eventos de “Invocação do Mal”, fomos levados a conhecer o casal Mia (Annabelle Wallis) e John (Ward Horton) empolgados para a chegada de sua primeira filha. O que eles não esperavam é que teriam a casa invadida por membros de uma seita, o que levou umas das bonecas que Mia colecionava – nem precisa dizer qual – a ser recipiente de uma entidade que passa a atormentá-la.

Quem assistiu “Annabelle 2” antes desse aqui (como eu) deve ter achado o início muitíssimo promissor. E quem assistiu esperando ver a “versão feminina” de Chucky tocar terror, deve ter descoberto que a abertura interessante do longa é a única coisa boa, o que torna o filme solo de Annabelle uma perda de tempo.

Lançado um ano depois de “Invocação do Mal”, percebe-se o quanto “Annabelle” quis ser muita coisa e assustar nem que fosse a força. Sem falar que o roteiro não é grande coisa, mas de um filme de terror descaradamente batido. Um desserviço feito às pressas e extremamente sem identidade.

O filme alterna em muitos cenários a fim de alcançar um objetivo espinhoso: assustar. Isso não é um feito para qualquer um, então de nada adianta apelar para tantos jumpscares se o terror não existe além disso. Como se não bastasse a película não ter cumprido o seu papel dentro do gênero, pecou também pela falta de carisma nos personagens – banhados em personalidades preguiçosas e manjadas.

Com tantos fatores apontando como Annabelle é um filme fraco, a sua narrativa também foi um marco desastroso. Já que o alvoroço era para ganhar o público através do susto, a história caminhava na contramão sem um pingo de firmeza para conseguir gerar interesse para o que estava sendo mostrado.

No final, a boneca de porcelana não vingou e Annabelle encontrou o seu desequilíbrio no desfecho incoerente, invalidando quase tudo o que era mostrado. A pressa é inimiga da perfeição.

 

Invocação do Mal (2013) – quando o clichê funciona

Quando lançado em 2013, “Invocação do Mal” ganhou uma imensa notoriedade por ser tido como um dos filmes de terror mais assustadores de todos os tempos. Tal repercussão ganhou mais força já que a direção ficou por conta James Wan, que tem um histórico com filmes do gênero.  Assustador, o longa não o é, mas é digno de elogios por ser um clichê eficiente.

Título: Invocação do Mal (“The Conjuring”)

Direção: James Wan

Ano: 2013

Pipocas: 7,5/10

A história do filme se passou no ano de 1968, inspirada em um dos casos do famoso casal Ed e Lorraine Warren (interpretados por Patrick Wilson e Vera Farmiga), investigadores paranormais. A dupla narrativa tratou de nos colocar a par da vida dos Warren, mostrando um dos últimos casos (o que envolveu a boneca Annabelle e se tornou trecho inicial do filme solo) e da família Perron que seriam tratados mais à frente.

O enredo que acompanhou os Perron não teve nenhuma mudança do que acostumamos assistir em filmes sobre casas mal-assombradas: os novos moradores se mudam, amando tudo, até que atividades estranhas e paranormais se sucedem. Nesse quesito, vale salientar que “Invocação do Mal” não demorou a distribuir os fatores que iriam compor o terror. Fatores esses que, com certeza, fizeram boa parte do público se identificar e temer.

Ao utilizar elementos como puxão no pé no meio da noite enquanto a jovem Christina (Joey King de “A Barraca do Beijo”) dormia, James Wan acertou em cheio e fez o telespectador se remeter ao medo e sensação de ter sido puxado em algum momento de sua vida. Mas os demais conflitos sobrenaturais que perturbaram os Perron, deram a perceber as sequências chegando só pela forma que foram feitos.

Apesar da previsibilidade ser um ponto característico e forte do filme, “Invocação do Mal” é um exemplo de quando os efeitos dos clichês são positivos e fazem a trama funcionar. E o mais incrível é como as coisas são bem amarradas para entregar um desfecho competente para o longa. Além disso, o ritmo estruturado disposto a movimentar o filme para um lugar diferente, ao destrinchar a demonologia dos Warren com bom uso da câmera, é mais um acréscimo de acerto para James Wan.

No geral, “Invocação do Mal” não é um filme de terror e tampouco mais assustador de todos os tempos (“Os Outros”, “O Babadook” conseguem esse efeito sem muito esforço), mas é um clichê com boa execução, suficiente para o tornar memorável para o gênero.

 

Invocação do Mal 2 (2016) – não deixou a peteca cair, mas poderia ser melhor

Aqui vamos nós para o último capítulo (cronologicamente) desse arco narrativo. Depois do fiasco de crítica vindo de “Annabelle”, a franquia precisava se recuperar e um intervalo de dois anos foi quase que o suficiente para James Wan dirigir “Invocação do Mal 2” com mais calma. O resultado foi um filme com altas doses de clichês, que por pouco não salvaram o longa.

Título: Invocação do Mal 2 (“The Conjuring 2”)

Direção: James Wan

Ano: 2016

Pipocas: 6,5/10

A trama aqui se iniciou de forma louvável e arrebatadora indicando que o filme seria maior e melhor que o primeiro (só que não). A abertura, com uma jogada curiosa de criatividade, tratou de destrinchar com gosto o dom de Lorraine Warren. Depois de tantas versões do caso de Amityville, “Invocação do Mal 2” veio mais uma vez para esse relato perturbador ao colocar os Warren numa sessão espírita para confirmar se, de fato, Ronald DeFeo Jr. (aqui interpretado por Michael DeBartolo) foi conduzido por uma entidade demoníaca a assassinar a sua família a tiros.

Ao mesmo tempo que Vera Farmiga brilhava com a sua atuação fabulosa o terror era instaurado, dando uma indicação de que o foco da vez (diferente do antecessor) seria para Lorraine. Até aí, as expectativas para o filme só aumentavam. Os problemas começaram depois de avançarmos para 1977 (dez anos depois da história em “Annabelle” e nove do primeiro filme).

A dupla narrativa se tornou uma fórmula para os filmes de “Invocação do Mal”. Repetindo o que foi visto com os Perron, fomos remetidos novamente a um caso dos Warren, para depois sermos introduzidos a família que seria investigada. O caso, que ficou conhecido como Poltergeist de Enfield, envolvendo a família Hodgson, repercutiu por conta dos relatos de assombrações vividos pelas irmãs Janet (Madison Wolfe) e Margaret (Lauren Esposito).

O evento atraiu com força a atenção da mídia por dividir opiniões sobre a veracidade das atividades paranormais. “Invocação do Mal” se propôs a trabalhar em dois pontos na sua narrativa: o primeiro, a questão sobre as irmãs mentirem sobre as assombrações; o segundo, sobre o demônio Valak, intencionado a abalar a fé de Lorraine.

Sobre o Poltergeist de Enfield, o longa conseguiu muito bem apresentar questões que contribuíssem para acreditar ou não no caso; para isso, de fato, algumas cenas com a jovem Janet sendo possuída parecia realmente falsas, em outras conseguia convencer. Apesar desse acerto, em outros momentos esse arco do filme acabou se tornando chato e repetitivo, que além dos clichês, “o longa que sabe assustar” não estava com nada.

O que diz respeito ao foco em como Lorraine lidou com o caso com insegurança por temer a visão que teve, foi o que sustentou o filme e balanceou a narrativa contra a chatice que estava sendo o caso da família Hodgson. No entanto, ainda que Vera Farmiga e Patrick Wilson tenham sido o melhor no filme – enfatizando a química absurda desses dois juntos – o filme se tornou até mesmo um anticlímax com final presunçoso e previsível ao extremo.

invocação do mal
Vera Farmiga protagonizando umas das melhores cenas do filme e atrás dela, A Freira.

“Invocação do Mal 2” quis ser um filme maior que o seu antecessor, mais acabou se apoiando em coisas convencionais. A peteca quase caiu, mas poderia ser melhor.

Com muito gás e spin-offs para render alguns longas para Warner Bros. (se for depender do sucesso estrondoso que tem sido nas bilheterias), Invocação do Mal tem expandido cada vez o universo que começou com mais um filme de terror repleto de clichês. Até o momento, a franquia alcançou um feito mediano, mas que precisa usar muitíssimo da criatividade para continuar com a mesma pegada que conseguiu no início. “A Freira” fez a sua estreia. Logo mais, o terceiro capítulo de Invocação do Mal, Annabelle e outro derivado (agora, “O Homem Torto) darão as caras no cinema.


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Felipe Oliveira

Gosto de tudo um pouco, mas me limito em não arriscar muito e talvez escrever seja o meu momento mais sincero no qual posso expor minhas ideias e pensamentos.