Filmes de herói, Alan Moore e a falta de maturidade da cultura americana

Uma imagem de Alan Moore falando dos filmes de herói tem dado o que falar no mundo (paralelo) dos amantes de quadrinhos. Como é possível perceber, o bruxo das HQs faz uma ligação direta entre o que está sendo produzido na cultura de massa, especificamente no cinema dos Estados Unidos, e os reflexos práticos disso na política. Mas, e aqui vocês vão me perdoar pelo meme, estamos sendo justos com Alan Moore? Ele está sendo justo com os filmes de herói?

Vejamos um ou dois pontos sobre o assunto.

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Declarações como essas, normalmente, não passam batidas e fazem surgir pessoas com todo tipo de opinião — inclusive, gente dizendo que o velho mago sempre recebeu mais atenção do deveria (apesar de evidentemente talentoso). Enfim, como qualquer discussão na internet, todos os espectros estão representados e é, justamente por isso, que é válido ressaltar algumas coisas sobre Alan Moore, filmes de herói e cultura pop.

Alan Moore, os quadrinhos, e os super-heróis

O início da carreira de Moore estava bem longe dos trabalhos com heróis. O escritor também desenhava e tentou emplacar tiras em periódicos por um tempo. Ele até conseguiu com que alguma coisa fosse publicada mas, nas suas próprias palavras, percebera que jamais desenharia bem e rápido o suficiente para fazer a vida como artista no mercado. Assim, começou a investir mais pesado na carreira de escritor. Suas primeiras tentativas e reconhecimento vieram na revista 2000AD, para qual enviou roteiros para trabalhar com o Juiz Dredd, mas foi negado porque o time da revista já era bastante sólido. Entretanto, o editor viu potencial em Moore e quis mantê-lo por perto. Ali surgiram seus primeiros trabalhos na série de ficção científica Future Shocks, nos anos 80.

Miracleman de Alan Moore (Alan Moore e os filmes de herói)

Na mesma época, os quadrinhos ficavam cada vez mais populares no Reino Unido, principalmente entre pessoas mais maduras. Durante esse tempo, Moore fez roteiros para a já citada 2000AD e, também, para a Warrior e Marvel UK. Nesse período, o escritor desenvolveu trabalhos em outras séries de ficção científica, histórias semanais de Doctor Who e Star Wars, Capitão Bretanha e, por fim, dois nomes mais robustos: Marvelman (que virou Miracleman por motivos legais) e V de Vingança. Essa trajetória o levou para a DC americana e lá ele começou trabalhando no Monstro do Pântano, que não apenas foi um sucesso sob seus roteiros, mas também deu visibilidade para outros personagens do panteão mágico da DC Comics. Esse foi o início da invasão britânica que trouxe escritores para abordar temas e personagens de uma maneira ligeiramente similar a Moore. Outros nomes desse movimento incluem: Grant Morrison, Neil Gaiman, Peter Milligan e Jamie Delano.

V de Vingança (Alan Moore e os filmes de herói)

Além da saga do Monstro do Pântano, Moore teve Watchmen publicado pela editora — uma leitura essencial para quem ama quadrinhos. Eventualmente, o autor trabalhou com outros personagens da casa, Superman e Batman. Entretanto, por desgastes com o mercado, o escritor acabou se exilando e trabalhando durante muito tempo de forma independente, retornando ao grande mercado apenas nos anos 90 para trabalhar com alguns títulos da Image Comics, num esforço, segundo suas palavras, para tentar escrever boas histórias para um público que era completamente diferente do que esteve acostumado outrora.

Filmes de herói: na contramão do amadurecimento do gênero

Alguns fãs dos super-heróis (estejam eles nos cinemas ou nos gibis) ficaram surpresos com a declaração de Moore sobre a infantilização da cultura através do enorme sucesso comercial dos filmes. Há quem argumente que ele está cuspindo no prato em que comeu, porém, ao olhar para a carreira do escritor, é perceptível que ele nunca foi realmente um entusiasta dos super-poderosos de capa — enquanto roteirista, ao menos. Ligando os pontos, percebe-se que a obra de Moore nunca abordou os nomes tradicionais das editoras para fazer histórias que exaltassem o heroísmo tipicamente americano das eras de prata e de ouro. Na verdade, o mais próximo disso que ele chegou, foi ao trabalhar com Jim Lee e Rob Leifeld na Image e na Awesome Comics. 

filmes de herói

 

É inclusive possível pensar no autor como um dos nomes que ajudaram a criar uma imagem mais problemática para os super-poderosos nos anos 80. Essas nuances não foram exclusividade do britânico, o próprio Frank Miller levou o Demolidor e o Batman para outros patamares tornando os personagens muito mais tridimensionais e palatáveis para o público adulto. Essas influências são tão significativas nos dias de hoje que vemos o surgimento do Batman de Christopher Nolan, tão possível na realidade urbana quanto um policial super treinado com equipamentos extremamente sofisticados, e séries com uma pegada mais madura, como Demolidor, Justiceiro, Jessica Jones e Luke Cage.

Voltando para as páginas de roteiro de Alan Moore, pense em como existe um questionamento sobre a legitimidade dos métodos do Batman em A Piada Mortal ou ainda na estrutura de Watchmen como um todo, que trata quem está “sob o capuz” como um grupo malucos fantasiados e o Dr. Manhattan como um super-homem muito mais “nietzscheano” (acima do bem, do mal e do restante da humanidade) do que como um herói de fato.

filmes de herói - Dr. Manhattan

Tanto a influência de Moore, e outros escritores, quanto o aumento da violência nas séries de super-heróis, vão na contramão do que o que temos nos filmes de herói — sejam as ‘piadocas’ e cores dos filmes da Marvel, ou todas as tentativas frustradas da DC fazer filmes maduros que também funcionem em PG 13. Isso aponta para duas características marcantes do gênero dos super-heróis, nos filmes ou quadrinhos: existe um potencial de discussões relevantes para a contemporaneidade tão grande quanto a de qualquer história de ficção científica, mas, existe um mercado, e também uma demanda de público, para que essas histórias sejam infantilizadas.

Concluindo, se, em muitos casos, não dá pra não dizer que a opinião de Alan Moore sobre filmes de super herói não passa de um ranço ingrato, é plausível, também, pensar que isso sempre foi assim — ele nunca fez questão de receber direitos ou ter seu nome mencionado em qualquer adaptação de uma obra sua, por exemplo.

Contudo, existe muito mais nessa discussão do que o simples “não gosta, não vê”!


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Professor, redator, editor-chefe deste site. Sou um cosplay de baixo orçamento de mim mesmo. Parceiro do Erik no PontoCast e host do BancaCast. Não sei qual é o meu animal interior, mas não é uma chinchila.