Êxodo: Deuses e Reis (2014)

“Você diz não ter causado tudo isso. Diz que não é sua culpa.
Então, vejamos quem é mais efetivo em matar. Você ou eu.”
Título: Êxodo: Deuses e Reis (“Exodus: Gods and Kings”)
Ano: 2014
Diretor: Ridley Scott
Pipocas: 2/10
 Seguindo o modismo de fazer adaptações de histórias bíblicas com alguns efeitos visuais legais, elenco de peso, e muito pouco roteiro, chegamos a “Exodus: Deuses e Reis”. Quando todos achavam que “Noé” (2014) já estava de bom tamanho para filmes do gênero, eis que a nova proposta é remontar, aos trancos e barrancos nas dunas do deserto, a história da libertação do povo hebreu das garras do cativeiro egípcio.
“O livro é melhor do que o filme” é uma frase muitas vezes (não todas) verdadeira e ao mesmo tempo injusta em relação à adptações cinematográficas. O romance sempre terá ao menos a oportunidade de criar mais tempo para desenvolver personagens e histórias, e por isso que, quando transpostos para o cinema, parecem “incompletos” ou “vagos”. Entretanto, quando se trata de transformar um romance num roteiro, é preciso lembrar das limitações que um filme pode ter, e assim avaliarmos o produto de forma mais justa. Como o livro em questão faz parte de um cânone religioso, eu realmente não vou entrar no mérito da pouca coerência entre filme e livro. Pra não dizer que não disse nada, assim como em “Noé”, o livro bíblico de Êxodo é usado como espinha dorsal de uma sequência rudimentar dos fatos apenas (e olhe lá). Ou seja, se você é líder de célula, professor de catecismo ou escola bíblica dominical, ou qualquer coisa parecida, não recomendo esse filme para fins didáticos (talvez nem para entretenimento).
A começar pelo título, “Êxodo: Deuses e Reis”, mostra “a que veio”. O título, supostamente, alude a relação que lideranças políticas tinham com divindades. Talvez, quem lê o título pense que a ideia era fazer algo mais ou menos parecido com a construção do personagem Xerxes (Rodrigo Santoro) de “300” (2006). A tal alusão passa tão batido que parece simplesmente não acontecer. É claro que o filme trabalha com toda a mística por trás das religiões egípcias (com uma profetiza charlatã que acaba enforcada por “falta de precisão profética”) e a religião hebraica (com várias aparições de um mensageiro do Deus de Israel em forma de uma criança), mas os deuses são deuses e os reis são reis. Só.

Talvez o que mais chame atenção ao longo de todo o filme é que não existem tantos diálogos e os que existem são, na verdade, bastante fracos (salvo uma ou outra exceção) e a história se desenvolve apesar disso. É muito dolorido ver atores como Christian Bale (Moisés) tentando nos dar uma boa atuação e, infelizmente, sendo impedindo pela falta de interações interessantes entre os personagens da trama. Para exemplificar bem a pobreza do roteiro nesse quesito, o filme conta com o talentoso Aaron Paul (Jesse Pinkman em Breaking Bad), como Josué, produzindo, com muito esforço, suas pouco mais de dez falas ao longo dos 150 minutos de filme.

 Outra coisa que deixa bastante a desejar é a caracterização de Christian Bale como Moisés. Desde o início achei muito esquisito o tipo físico de Bale para fazer um hebreu que cresce como egípcio, mas até aí tudo bem, afinal de contas, todos crescemos acostumados a representações “europeias” de personagens bíblicos. A questão é que, na primeira levada do filme, antes de Moisés fugir do Egito, a imagem que conseguimos ver do filho do faraó é a de um soldado romano (usando lápis de olho). A caracterização de Bale como Moisés só melhora, e melhora consideravelmente, quando ele, já fora do Egito, vai envelhecendo (aliás, palmas para a maquiagem).
Por fim, o que sobra são uma história milenar adaptada (portanto, é plenamente possível que se vá ao cinema conhecendo o início, meio, e fim dela); atores se esforçando para fazer um trabalho bacana e, infelizmente, não conseguindo por falta de roteiro e algumas cenas de ação e efeitos bons, que com orçamento médio que teve tinham de ficar boas mesmo.
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