Netflix e as relações humanas na era do streaming

Imagine uma casa com janelas abertas que permitem a visão de um rio corrente à distância. Você pode apreciar a beleza do rio, embora não consiga tocá-lo. O que é isso? É o seu velho conhecido, o streaming.

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Streaming é a tecnologia de transmissão de dados que permite o consumo sem a necessidade de possuir o produto fisicamente. Considerando esse conceito, streaming não se limita apenas a serviços de vídeo, como Netflix e Youtube, mas abrange locadoras virtuais de jogos, livros, músicas e, é claro, podcasts. Além de mudar a maneira como marcas e consumidores interagem em torno de seu produto, o streaming também mudou a forma como nos relacionamos e até mesmo nossas dinâmicas familiares. Vamos dar uma olhada em como isso acontece.

As relações do streaming com seus clientes

Em um texto anterior, falamos sobre como o modelo de consumo de séries e filmes mudou com o advento de plataformas como a Netflix. O modo de produção sofreu alterações, os produtos e consumidores também mudaram. Há não muito tempo, os produtores ditavam o que o público deveria consumir, quando consumir e com que propósito.

Atualmente, aplicativos como Spotify e Deezer permitem que a sua vida tenha a trilha sonora que você deseja; a Netflix traz a liberdade de escolha para o entretenimento diário; a Steam disponibiliza diversos jogos a preço de banana e, por fim, há uma infinidade de ebooks e plataformas de leitura.

A consequência de tudo isso é que os produtos precisam se adequar a diversos públicos. Dessa maneira, as plataformas de streaming funcionam mais como agregadores de estilos do que produtoras em si.  Resta ao consumidor montar o próprio perfil de acordo com as suas necessidades.

Para toda a família

Caso você seja assinante de um serviço de streaming, é bem provável que já tenha “emprestado” a senha para uma pessoa próxima.

Em 2016 surgiu uma polêmica quanto a isso quando um ex-funcionário de uma empresa estadunidense acessou sua base de dados após se desligar da firma. A decisão dos juízes do caso, desfavorável ao ex-funcionário, abriu margem para que o compartilhamento de senhas fosse considerado crime federal em outras ocasiões, caso a empresa que oferece o serviço não permita expressamente o compartilhamento de senhas.

Felizmente as punições só podem ser aplicadas em solo norte-americano e os serviços de streaming não se mostraram inclinados a processar os próprios clientes.

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Acontece que plataformas como Spotify e Netflix são explicitamente pensados para que mais de uma pessoa tenha acesso ao conteúdo. As duas empresas citadas incitam o consumidor a uma mudança de hábito que consequentemente promove a marca. É a questão das playlists de festa do Spotify e dos perfis “para toda a família” da Netflix, os quais são utilizados por DJs inábeis e grupos de economizadores, respectivamente.

 

Trai ou não trai?

Fazer a pipoca, sentar no sofá e dar play na série mais querida acompanhado das pessoas favoritas certamente é uma ótima experiência, que melhora ainda mais quando se torna um hábito. Normalmente acontece com grandes eventos televisivos, como “Game of Thrones“, atualmente – apesar de ser mais comum assistir ao vivo por conta dos spoilers. A liberdade de consumir onde e quando quiser permite que amigos ou casais se programem para assistir uma série ou filme. Não é tão diferente de uma família que se organiza para assistir o último capítulo da novela das oito; a diferença é que, com o streaming, a novela das oito pode ser assistida depois do almoço, por exemplo.

Consideremos, então, que um casal combina de acompanhar uma estreia da Netflix junto. A série é empolgante e apresenta várias reviravoltas impressionantes que os deixam ansiosos pelo próximo episódio. Entretanto, os horários dos dois nem sempre batem e talvez seja necessário prolongar a espera pelo próximo episódio. Um deles não tem problemas com o adiamento, mas o outro sente demais “o peso do hype”. O que fazer?

Um grande homem uma vez disse que “com grandes poderes vem grandes responsabilidades”, uma clara referência à situação acima apresentada.

O fato é que hoje temos o poder de nos livrar da “programação das programações”, mas criamos outras para iniciar novas rotinas. Quando um episódio é bom demais queremos mais do mesmo, quando uma música é boa demais queremos mais referências do estilo e quando um livro é bom demais procuramos os outros lançamentos do autor. O vazio de “estar órfão” logo é preenchido pelo novo lançamento do momento e o ciclo se repete.  Finalmente, você terá toda a liberdade de se prender em uma rotina personalizada graças ao streaming, e agora, atendendo às suas demandas, você molda sua vida para encaixar esta nova atividade.

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As famílias que antes se reuniam em volta de Maria do Carmo e Nazaré Tedesco agora pegam suas pizzas e veem a nova temporada de “Better Call Saul“; os amigos que antes ficavam procurando algo na locadora para levar para casa decidem assistir “Stranger Things” de novo antes da estreia da próxima temporada; se antes era complicado levar aquela pessoa interessante para sua casa sem soar estranho, um bom “Netflix & chill?” resolve o problema agora.

Esse é o amor nos tempos de streaming.

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Escrito por Leandro Bezerra. Encontre-o no Twitter.

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erikavilez

Erik (sem C) é escritor, roteirista e dançarino de hula profissional lá fora. Aqui dentro, Erik é redator-chefe e comercial do site, além de criador, host e editor do PontoCast, o podcast carro-chefe da casa.