Análise | Entendendo o que há de “Hereditário” (2018) na família Graham

Como estamos entendendo “Hereditário” neste texto, aqui está repleto de spoilers.

Buscar compreender “Hereditário” em todas as suas nuances é uma tarefa complicada. Denso, pesado e opressivo, as múltiplas camadas de interpretação que o filme oferece fazem com que qualquer análise seja segmentada e parcial – ou gigantesca. Assim, é mais interessante abordarmos um tema específico – e qual seria melhor do que aquele que dá o nome ao filme?

A hereditariedade, claro, é um fio condutor importante de toda a trama. Para além das rimas visuais e dos foreshadowings, predizendo o que acontecerá na trama, a família Graham tem mais do que somente sangue correndo em suas veias. Além de serem fadados ao fracasso, podemos destacar três elementos que estão na genética da família.

entendendo Hereditário

Antes de tudo, é justo lembrar que, na verdade, grande parte destes males não acometem a família Graham em si; considerando que provavelmente Annie (Toni Collette, excepcionalmente brilhante aqui) adotou o nome do marido, a família que realmente sofre com uma carga maligna é a da matriarca, a qual não é nomeada no filme. Seja como for, relevamos isso só para fins de discussão, certo?

 

1) Transtornos mentais

Este é o primeiro que surge na trama do filme. Após a perda de sua mãe, Annie vai participar de um grupo de apoio, no qual ela destrincha a história de vida miserável de sua mãe, Ellen. Neste relato, é notável que toda a família sofria de diferentes transtornos mentais, e a lista incluía um filho – e irmão de Annie -, a qual se matou aos 16 anos e culpou a mãe no processo. De mãe para filha para neta, a menina Charlie (Milly Shapiro) também não foge à regra. Embora não seja explícito, Charlie está posicionada no espectro do autismo. Entre suas tendências à isolamento e seus cliques bucais, Charlie demonstra possuir traços da síndrome, o que também a coloca na longa listagem que Annie descreve no grupo de apoio.

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Embora possamos listar as crises de sonambulismo de Annie como transtorno mental, visto que elas quase chegaram ao infanticídio mais de uma vez, não é possível saber se Ellen, mãe de Annie e matriarca da família, possuía alguma característica psicopatológica. Sabemos somente que a senhora queria que Charlie fosse menino – o que também é apontado no nome escolhido -, e que a idosa teria amamentado a neta à época do seu nascimento. Estes elementos narrativos ajudam a amarrar a trama e reforçam o caráter não só do que é hereditário na família, mas também a proximidade especial que havia entre Charlie e sua avó Ellen.

 

2) A mediunidade

Se os transtornos mentais passam de mãe para filha entre os Graham, o poder de ver e falar com mortos também é hereditário na família. O longa aponta desde o início para o fato de que Ellen teria participado de um grupo de bruxas (uma moda retornada à tona por “A Bruxa” e “Atividade Paranormal“) ou uma seita semelhante, mas não tarda em demonstrar que os poderes mediúnicos, na trama fictícia do filme, são próprios dela e não relacionados à seita – prova disso é Annie enxergar a mãe morta em seu ateliê, e Charlie também vendo a vó pouco tempo depois.

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Isso também acontece com o outro filho de Annie, Peter (Alex Wolff, do novo “Jumanji“), mas por um motivo diferente. É difícil saber se Peter já possuía a mediunidade ou se ela foi acionada como parte de sua corrupção. Como é dito posteriormente no filme, era necessário que Peter passasse por um processo inicial de preparação antes de servir como receptáculo para o demônio conhecido como Rei Paimon. Aparentemente os traços mediúnicos passavam pelo lado feminino da família, mas também é razoável pensar que parte do que era diagnosticado como doenças mentais na parte masculina da família eram, na verdade, também habilidades mediúnicas.

 

3) A realeza

Seja como for, o fato é que Peter foi preparado para ser um veículo para o tal “um dos oitos príncipes do inferno”. Desta forma, embora a mediunidade não esteja relacionada à seita, ela parece conceder um status maior àqueles que a possuem dentro da organização. Se referem a Ellen como “rainha”, e a referência visual a isso é completa quando somamos o momento que Charlie corta a cabeça de um pombo apenas para mais tarde desenhar um pombo com uma coroa. Era necessário que Ellen morresse para que ela enfim chegasse à glória máxima: ser decapitada para receber sua coroa. Foi este o pontapé para o processo que levaria Peter ao trono de ser Rei Paimon.

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Esta, sim, é um traço hereditário dos Graham destinado aos homens. É dito que a criatura do filme, por ser masculina, buscava um receptáculo masculino. Ao fim do longa, é dito que a entidade teria habitado Charlie, mas que a criatura teria passado para Peter para se sentir “mais confortável”. O filme se encerra antes de vermos isso acontecendo, mas, tendo em perspectiva a perda de toda a sua família de maneira trágica e em um curtíssimo espaço de tempo, difícil pensar que outro caminho o perturbado Peter poderia seguir.

 

Bônus) A culpa

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Encerramos com o traço mais importante que corre na veia dos Graham. Quaisquer esforços para seguir entendendo “Hereditário” precisam passar pela forma como a culpa é posta no nível de doença ou maldição: da mesma forma que os transtornos mentais correram entre as gerações, Ellen sentia o peso da culpa pelo suicídio de seu filho, enquanto Annie se culpava por ter tentado abortar Peter e depois quase matar tanto ele quanto Charlie; o rapaz, por sua vez, se culpava por ter conseguido matar a irmã. Tanto as maldições demoníacas que a matriarca Ellen impõe sobre os filhos quanto as doenças mentais que são herdadas de maneira passiva apontam para a forma como a vó impôs um peso incompreensível sobre a filha e os netos. Por muitas vezes incurável e impossível de ser exorcizada, “Hereditário” aponta com sua mão torta que a culpa pode ser o pior dos demônios em uma família.

 


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erikavilez

Erik (sem C) é escritor, roteirista e dançarino de hula profissional lá fora. Aqui dentro, Erik é redator-chefe e comercial do site, além de criador, host e editor do PontoCast, o podcast carro-chefe da casa.