Resenha | Aniquilação (2018) – entendendo um grande filme (com spoilers)

(Quer ouvir outra visão sobre “Aniquilação”? Escute o nosso programa sobre o filme.)

A autodestruição está presente em todo lugar. O conceito de entropia tenta abarcá-lo, a psicologia tenta evitá-lo e estamos o tempo todo parecendo fugir enquanto nos aprofundamos nela. “Aniquilação” (ou “Annihilation“, no original) é um complexo filme sobre nossa entropia, e nossa dificuldade em lidar com as mutações que nos cercam e aquelas dentro de nós. Aqui, vamos buscar explicar e entender o final de “Aniquilação”, analisando o filme por partes.

entendendo aniquilação

Título: Aniquilação (“Annihilation“)

Diretor: Alex Garland

Ano: 2018

Pipocas: 9,5/10

É importante tirar do caminho um fato: este é um filme excelente. Belo, com incrível uso da ficção científica e (literalmente) brilhante, Alex Garland (diretor de “Ex Machina”) demonstra um domínio profundo da arte de se contar uma história em cinema; gostando ou não, a técnica é incontestável, com somente um CGI incômodo em algumas cenas.

Dito isso, para aqueles de nós que não estavam entendendo “Aniquilação”, este texto vem tentar aprofundar em seus temas. Muito além de sua psicodelia visual, edição complexa e atuações e situações igualmente intensas, este é um filme que se desenvolve em dois níveis além do literal. Em uma primeira camada, temos uma equipe de cientistas que precisa adentrar uma área infectada pelo Brilho – um tipo estranho de radiação espacial que contamina um farol e continua se expandindo a partir dali. Em um nível mais profundo, o longa trata sobre como lidamos com nossas autodestruições através de uma alegoria sobre o câncer.

Entendendo “Aniquilação” através de seu título

Para chegarmos nesse ponto, vamos usar o começo do filme para analisá-lo de trás para frente. O termo “aniquilação” vem do latim “annihilare”, e compartilha o radical “nihil” – o mesmo de “niilismo” -, que significa “nada”. Assim, embora “aniquilar” geralmente seja interpretado como “destruir”, a compreensão mais próxima seria “reduzir a nada” – dividir algo tão minimamente a ponto de ele não ser algo discernível.

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Outro significado útil para o nosso propósito de seguir entendendo “Aniquilação” como uma dupla alegoria vem da física, com uma perspectiva bem diferente. Para a física, “aniquilação” acontece quando duas partículas opostas se chocam para criar algo novo – quando um eléctron se choca com um pósitron para criar dois fótons, por exemplo. Através deste conceito, temos a ideia de dois opostos se chocando e criando algo completamente novo.

E, com estas duas interpretações, temos nossa chave para explicar o final de “Aniquilação”.

A Entidade, doutora Ventress e Lena

Encontramos a doutora Ventress (Jennifer Jason Leigh), ou o que restou dela, pensando sobre o processo que a toma por inteiro. Provavelmente por ter câncer em estágio avançado, a Entidade (se podemos convencionar chamá-la assim) não vê viabilidade em duplicá-la, como fez com Kane (Oscar Isaac) e posteriormente faria com Lena (Natalie Portman). Ali, Ventress faz um dos monólogos mais relevantes para corroborar o sentido físico para o título do filme ao descrever como seus corpos e suas mentes estavam sendo “reduzidos a menor parte possível” deles mesmos. Era o processo através do qual eles fariam parte do todo – e de tudo – ao serem reduzidos a nada. A Entidade parece habitá-la após não conseguir duplicá-la, de forma que ela é consumida para que a Entidade tente ganhar forma mais uma vez. Ventress foi literalmente reduzida a moléculas de energia para se tornar algo novo – exatamente a soma dos dois sentidos do título.

Doutora Ventress.

Deste choque, surge a duplicata de Lena. Lena-2 assume a forma da mulher, copiando seus movimentos como um espelho, mas com o acréscimo de um instinto de sobrevivência quase animalesco. Utilizando-se de sua inteligência, Lena dá feições para Lena-2 exatamente no momento em que consegue ser mais inteligente do que sua cópia, destruindo-a com uma granada.

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Até aqui, vimos a alegoria da célula cancerígena, em mutação, representando a maneira como as transformações da vida somente são negativas por causa do viés através do qual enxergamos; em outras palavras, as mudanças causadas pelo fenômeno não necessariamente destroem a vida, mas somente a reformatam de forma significativa. Lena afirma isso várias vezes ao longo do filme, ao falar que as paisagens dentro do Brilho não eram sempre como um pesadelo, e, posteriormente, dizendo que a força alienígena não pretendia destruir, apenas reconstruir. Ao final do filme, a metáfora se inverte: em vez de a Entidade causar nova mutação construtiva/destrutiva para a raça humana, Lena consegue dar o passo que a liberta desta dinâmica. Ela é a força da mutação desta vez, destruindo a espécie alienígena. Neste ponto, o filme inverte o jogo.

Kane, o câncer e as outras cientistas

O que aconteceu com Kane foi o mesmo o que houve com Lena, mas ao contrário. O Sargento Kane original passou pelo mesmo processo que sua esposa, mas encarar sua duplicata fez com que ele terminasse de enlouquecer, depois de ver todos aqueles horrores, enquanto sua mente ainda se despedaçava, desligando-se (“cut out“) dele gradativamente. Kane-2 assiste, impassível, enquanto o original se explode, e depois deixa o Brilho para cumprir sua promessa de reencontrar Lena, ficando plenamente saudável após ela explodir o Farol. Como ele saiu do Brilho ou como o Farol o influencia diretamente não é deixado claro.

Inclusive, a íris fluida dos olhos de Kane-2 e Lena, ao final do filme, podem levar à interpretação de que ali são duas duplicatas, o que não é o caso. Todo o filme versa sobre seres diferentes tornando-se iguais ao serem reduzidos à menor parte de si mesmos – simples moléculas. Quando se encontram, Lena pergunta à duplicata do marido se ele seria o Kane, e o homem responde que não. Quando Kane-2 pergunta de volta se ela é Lena, ela fica em silêncio. Isso se dá pelo motivo que Vantress explica quando decide seguir para o Farol: todos eles estão sendo modificados; “a versão de você que sair daqui não será a mesma que entrou”. Depois de todo aquele tempo dentro do Brilho, e a exposição à própria Entidade, Lena teve seu DNA alterado ao ponto de se tornar semelhante a Kane-2. Embora ela ainda seja o mesmo indivíduo, ela agora é uma pessoa completamente diferente.

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Voltando o foco para o (os?) personagem de Oscar Isaac, Kane e Kane-2 são mais uma repetição da temática do um-que-vira-dois-que-gera-um. Isto é repetida desde a primeira cena do filme, quando Lena está explicando a divisão celular e dizendo que todos os seres vivos vieram de uma única célula – o que, por sua vez, explica como que o DNA de plantas, animais e pessoas conseguem se comunicar ao longo do filme: através deste ancestral em comum de mais de quatro bilhões de anos atrás. Lena explana que a célula seria mais forte se não se dividisse; ela viveria para sempre, sem perder sua força, mas ela simplesmente não consegue evitar se autodestruir.

É, obviamente, o ponto ao qual a doutora Ventress se refere quando ela e Lena estão de vigia. Ela afirma que, como bióloga, Lena entende melhor do que ninguém a tendência que os seres têm de se autodestruírem. O que o filme não explicita neste momento, contudo, é o fato de que esta autodestruição nas nossas vidas não só é inevitável como é muitas vezes desejável. A mesma tendência dos seres vivos à autodestruição que estimulou esse “erro” de se dividir e sofrer a necessária mutação para que todas as células gerassem diferenciação entre si também levou Lena a desestabilizar um casamento feliz, como Ventress aponta. O mesmo processo com resultados diametralmente opostos, porque a autodestruição é neutra em seus propósitos.

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Entretanto, nem todos os personagens lidam com esta questão da mesma forma. O Brilho serve como prisma, refratando luz, rádio e DNA – e o copo d’água no início e no final do filme servem como ilustração prática disso. Neste processo, todas as personagens sofrem mutações – ou, se preferir, lidam com seus próprios cânceres. Anya (Gina Rodriguez) surta completamente e coloca a culpa do inculpável nos outros; Ventress decide enfrentar e Lena quer lutar, como Josie (Tessa Thompson) aponta. A própria moça, no entanto, aceita essa autodestruição, este câncer, e abre mão de ser si para tornar-se um com o todo. Em outras palavras, a mutação de Josie acelera exatamente porque ela se entrega.

A analogia com o câncer é talvez a mais óbvia de todo o filme: na primeira cena, Lena está ensinando sobre câncer; posteriormente as mutações são chamadas nominalmente de “patologia” e “tumor”, mais de uma vez, e as próprias células-Brilho se comportam muito como um tumor maligno faria. Mesmo em sua obviedade, o filme é construído em torno desta lógica. É como se “Aniquilação” fosse uma festa temática de câncer para celebrar a autodestruição de todos os seres vivos. Viva?

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A soma destas partes demonstra que o segundo longa dirigido por Alex Garland tem como mote principal a forma como inevitavelmente todos os seres buscam e precisam se autodestruírem – seja filosófica ou fisiologicamente. Todos os sistemas vivos tendem à morte, mas como diria o podcast Welcome to Night Vale, “a morte só é o fim se você presume que a história é sobre você”. A destruição de algumas vidas abre caminho para novas formas de viver, por mais cruel que isso possa parecer – e talvez seja mesmo. Sendo como for, “Aniquilação” é um filme tecnicamente brilhante e tematicamente profundo, com tantas cenas bizarras quanto contemplações perturbadoras, se apresentando como um longa que nos afeta da mesma forma que o Brilho afeta seus personagens ao destruir qualquer expectativa de entendimento pleno do que está acontecendo.

Sendo esse o caso, melhor nos deixarmos sermos destruídos. Vamos ver o que nasce disso.

***

Fontes:

Etimologia da palavra “aniquilar”.

Este artigo me deu algumas ideias sobre o uso do câncer como tema, mas eu discordo bastante de grande parte das conclusões deles.


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erikavilez

Erik (sem C) é escritor, roteirista e dançarino de hula profissional lá fora. Aqui dentro, Erik é redator-chefe e comercial do site, além de criador, host e editor do PontoCast, o podcast carro-chefe da casa.