ENEM 2017: por que nenhum de nós está pronto para essa prova?

Não é nem de longe a primeira vez que falamos sobre educação aqui no PontoJão – como você pode ver aqui, aqui e aqui -, mas é válido um questionamento sobre o que raios o ENEM 2017 poderia estar fazendo no seu querido site de cultura além da curva. Isso se deve principalmente ao fato de eu ter feito a prova ontem, sendo surpreendido com o que me deparei: um conteúdo que exigia desde articulação de conceitos filosóficos complexos até apreciação artística. Junto a percepção de que a prova fora muito bem elaborada, veio também a de que as escolas brasileiras não preparam seus alunos para um teste desse nível.

enem 2017
Amarelo significa “atenção” por um motivo.

Isso transcende mesmo os pontos relativos ao ensino público ou privado. Com certeza, se formos para as escolas públicas, muitas sucateadas e abandonadas à própria sorte, populada por alunos sem perspectiva de uma inserção valorizada no mercado de trabalho, muito menos no ensino superior, o contraste é forte. A diferença gritante da realidade daqueles que podem pagar por uma escola daqueles que não podem é sempre um fator a se considerar, e de modo algum é razoável colocar ambas as experiências no mesmo nível.

Dito isso, o ensino privado também não prepara as pessoas para este ENEM. Digo isso como ex-aluno de escola particular: bolsista durante toda minha vida escolar, tive acesso a um dos melhores colégios da minha cidade. Ainda assim, mesmo considerando que eu concluí o ensino médio em 2010, consigo me lembrar suficientemente bem das aulas para saber, por exemplo, que certamente não me ensinaram a apreciar instalações artísticas.

Agora veja essa questão.

Pode parecer óbvio porque a resposta está embaixo, mas experimenta fazer a questão honestamente.

Não é uma pergunta propriamente complexa; na verdade, a dificuldade dela reside no fato de ser muito direta e simples. Você tem uma imagem e você precisa chegar a uma conclusão a partir da apreciação de uma instalação artística representada em uma foto. É nessa hora que duas coisas entram em conflito: a subjetividade da arte versus a objetividade de uma questão como essa. Não há espaço para discurso, para reflexão e uma conclusão fundamentada: são cinco opções, e somente uma delas está certa.

No geral, os alunos do Brasil não estão prontos para uma prova com esse tipo de questão porque nem mesmo os melhores colégios, de uma forma abrangente, estão aptos a preparar seus alunos filosófica e analiticamente a este nível. Em outras palavras, você não tem como ensinar isto em sala de aula. Não é possível ensinar quais fundamentos teóricos analisar neste caso porque, em última instância, não há teoria ali. É simplesmente a arte, subjetiva, resumida em uma escolha de cinco letras. Isto demanda experiência com arte, não com a teoria.

Esta não foi a única questão com este teor na prova. De Aristóteles a Habermas, passando por Kant, os filósofos foram reis nesta primeira prova do ENEM 2017. Foram várias as questões que os adereçavam diretamente, e outras que pressupunham uma interiorização de seus conceitos para acertar a resposta; você não precisava saber quem era Immanuel Kant, mas ajudava bastante conhecer o imperativo categórico, por exemplo.

Immanuel Kant, amigo da moçada.

De conhecimentos específicos – como o que foi o Modernismo, por exemplo -, com cobrança clássica de conteúdos de forma direta, foram poucas as questões. A prova valorizou muito mais a capacidade de reflexão e abstração do que os conteúdos que certamente foram dados à exaustão nos cursinhos da vida ao longo desse ano. Nessa hora, os alunos se deparam com esta prova e uma percepção os atinge: as escolas não nos prepararam para isso.

E eles estão certos. A cultura do vestibular criou uma “indústria da educação” no Brasil voltada para passar na prova, e isso não é essencialmente ruim; bem ou mal, os vestibulares e os ENEM são democráticos, pelo menos em teoria e ignorando o acesso aos cursos preparatórios. Ainda assim, se formos para os Estados Unidos, por exemplo, nem na teoria isso existe: cartas de recomendação de pessoas importantes, notas altas ao longo de toda a vida escolar e participação em atividades extracurriculares são necessárias para se entrar em uma faculdade de bom nível – pagando uma fortuna para isso. No que tange ao acesso à educação, estamos anos-luz à frente do Tio Sam.

Ainda assim, o efeito colateral disso foram os já mencionados “cursinhos”, os pré-vestibulares que exaurem os alunos em maratonas de dezenas de horas semanais, com surras de fórmulas, conceitos e Everestes de exercícios para os finais de semana. Nessa estrutura, não há espaço para a vivência: como parar para apreciar a arte e trocar ideias sobre uma pintura quando é necessário fazer vinte questões de biologia para o dia seguinte? Como deixar de lado as equações e o Parnasianismo e seus expoentes para se preparar para uma questão como essa abaixo?

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E é aí que a primeira prova do ENEM 2017 aponta numa direção diferente do que todo o movimento da educação brasileira. Enquanto mesmo os colégios de ponta estão forçando em seus alunos uma quantidade massiva de conteúdo e pouquíssimos exercícios que os ensinem a processar apropriadamente essa informação, o ENEM está aferindo a sensibilidade artística, a capacidade de abstração de conceitos e a percepção do subtexto. Para uma formação como ser humano, o que o ENEM 2017 buscou em sua primeira avaliação é muito mais relevante do que a criação de um exército de papagaios letrados. Ainda assim, se não estamos preparando nossos alunos para isso, qual o alcance real deste teste? Seria para forçar as escolas a ter uma abordagem mais reflexiva de seu conteúdo de maneira a ter sucesso na prova? Mas este é o Ministério da Educação; se o objetivo fosse esse, não seria mais útil uma reforma curricular?

Certamente há um mágico de Oz por trás das cortinas nesse caso, e informações que não temos para bater martelos e afirmar que estão certos ou errados. Mesmo considerando que a primeira prova do ENEM 2017 foi muito bem elaborada, com questões e abordagens interessantes, isso não muda o fato de que os alunos brasileiros não foram preparados para uma prova desse teor, e talvez devessem ser. Independente do que acontece atrás dos panos, é preferível escolhermos acreditar que esta prova foi um convite para todos nós – professores, alunos, responsáveis – darmos um passo em relação à uma educação mais real visando uma sociedade que, oxalá!, de fato pense no que diz e escreve.

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erikavilez

Erik (sem C) é escritor, roteirista e dançarino de hula profissional lá fora. Aqui dentro, Erik é redator-chefe e comercial do site, além de criador, host e editor do PontoCast, o podcast carro-chefe da casa.