Em Ritmo de Fuga (2017): é possível ser um ótimo filme de ação sem ser oco!

em ritmo de fuga

Título: Em Ritmo de Fuga (“Baby Driver“)

Diretor: Edgar Wright

Ano: 2017

Pipocas: 9/10

“Em Ritmo de Fuga” é um ótimo filme, e isso deve ser dito logo de cara. Com ótimas cenas de perseguição e ação, o filme consegue entremear música em suas cenas, transformando subtexto em texto, sem deixar com que o filme se perca nesse diálogo. Mais do que um filme excelente por si só, “Em Ritmo de Fuga” mostra que é possível ter tudo isso – tiro, porrada, perseguição e, sim, bomba – sem se tornar um blockbuster absurdo e bobo no processo.

Nada contra blockbusters absurdos e bobos – tenho até alguns amigos que são. Sem utilizar daquele clichê do “desligar o cérebro”, não há qualquer problema em filmes funcionarem somente como entretenimento. É digno de elogios, no entanto, um filme que consegue trazer todos os elementos que tornam os outros um sucesso, mas sem perder de vista que há (ou deveria haver) um roteiro com personagens que precisam ser desenvolvidos, em vez de transformar o longa em uma sucessão de clipes que em muito se parecem com uma orgia de ação juvenil, com seus homens bombados e mulheres seminuas.

“Em Ritmo de Fuga” é um exemplo por dirigir na contramão deste movimento.

em ritmo de fuga

Escrito e dirigido por Edgar Wright (de “Scott Pilgrim”, e quase de “Homem-Formiga“, tendo abandonado o projeto por falta de independência no processo criativo), “Em Ritmo de Fuga” conta a história de Baby (Ansel Elgort, aquele que colocava culpa nas estrelas), um rapaz com problema de audição que escuta música o tempo todo para abafar o silvo agudo em seus ouvidos. Além de conhecedor musical, Baby também é um excelente piloto de fuga; com suas habilidades atrás de um volante, ele trabalha para Doc (Kevin Spacey, “House of Cards“) em assaltos diversos como forma de pagar uma dívida. Em seu último e mais ousado trabalho, Baby precisará fazer o assalto acontecer apesar dos instintos kamikaze de seus parceiros de crime, principalmente o louco Bats (Jamie Foxx, DJANGO!) e o casal Buddy (Jon Hamm, de “Mad Men“) e Darling (Eiza Gonzalez, “From Dusk till Dawn: The Series”). Para piorar, no meio do caos que já é sua vida, Baby se apaixona por Debora (Lily James, “Cinderella“), e precisa mantê-la segura enquanto seu mundo desaba em uma velocidade estonteante.

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E não falta velocidade nesse filme! Com manobras fantásticas, o filme mantém o mesmo ritmo desde sua sequência inicial (que você pode ver abaixo) até chegar em seu desfecho. Mesmo quando os personagens saem de seus carros, o longa consegue estabelecer uma cadência que não permite que o momentum se perca, levando “Em Ritmo de Fuga” a frente mesmo em suas cenas mais calmas.

Isso se dá muito – e principalmente – pelo uso da trilha sonora na película. Como o nome em português demonstra, o ritmo do filme é ditado pelas canções que Baby escuta, mas vai além disso: pano de fundo em outras produções, as canções de “Baby Driver” muitas vezes saltam aos nossos olhos em total sincronia com o filme – às vezes literalmente. São armas disparadas no ritmo da música, ou a letra que aparece pichada em muros, colada em postes ou nas ações de Baby na cena de abertura: aqui a música é protagonista. Com uma seleção diversa (que você pode ouvir aqui), “Em Ritmo de Fuga” traz desde funks americanos até Queen. Tem espaço para todos os gêneros.

E quando “Baby Driver” puxa o freio de mão e trabalha as relações de seus personagens, ele também o faz com a mesma maestria. A relação entre Baby e Debora é desenvolvida de forma rápida, mas natural, e se constroi de maneira simples, enquanto a dinâmica entre Baby e seus colegas de crime varia entre o respeito, o desprezo e a incompreensão, os quais gradativamente dão espaço para que os bandidos se conheçam de fato – para o bem ou para o mal.

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Ainda dedicando algumas cenas para caçoar de outros filmes de ação-de-assalto, “Em Ritmo de Fuga” faz suas duas horas de duração passarem voando, e consegue fazer com que nos importemos mais do que com seus carros, suas balas ou suas chamas, mas com suas pessoas. Divertido, intenso e bem feito, nos incita a querer ver mais de seus personagens no mesmo cenário destrutivo que vimos aqui. “Em Ritmo de Fuga” é um filme excelente que, apesar de veloz, não faz com que saiamos furiosos do cinema, mas muito contentes com sua capacidade de entreter sem parecer estúpido.

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erikavilez

Erik (sem C) é escritor, roteirista e dançarino de hula profissional lá fora. Aqui dentro, Erik é redator-chefe e comercial do site, além de criador, host e editor do PontoCast, o podcast carro-chefe da casa.