Os Efeitos Netflix: das maratonas à efemeridade do burburinho

Em meados de 2011 chegava ao Brasil a Netflix. A maior empresa de streaming da atualidade entrou na vida dos brasileiros com a proposta de trazer a liberdade de escolha do entretenimento televisivo para as mãos do consumidor. Contrariando o modelo de programação das TVs aberta e a cabo, a Netflix tornou possível que o espectador consumisse suas séries, filmes, documentários e realities preferidos onde e quando quisesse. Dentre seus muitos frutos, os Efeitos Netflix repercutiram em toda a produção de entretenimento.

efeitos netflix

Era apenas questão de tempo para que a empresa norte-americana alçasse voos mais arriscados e começasse a produzir seu próprio conteúdo original, exclusivo e diversificado. Dessa maneira, ofereceu ao consumidor uma soma de motivos para aderir a um de seus modestos planos de assinatura.

Consolidou-se então uma entidade carismática, cujos consumidores se mostram tão satisfeitos que a propaganda se dá pelo próprio público. Esse é um dos efeitos causados pela empresa queridinha de todos nós.

Efeitos Netflix

Internet adentro, a expressão “efeito netflix” é frequentemente relacionada a termos como “binge-watching” e “maratona”. É também comum que a expressão esteja atrelada à inserção em massa de empresas televisivas já consagradas, as quais se utilizavam da programação fixa, ao formato de streaming. Entretanto, o objetivo deste escrito, caro leitor, é chamar a sua atenção para a existência de “efeitos Netflix”, no plural, graças a outra de suas consequências: a efemeridade do burburinho.

Como supracitado, a Netflix entendeu que uma maneira eficaz de atrair assinantes é diversificando o conteúdo. Para não depender de outros canais, ela iniciou sua própria produção de programação diversa. Quanto mais abrangente o conteúdo, maior o número de assinantes em potencial.

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Em virtude disso, dois motivos complicam a vida de quem tem a intenção de acompanhar todos os lançamentos originais da Netflix:

1 – Muitos lançamentos em um período curto

De janeiro a junho de 2017, a Netflix estreou 20 séries originais e pelo menos 10 novas temporadas de séries já lançadas. A média é de aproximadamente uma temporada por semana, sem contar filmes, documentários e títulos do selo KIDS. No mesmo período, a HBO lançou 4 novas temporadas e 2 estreias, a FOX/FX lançou 6 novas temporadas e 3 estreias e a CBS lançou 27 novas temporadas e 3 estreias.

2 – Você certamente não é o público alvo de todos eles

A questão é: isso é ruim?

Como bem sabemos, a Netflix não divulga o número de assinantes ou a audiência dos conteúdos, embora seja possível inferir a popularidade de um título pela sua repercussão nas redes sociais.

As séries da Netflix tendem a permanecer menos tempo no centro das atenções em virtude do modelo de consumo e do volume lançamentos. Se você maratona um título, logo parte para outro. O modelo clássico de transmissão obriga o espectador a esperar pelo menos uma semana para assistir o próximo episódio. Esse intervalo entre episódios é o espaço perfeito para teorias e conversas sobre os acontecimentos semanais das séries.

Para aprofundar a discussão, vamos comparar canais consagrados que usam modelos diferentes: Netflix e HBO.

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As séries da HBO em geral possuem 10 episódios por temporada. São dois meses e meio de feedback garantido por parte do público. A Netflix, por outro lado, opta por séries de 8 a 13 episódios por temporada, todos eles disponíveis para transmissão no mesmo dia. Pela disponibilidade imediata, é comum a prática da maratona em um só dia.

A HBO é um canal bem mais antigo (1972), logo, é de se esperar que possua mais séries originais canceladas e finalizadas que a Netflix. Assim como a empresa de streaming, a HBO costuma diversificar seus produtos, embora geralmente se volte para o público adulto.

A grande diferença entre os dois modelos é que os títulos transmitidos semanalmente se mostram mais eficientes em fidelizar o público, enquanto a repercussão do modelo Netflix reflete o imediatismo dos lançamentos.

Em comparação, despreze propagandas de camisetas, canecas e penduricalhos, e pense em quanto tempo você viu discussões sobre “Westworld” (2016) desde antes da estreia (com trailers e teasers) da temporada até o “fim do hype”. Três, talvez quatro meses? Um semestre, mais ou menos?

Agora pense em uma das últimas grandes repercussões da Netflix.  Considerando as mesmas condições, reflita: qual foi a última vez que você ouviu comentários sobre “13 Reasons Why” (que estreou em março de 2017)? Imagino que seja um período bem menor.

Veja, isso não é virtualmente ruim do ponto de vista de que o período de fama não costuma afetar diretamente a qualidade das produções. Mas será que afeta a longevidade das séries?

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Para efeito conclusivo, quantas séries originais já foram canceladas pela Netflix? Quantas foram realmente finalizadas? Considerando que é a perenidade dos debates sobre séries como “Mad Men“, “Breaking Bad” e “Game of Thrones” que acabam por outorgar às séries o status de “clássicos”, será que o modelo da Gigante Vermelha  consegue produzir clássicos da televisão?

A pergunta crucial aqui reside exatamente neste ponto. Sabemos que um dos “efeitos Netflix” é a intensidade com que suas séries são debatidas, entrando, à via de regra, num mar de esquecimento rapidamente, com um hype de curta meia-vida. Só o tempo – e a internet – irá dizer se esses pavios netflixianos têm força o suficiente para, uma vez concluídas – ou canceladas -, deixar sua marca no imaginário popular.

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Escrito por Leandro Bezerra. Encontre-o no Twitter.

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erikavilez

Erik (sem C) é escritor, roteirista e dançarino de hula profissional lá fora. Aqui dentro, Erik é redator-chefe e comercial do site, além de criador, host e editor do PontoCast, o podcast carro-chefe da casa.