“Doutor Estranho” (2016) e a Espiritualidade Estética

Há um conflito muito acentuado no ser humano desde o Iluminismo que tem sido acentuado nas últimas décadas. Enquanto, como um todo, a humanidade concede a necessidade de alguma dimensão espiritual como parte integrante da vida, há uma crescente rejeição de religiões ou fés específicas, as quais têm sido substituídas por um foco no desenvolvimento do indivíduo – uma busca por ser além de si dentro de si.

Em “Doutor Estranho“, vemos a Marvel desbravando novos territórios ao explorar a magia em seu universo. Como consequência, elementos metafísicos foram utilizados, dando ao mesmo tempo nenhum e vários nomes para os conceitos que abordava em cena. Embora seja uma peça de entretenimento, o novo filme da gigante dos herois (e dos herois gigantes) é um exemplo de nossa geração que busca transcender de forma poética

e bela, enobrecendo mesmo o sofrimento, em uma espécie de espiritualidade estética.

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Num salto temporal rápido (dentro da proposta de “Doutor Estranho”, inclusive), vemos o Iluminismo como um ponto de inflexão para as crenças como um todo, mas principalmente em como o homem enxergava a crença[1]. Ao mesmo tempo em que aceitávamos que a Terra não era o centro do universo, também debatíamos que deuses não eram o centro da nossa existência, e que o homem deveria voltar-se em seus estudos para si mesmo, em suas necessidades e prazeres, no que foi chamado antropocentrismo. Desta forma, muitos que criam em entidades superiores deixaram de crer, e os que permaneceram crendo passaram a ter a fé como um meio para um fim que serviria ao bem da humanidade – ou, no mínimo, de si mesmo.

Embora tenha passado por revezes e contradições nos últimos trezentos anos, o pensamento antropocentrista conseguiu criar raízes na sociedade, e hoje vivemos nossas vidas em busca de nossa felicidade e realização pessoal como frutos desta forma de enxergar a vida. Nesse contexto, a dimensão do ser humano que é entendida como metafísica ou espiritual – sua capacidade de transcender, a existência de uma alma e consciência independente do corpo, um propósito além da matéria – muitas vezes foi renegada ou posta como possível, mas não necessária.

Os anos 1970 trouxeram a temática de uma forma nova; enquanto, até então, a espiritualidade era atrelada à religião e às igrejas, o descontentamento e frustração da geração do fim dos anos 60 passou a tratar a espiritualidade desassociada e livre das estruturas religiosas. Enquanto parte dos rebeldes lançou-se ao hedonismo e o sexo-drogas-rock n’roll, outra seção deles abraçou a espiritualidade como parte do hino de paz-e-amor (e drogas também, é claro).

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O movimento hippie, como seria conhecido, teve sua ascensão e, senão sua queda, uma adormecida dopada em gramas verdejantes no início dos anos 1980. A espiritualidade livre, no entanto, prosseguiu através das décadas, de forma que hoje a frase “eu creio em algo superior, embora eu não saiba exatamente em quê” não soa particularmente absurda. Também são frutos deste processo a incorporação de elementos orientais – como energias, chakras e elementos físicos, como cristais e flores – nesta forma de se enxergar o mundo.

E, como você pode imaginar, já chegamos em “Doutor Estranho”.

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No filme, logo em seu início, a Anciã explica como funciona os seus poderes, antes mesmo de demonstrá-los. Nas páginas de seus livros de magia, ela mostra a Stephen Strange desenhos de chakras, seguidos por ilustrações de pontos de acupuntura e depois por uma ultrassonografia. Os desenhos mostram pessoas nas mesmas posições, sempre no mesmo lugar da página, criando uma sensação de transição lógica ou sobreposição, afirmando visualmente que todas essas visões são somente diferentes perspectivas da mesma verdade.

Isto, além de demonstrar a empreitada dos últimos trinta anos de explicar a espiritualidade através da ciência, no ramo da metafísica e os esforços de pseudociências em se afirmarem, também pretende ser universal. Em outras palavras, mostra que não importa no que você acredita em termos absolutos, porque você definitivamente acredita naquilo que está sendo demonstrado e explicado – você só dá um nome diferente.

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Desta forma, o filme consegue trazer todos os espectadores para dentro de sua estrutura, usando referências estéticas – distorções, cabalas e mosaicos – para demonstrar este acesso de Strange à sua espiritualidade. Embora utilize conceitos como projeção astral e desdobramento, o filme evita ao máximo possível dar nomes aos bois, conseguindo não incomodar aqueles que são contrários a estas crenças enquanto consegue, com sucesso, acrescentar a metafísica que precisa para sua história funcionar. Desta forma, fala de espiritualidade de uma forma estética – como ela é e o que consegue ou não fazer – em vez de abordá-la de forma conceitual – o que seria ou deixaria de ser, de fato, espiritualidade.

Assim sendo, “Doutor Estranho” consegue resumir o estado atual da jornada humana em busca da espiritualidade – mesmo que este, nem de longe, seja seu objetivo. Stephen e seus companheiros magos reproduzem a lógica da crença em algo, que serve a um propósito e que, por isso, pode ser manipulado para o bem ou para o mal, mas que não tem fim em si mesma. É uma espiritualidade estética que, como um feitiço do Mago Supremo, é pronunciada para alcançar um fim, embora não necessariamente se saiba com precisão o que está sendo dito.

Um feitiço atual para os tempos atuais.

 

[1] Aqui literalmente “o homem”. Não havia espaço para as mulheres pensarem no século XVIII.

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erikavilez

Erik (sem C) é escritor, roteirista e dançarino de hula profissional lá fora. Aqui dentro, Erik é redator-chefe e comercial do site, além de criador, host e editor do PontoCast, o podcast carro-chefe da casa.