Doentes de Amor (2017): um competente sickflick às avessas (resenha sem spoilers)

“-Eu não te vaiei, eu fiz “woohoo”. É para dar suporte.

-Esse é um engano comum. Gritar qualquer coisa para um comediante é considerado vaia. Vaia não precisa ser negativa.

-Então se eu gritasse “você é incrível na cama!”, isso seria uma vaia?

-Sim. Seria uma vaia verdadeira.”

doentes de amor

Título: Doentes de Amor (“The Big Sick“)

Diretor: Michael Showalter

Ano: 2017

Pipocas: 7/10

sick-lit é um gênero literário tipicamente adolescente que trabalha a descoberta do mundo ou uma nova liberdade achada à medida que seus personagens lidam com uma doença física ou psicológica. John Green (“A Culpa é das Estrelas” e “Teorema Katherine”) e Matthew Quick (“O Lado Bom da Vida” e “Perdão, Leonard Peacock”) são dois grandes nomes do subgênero que tem atraído tanta fama quanto controvérsia. Se o sick-lit é a versão das páginas, podemos dizer que o sickflick acontece quando esta trama é levada às telonas, seja como adaptação ou roteiro original. Nessa levada, “Doentes de Amor” é um agradável sickflick que sabe conduzir bem a sua história e debater o peso que uma doença traz às pessoas ao redor, mas peca na falta de personalidade para alternar entre suas abordagens.

Kumail Nanjiani (interpretando uma versão ficcional dele mesmo) é um comediante de stand up e motorista do Uber de origem paquistanesa. Mesmo que seja muito apegado ao seu país natal, Kumail tem dificuldades em atender às expectativas de sua família tradicional, que insiste que ele siga o islamismo à risca – e, principalmente, que ele aceite um casamento arranjado com uma garota paquistanesa. Embora Kumail finja aceitar essas condições, as mentiras se tornam insustentáveis quando ele conhece Emily Gardner (Zoe Kazan), uma garota branca com a qual ele constroi um relacionamento. Quando Emily contrai uma doença bizarra, os mundos de Kumail passam a colidir.

Se essa trama soa pra você muito próximo de cair no clichê da manic pixie dream girl, isso não é à toa: à via de regra, Emily se encaixa na trope pela maior parte do filme, funcionando apenas como um elemento de transformação para seu namorado e forçando-o a sair da zona de conforto e ser uma pessoa melhor. Somente no terceiro ato é que a personagem ganha dimensão e voz o suficiente para sair dessa sombra, sendo capaz de definir e traçar suas vontades e motivações de maneira mais clara para nós.

Apesar disso, a história de “Doentes de Amor” funciona e agrada em muito devido à direção sutil de Michael Showalter (de “Wet Hot American Summer“, fazendo aqui o oposto do seu trabalho na comédia cult) na condução de um roteiro espontâneo, com ares de improvisado. As cenas cômicas funcionam bem, e a adição de Aidy Bryant (de “Saturday Night Live”) e Bo Burnham (da cena stand up atual) ao elenco de apoio funciona bem; a química entre os três torna as piadas fluidas, embora ainda estejam abaixo do que vimos recentemente em “I’m Dying Up Here“, por exemplo.

A leveza marca a fita com bastante sucesso e charme até a sua metade, quando há a virada para o lado do sickflick e o drama se torna a nota principal que mantém o filme. Aí ele perde força: Holly Hunter e Ray Romano, embora estejam excelentes, entram tarde demais no filme para conseguir levá-lo sem perda de ritmo. Ainda assim, a maior fraqueza do filme é a tentativa de Kumail de fazer drama: o ator de “Silicon Valley” simplesmente não convence em suas caras de tristeza e suas tentativas de choro – algumas bem constrangedoras. O roteiro ainda brilha em momentos de quebra da tensão com piadas pontuais, mas a mudança brusca de direção, embora interessante, não tem o apelo necessário para que não só interessemos, mas gostemos do que estamos vendo.

Considerando esses elementos, talvez o ponto mais interessante de “Doentes de Amor” seja mesmo a inversão do sickflick. Se tradicionalmente no subgênero os personagens se descobrem a si mesmos através da doença, isso é impossível de acontecer aqui, de forma que as pessoas se veem obrigadas a se descobrirem apesar da doença, e não por causa dela. O resultado é drasticamente diferente: se no sickflick tradicional os personagens jamais sairiam da zona de conforto não fosse o mal que lhes acomete, aqui é impossível não pensar um “poxa, eles podiam ter feito isso e resolvido a situação bem antes”, tendo sido impedidos pela teimosia, orgulho e outros sentimentos perfeitamente humanos.

Outro ponto alto de “Doentes de Amor” é a dinâmica que a família de Kumail traz à mesa. É interessante ver como o roteiro não a trata somente como uma muleta para fazer piadas ou um obstáculo a ser vencido; Kumail não continua indo à casa da mãe para que o roteirista consiga umas risadas, ele o faz porque de fato os ama e não quer decepcioná-los ou perdê-los. A partir daí, o filme também se distancia do padrão das comédias românticas: ele não deve superar sua família pelo seu amor, mas sim encontrar uma forma de fazer com que os dois mundos coabitem – mais uma vez privilegiando a forma que seres humanos de fato agem em detrimento de um clichê funcional. Embora interessante, também não é novidade, visto que já vimos uma trama bem semelhante (mas melhor executada, diga-se de passagem) na primeira temporada de “Master of None”.

No fim, “Doentes de Amor” é uma comédia/drama romântico que faz jus à tradução brasileira que recebeu: é o filme que você vê no fim de noite abraçado ou ao seu amor ou a um pote de sorvete, e varia entre boas e diversas risadas, interjeições de fofura e umas caretas de tristeza – mas que dificilmente vai te levar às lágrimas. Sendo uma boa inversão do sickflick, o longa certamente agradará as pessoas que não buscarem nele mais do que ele é: um filme leve e simples, e uma canja cinematográfica para dias de gripes figurativas ou literais.

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erikavilez

Erik (sem C) é escritor, roteirista e dançarino de hula profissional lá fora. Aqui dentro, Erik é redator-chefe e comercial do site, além de criador, host e editor do PontoCast, o podcast carro-chefe da casa.