Dizzy Up The Girl – The Goo Goo Dolls (1998): preso para sempre nos anos 90

Poucas coisas soam mais fim dos anos 90 do que o The Goo Goo Dolls (e Alicia Silverstone). A banda, que alcançou sucesso com o single “Name” de 1995 e foi posteriormente catapultada para a fama com a música “Iris” no filme “Cidade dos Anjos”, tem uma sonoridade bem específica do fim do milênio. A banda traz em sua discografia canções bem radiofônicas, dotadas de refrão de fácil repetição, quase pop, mas que ainda flertam com o que restou do grunge – especificamente a temática cínica e contemplando a desgraça que a classe média emergente é para si mesma – e um ou outro arranjo mais sujo. Desse monte de influências e indecisões noventistas surge “Dizzy Up the Girl”, um álbum que se tornou o maior sucesso da carreira da banda, com aceitação considerável da crítica e um lugar cativo na minha lista de álbuns favoritos.

dizzy up the girl
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“Dizzy”, que abre o disco, é uma querida dos fãs, mesmo sendo o irmão feio entre as faixas mais populares. Ainda assim, nela já temos boa parte da temática do álbum; o primeiro verso inclusive, “você é cínica e linda”, já é uma constatação da temática grunge. Na faixa, John Rzeznik, um dos vocalistas da banda, tenta carregar um tom mais roqueiro – sem sucesso, visto que o refrão abre com vocais flutuantes e impossivelmente pop. Se o começo da música dá o tom do contexto musical no qual ela se encontra, ainda na primeira estrofe Rzeznik diz que a moça “não é nada do que você parece ser”, “se afogando em sua vaidade”, as quais são críticas genéricas à classe média tão contundentes quanto comuns na década de 90 – vide “Clube da Luta” e “Beleza Americana”, ambos de 99, como exemplos -, e são o que pode ser chamado generosamente de “eixo temático” de “Dizzy Up The Girl”.

As outras faixas de destaque do disco seguem a mesma linha. “Slide” é uma música feliz sobre o aborto (conforme comentei aqui), algo amplamente relacionado à decadência sexual dentro da sociedade, e que Rzeznik encara com a dubiedade do “você não ama a vida que você matou?”, ao mesmo tempo que diz que a mulher “é o que você sente, e o que você é é lindo”. “Broadway”, obviamente, é uma crítica – também soando estranhamente simpática – relacionada às pessoas engolidas pela indústria do entretenimento, enquanto a “Acoustic #3” versa mais uma vez sobre a desgraça familiar da classe média dos Estados Unidos (“sua mãe ama seu pai porque ela não tem para onde ir”).

Por mais simples que as músicas possam parecer – e são mesmo -, esse é um dos dois pilares que fazem de “Dizzy Up The Girl” um álbum tão agradável. A sonoridade do disco faz com que ele pareça familiar às gerações que viveram os anos 90, mesmo nas músicas que não nos são conhecidas. É uma atmosfera noventista que transcende a pura percepção musical ou lírica; é uma questão de ambientação mesmo. É como ouvir a voz-padrão do Creed/Nickelback/3 Doors Down e saber que você está ouvindo algo do início dos anos 2000; é mais do que uma percepção racional, é uma experiência sensorial nostálgica.

Esse é um dos dois pilares. O outro, claro, é “Iris”.

Quando John Rzeznik foi abordado pela produção do filme “Cidade dos Anjos” para escrever uma música para o longa, o compositor e vocalista experimentava um bloqueio criativo imenso. Rompeu com a composição de “Iris” – e que rompimento: a música viria a ser recordista ao ficar 18 semanas no topo das paradas, catapultando o lançamento de “Dizzy Up The Girl” ao ponto do álbum vender impressionantes 4 milhões de cópias, sendo certificado triplo platina.

É curioso notar como “Iris” destoa do resto do álbum. Desde as guitarras – aqui substituídas em grande parte por violões e violinos, exceto na ponte – até o tempo e cadência da música – que aqui assume um compasso 1-2-3 de valsa -, “Iris” é, com “Black Balloon”, um disco à parte dentro de “Dizzy Up The Girl”. Ambas as canções são baladas românticas com arranjos diferenciados, letras puramente românticas e até platônicas – bem destoantes do cinismo das demais. Ainda assim, são clássicas exatamente por isso: se por um lado os anos 90 querem mesmo ver o mundo pegando fogo em ironia, sempre há de existir os românticos escondidos em cinemas que exibem filmes emocionantes de anjos que se apaixonam por seres humanos. “Iris” é, sob diversos pontos de vista, uma música da resistência do fim dos anos 90, que demonstra a direção que os anos 2000 assumiriam com os sucessos açucarados e baladas famosas que abririam a década, ao mesmo tempo que consegue soar enigmática e incompreendida como todo jovem algum dia já quis ser e se sentiu:

And I don’t want the world to see me | E eu não quero que o mundo me veja

‘Cause I don’t think that they’d understand | Porque não acho que eles entenderiam

When everything’s made to be broken | Quando tudo é feito para ser quebrado

I just want you to know who I am | Só quero que você saiba quem eu sou

Um hino, o sucesso de “Iris” é história e, por mais que destoe em “Dizzy Up The Girl”, é inevitavelmente a canção pela qual o disco é lembrado, mesmo que ele tenha as excelentes “Acoustic #3”, “Black Balloon” e um encerramento incrível em “Hate This Place”. Mesmo perturbado pelos vocais de Robby Takac – talvez a voz mais irritante do pop rock mundial -, “Dizzy Up The Girl” é um disco nostálgico que, assim como o The Goo Goo Dolls, carrega em si a contradição de ter simultaneamente uma bênção e uma maldição: estar para sempre preso nos anos 1990.

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erikavilez

Erik (sem C) é escritor, roteirista e dançarino de hula profissional lá fora. Aqui dentro, Erik é redator-chefe e comercial do site, além de criador, host e editor do PontoCast, o podcast carro-chefe da casa.