Divertida Mente (2015)

“-Ah, misturamos todos os Fatos e as Opiniões!

-Tudo bem, fazemos isso o tempo todo.”

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Título: Divertida Mente (“Inside Out“)

Diretor: Pete Docter

Ano: 2015

Pipocas: 9/10

É muito comum as animações terem elementos adultos em suas tramas voltadas para o público infantil. A morte de um pai, em “Rei Leão”, ou de uma mãe (“Bambi”); a necessidade de se crescer e deixar a infância para trás (“Toy Story 3”), ou as frustrações de não se adequar à sua sociedade (curiosamente, “Vida de Inseto” e “Formiguinhaz”) são exemplos claros de como a vida dos crescidos ajuda a construir histórias para os mirins. Em “Divertida Mente” (“Inside Out”, 2015), a Pixar faz uma inversão interessante, trazendo elementos infantis numa trama estruturalmente adulta, enquanto vemos crianças lidando com (ausência de) sentimentos bem próximos à depressão.

Na animação, Riley é uma garota de 11 anos que é obrigada a se mudar da fria e bucólica Minnesota para a metropolitana São Francisco. Dentro da sua cabeça, suas emoções Tristeza, Nojinho, Raiva e Medo são liderados por Alegria na missão de equilibrar Riley nessa difícil transição – até que Alegria e Tristeza são expelidas para fora da Sala de Controle, sendo obrigadas a entrarem em uma viagem de exploração pela mente da garota para salvá-la de si mesma.

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A primeira coisa que salta aos olhos – inclusive literalmente, com muitas luzes intensas e cores vibrantes – é a incrível construção de mundo feita dentro das nossas mentes. No filme, todas as lembranças são estocadas de acordo com as cores de seus sentimentos predominantes, e as memórias mais importantes (as “memórias-base”) são levadas até o centro da Sala de Controle, de onde criam Ilhas de Personalidade. Desta forma, Riley é definida pelas ilhas da Amizade, Honestidade, Família, Bobeira e Hóquei.

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Fora desse eixo principal, acompanhamos Alegria e Tristeza enquanto elas exploram áreas diferentes da mente. O Subconsciente, com suas florestas escuras e medos escondidos; a Imaginação, com namorados aleatórios sendo criados e possibilidades infinitas; o Trem do Pensamento (“train of thought”, em inglês, ou “fio da meada”/”linha de pensamento”) e outros conceitos são explorados sem limites pelos criadores, sob a batuta mais que competente do diretor Pete Docter (“Up! – Altas Aventuras”).

É com esse tipo de humor sutil e inteligente, quase britânico, que o filme entrega grande parte de suas pérolas. Falas como “olha quantas áreas legais! Lógica Ilusória, Dèjá Vu, Passados, Déjà Vu, Imaginação, Déjà Vu” e “‘ah, meu Deus, misturamos Fatos e Opiniões!’, ‘não se preocupem, fazemos isso o tempo todo'” têm uma construção complexa demais para as crianças – e não que isso seja um problema.

A riqueza visual desse mundo maravilhoso é de encher os olhos (embora o 3D não acrescente muito), e os personagens conseguem se manter em um equilíbrio interessante entre profundidade e simplicidade o suficiente para crianças poderem identificarem a eles e a si mesmas.

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Uma vez estabelecida essa identificação, a mensagem do filme ganha muita força. Inicialmente tratada por todos como pária, Tristeza é excluída de todas as interações, visto que aparentemente ela é a única que não tem nenhuma contribuição positiva para Reily. Ainda assim (sem spoilers, relaxa), logo vemos que será necessário abraçar a Tristeza (às vezes literalmente) para que possamos ter completude.

“Possamos” porque até nisso o filme é completo! Temos vislumbres das mentes do pai e da mãe de Reily, e nessas rápidas visões observamos como os sentimentos de Reily e a própria Sala de Controle ainda evoluíram a um estado mais equilibrado e equalizado no futuro (a dinâmica familiar, inclusive, é um dos ases da produção). Nas cenas finais, vemos até as mentes de cães e gatos, tão divertidas quanto você esperava.

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“Divertida Mente” é um filme delicioso que trata de diversos assuntos e conceitos simples de forma complexa, numa inversão maravilhosa do modelo Pixar. A animação dá uma imensa vontade de ser revista, para que mais detalhes sejam capturados, para que piadas e camadas do filme sejam apreciados com mais calma, além de ser um prazer visual imenso. É a pedida certa para a criança fora e dentro de você, pronto para pôr a Alegria no controle das suas emoções, nem que só por uma hora e meia.

Obs.: O curta que passou antes do filme, “Lava”, é doce e gostoso de assistir, embora curtas anteriores sejam mais memoráveis. De qualquer forma, serve como um excelente aperitivo para o maravilhoso prato principal que veio em seguida.

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erikavilez

Erik (sem C) é escritor, roteirista e dançarino de hula profissional lá fora. Aqui dentro, Erik é redator-chefe e comercial do site, além de criador, host e editor do PontoCast, o podcast carro-chefe da casa.