Comentário | Disney comprou a Fox – o poder e o futuro da Casa do Mickey

Essa semana, o boato se tornou verdade: a Disney comprou a Fox – ou ao menos boa parte de seus produtos. Isso colocou a Casa do Mickey no topo da cadeia alimentar de Hollywood, indo ainda mais na dianteira em relação aos outros conglomerados de mídia, principalmente a Comcast, dona da Universal Studios. Na compra, muito foi o que veio, deixando o grupo Fox somente com alguns canais esportivos e a execrável Fox News. A pergunta que fica, no entanto, é, nas palavras do filósofo Axl Rose: para onde vamos agora?

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Claro que tudo que falaremos aqui se trata de especulações e palpites educados com base nas informações que já temos. Ainda assim, vale destacar o impacto que essa aquisição terá, uma vez confirmada pelo Departamento de Justiça americano, no mercado televisivo e cinematográfico nos Estados Unidos e mundo afora.

 

Disney comprou a Fox – e parte do Hulu

Talvez o primeiro mercado a sentir o impacto dessa aquisição será o de streaming. A Netflix, até agora líder inconteste no mercado, recebeu o primeiro golpe significativo em sua história quando a Disney anunciou que lançaria seu próprio serviço de streaming, onde reuniria todos os produtos Star Wars, Marvel e animações clássicas e Pixar em um único lugar – consequentemente tirando todos estes títulos da Gigante Vermelha. Além da distribuição exclusiva, o serviço ainda sem nome da Disney trará a primeira série de Star Wars com atores reais, uma série baseada em “High School Musical”, além de outros conteúdos exclusivos e milhares de filmes e séries.

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Agora some isso ao catálogo imenso da Fox – que vai desde “Arquivo X” até as 30 temporadas de “Os Simpsons” -, e o resultado final é o de um acervo senão maior pelo menos tão grande quanto a da Netflix – além de não conter riscos contratuais, por se tratar de conteúdo próprio, e ter filmes e séries mais relevantes para o grande público do que muito da programação nichada da Gigante Vermelha.

Isso por si só não tem poder o suficiente para derrubar a matriarca dos streaming, visto que “House of Cards” (apesar dos pesares) ainda existe, bem como “Stranger Things“, “Black Mirror” e afins. Contudo, não dá para negar que ter uma concorrente com algumas das franquias e lançamentos mais populares da história do cinema não vai fazer bem para os negócios da Netflix.

Mas esse ainda não é o problema todo. O Hulu, streaming criado pelos estúdios de Hollywood para competir com a Netflix, tinha 30% de suas ações na mão da Disney e outros 30% com a Fox. Agora que a Disney comprou a Fox, a Casa do Mickey tem 60% de um dos principais concorrentes atuais no mercado de streaming, o outro sendo a Amazon Prime. Bob Iger, CEO da Disney, já anunciou que não há intenções de fundir ou tornar o Hulu a plataforma oficial do estúdio, mesmo que não faça muito sentido a Disney canibalizar mercado tendo 60% de um concorrente seu.

 

Disney comprou a Fox – e os herois que ela ainda não tinha

O sonho de muitos fãs de quadrinhos, que parecia tão distante, agora é uma realidade: os X-Men e o Quarteto Fantástico agora podem fazer parte do Universo Cinematográfico Marvel (UCM). Antes dessa aquisição era realmente improvável que isso acontecesse: mesmo com um “Quarteto Fantástico” sofrível e filmes dos “X-Men” que variavam em bilheteria e qualidade, a Fox continuava firme e forte na utilização dos personagens, tendo encontrado o nicho dos filmes com censura 18 anos com os sucessos indiscutíveis de “Deadpool” e “Logan“.

O jogo virou, e a Disney agora é dona de todos estes personagens. Os filmes para adultos estão garantidos na nova gestão, mais uma vez segundo Bob Iger, e “Deadpool 2” e “Os Novos Mutantes” – este último um filme de terror adolescente com mutantes – seguem suas agendas dentro do planejado. O Quarteto, na geladeira tanto nos quadrinhos quanto no cinema, também volta para o catálogo da Marvel.

Poster de "Os Novos Mutantes".

Os impactos disso são imensos e óbvios. Se o UCM teria dificuldades em se adaptar a uma realidade pós-Vingadores 4, provavelmente sem Capitão América, Homem de Ferro e Thor, agora o estúdio está confortável tendo literalmente novos universos para explorar. O Quarteto Fantástico, por serem poucos personagens, podem ser inseridos com maior facilidade; os X-Men e seus mutantes são uma espécie diferente que ainda não existe no Universo Marvel.

Se por um lado isso é uma complicação, porque terão de inserir esta raça em uma continuidade que já tem inumanos e alienígenas, a Marvel agora pode parar de dar voltas para explicar seus personagens. Se um dia Wanda e Pietro Maximoff foram chamados de “milagres” para poderem surgir a Feiticeira Escarlate e o Mercúrio, agora eles podem dizer, com todas as letras, que ambos são mutantes e, como nos quadrinhos, filhos do Magneto.

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Ainda assim, é provável que os X-Men sofram (mais) um reboot no cinema, seja um de fato, com novos filmes, ou o que é chamado de “soft reboot“, como aconteceu em “Dias de um Futuro Esquecido”. Primeiramente, a cronologia dos X-Men nos cinema é uma zona incompreensível. Além disso, incongruências surgiriam também no Universo Marvel – como o fato de termos dois Mercúrios no cinema, por exemplo, mesmo que um já tenha morrido.

Embora seja incrível pensar em Reed e Susan Richards, Wolverine e Deadpool no mesmo universo que Tony Stark e companhia, o principal poder que a Marvel ganha agora está nos vilões. Mesmo com muitos herois em estoque, eram poucos os grandes inimigos que o estúdio tinha, capazes de opor aos Vingadores em poder. Com a aquisição, Doutor Destino, Galactus e Sr. Sinistro, dentre muitos outros, se tornam possíveis arquirrivais para a equipe dos herois mais poderosos da Terra.

 

Disney comprou a Fox – e o seu poder de impor a sua vontade aumenta

É o que acontece em um “livre-mercado” que se permite aquisições deste porte acontecerem: oligopólios, senão monopólios. Neste caso, a Disney é um monstro impenetrável à esta altura. Detentora de grande parte das maiores franquias do cinema, e agora proprietária dos três filmes com maiores bilheterias da história – “Avatar”, “Titanic” e “Star Wars: O Despertar da Força” -, a Disney tem um poder de barganha muito acima da média.

E ela tem demonstrado não ter medo de usar esse poder. O estúdio cortou o LA Times de suas pré-estreias depois que o jornal expôs como o parque da Disney em Anaheim se beneficiava de maneira abusiva dos benefícios que a cidade proporciona à ele, e tentou forçar que os cinemas repassassem uma porcentagem maior de suas bilheterias de “Star Wars: Os Últimos Jedi” como uma condição para a exibição do filme. Ambas as tentativas foram frustradas, com certo impacto à imagem da Casa do Mickey, mas nada que impeça o público de lotar as sessões para ver Rey, Kylo Ren e companhia.

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Ainda assim, apenas o fato de a Disney ter ido à frente com essas possibilidades já demonstra não só o poder que o estúdio detém, mas como ele está disposto a utilizá-lo para alcançar seus objetivos – e isso tudo antes de absorver a Fox. Com esta nova realidade, o castelo da Bela Adormecida tem novos reinos a conquistar, e não parece temer fazê-lo.

A Disney comprou a Fox, de uma maneira geral. O que importa é que este é um dos acordos mais importantes firmados na indústria do entretenimento em nossa história recente, talvez desde a compra da LucasFilm também pela Disney. Embora estejamos em especulação, o estúdio que já faturou mais de 5 bilhões só no cinema esse ano – isso antes do lançamento de Star Wars, seu principal filme do ano – tem agora mais força do que nunca, seja pendendo para resultados positivos ou negativos para o mercado cinematográfico e televisivo. A Raposa morreu; vida longa ao Camundongo.

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erikavilez

Erik (sem C) é escritor, roteirista e dançarino de hula profissional lá fora. Aqui dentro, Erik é redator-chefe e comercial do site, além de criador, host e editor do PontoCast, o podcast carro-chefe da casa.