Resenha: Deuses Americanos (2001) que não sabemos que adoramos

deuses americanos

Título: Deuses Americanos (“American Gods”)

Autor: Neil Gaiman

Ano de lançamento: 2001

Editora: Conrad

Para quem é integrante do mundo nerd, principalmente os fãs de quadrinhos, Neil Gaiman não é um nome nada estranho, visto que ele é o responsável pelas histórias de um dos personagens mais marcantes, enigmáticos e produtivos do mundo das HQs, Sandman. Contudo, sua carreira na literatura começou nos anos 90 e ela é igualmente interessante, pois Gaiman, enquanto romancista, produz obras que são fáceis de ler sobre temas complexos abordados com não mais, nem menos, profundidade do que o necessário. Deuses Americanos, lançado em 2001, traz a história de um ex-presidiário chamado Shadow Moon, que, ao deixar a prisão, descobre que sua esposa morreu e que ela o traía com o melhor amigo. Já de volta para casa e, aparentemente, incólume diante do turbilhão de mudanças em sua vida, ele é cooptado para ser o guarda-costas/garoto de recados de um homem misterioso que se chama Wednesday (Quarta-feira, em inglês), porque esse é o seu dia. No virar das páginas, aprendemos que esse homem com nome de dia de semana é na verdade Odin, o deus nórdico, que a terra é habitada por vários deuses e mais mistérios do sonham nossa vã filosofia e que uma batalha entre esses seres poderosos se aproxima.

Até a chegada dessa guerra, o leitor recebe a perspectiva de Shadow sobre os acontecimentos. Ou seja, alguém gradativamente entendendo como funciona a vida das divindades nesse mundo e como elas se desenvolvem e se transformam ao longo do tempo. Suas origens são sempre explicadas com partes entrecortadas de narrações históricas sobre como essas culturas místicas e mitológicas foram trazidas para o novo mundo, a América. Neil Gaiman, ao mesmo tempo que propõe uma pequena Teogonia (Genealogia dos Deuses) também mostra  a sua decadência num mundo que está substituindo a crença no mítico pela crença no tecnológico/prático. Os deuses antigos, em geral, são mostrados como velhos obsoletos vivendo da melhor forma possível, mas, certamente, longe da glória divina de outrora, pois as pessoas têm adorado outras coisas, como, a Televisão, a Internet, o Dinheiro, e etc. Ao mesmo tempo que se aponta que as crenças do Novo Mundo e o Novo Mundo em si foram construídos a partir do Velho Mundo, África, Oriente e Europa, também é mostrada a transformação cultural, a mudança de crenças e, quem sabe, a mudança de mitologias. E antes que os críticos culturais venham ressentidamente reclamar da falta de menções aos Americanos Nativos (o povo indígena), a personagem Sam Black Crow está lá para representá-los. Parece que nada escapou ao olhar detalhista de Gaiman.

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O fato de toda a história se basear no presságio de uma futura guerra e em tudo o que gira em torno de sua organização dá margem para a discussão das crenças e, talvez aqui o maior mérito do livro, falar de crença de uma maneira generalizada, sem envolver essa ou aquela religião especificamente, mas falando para todas as pessoas que acreditam, ou deixam de acreditar, em algo transcendental. A ideia básica por trás das divindades de Deuses Americanos é que eles vivem na miséria, e chegam a morrer, porque  vivem da adoração e da crença das pessoas. Desse modo, os deuses vivem numa situação muito complicada, pois é cada vez mais fácil ver as pessoas adorando qualquer pedaço de tralha que consiga operar pequenos milagres individuais, porém torna-se mais difícil pôr goela abaixo um mundo criado a partir do poder de um ser que pode fazer absolutamente qualquer coisa, principalmente confrontando o pensamento de quem existem vários desses seres. Num livro que tem vários deuses como personagens, os humanos são mostrados nos seus pormenores, o caráter que assumem ao crerem ou descrerem em algo, e como coisas cotidianas, e, às vezes, triviais, podem assumir um caráter sagrado sendo este caráter totalmente ausente de transcendência.

Concluindo, todos os méritos para Neil Gaiman, que cria uma mitologia inteiramente nova através da junção de diversas mitologias num romance que, apesar de longo, é delicioso de ler tanto pelo conteúdo, quanto pelo desejo que cada sentença desperta no próprio romance e no misterioso mundo que nos rodeia.

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Hippie com raiva.