“Deus Salve o Rei” e a poesia dos novos e velhos espectadores

Dia 9 de janeiro de 2018, estreou na Globo a novela “Deus Salve o Rei”. Como um bom fã de “Game of Thrones” e “Senhor dos Aneis“, me empolguei para assistir, afinal, não é sempre que vemos produções brasileiras ambientadas na Era Medieval. Desde que adentrei o caminho sem volta das séries e do cinema, a programação aberta da televisão brasileira não me tem sido tão atrativa. Talvez a última novela que assisti tenha sido “Avenida Brasil“… Junto a toda a população tupiniquim que possuía televisores na época.

deus salve o rei

Para acompanhar “Deus Salve o Rei”, tenho como companheira de arquibancada a minha avó, uma jovem senhora maranhense que desbravou terras paraenses em meados dos anos 70 e por aqui ficou. Ela é um exemplar de um momento histórico de consumo de entretenimento muito diferente do que temos hoje. No período em que jogos transmitidos via rádio, radionovelas e teledramaturgias em preto e branco eram o ápice do desenvolvimento de produções para a massa, efeitos especiais altamente renderizados e tecnologias de imersão seriam quase alienígenas.

As tecnologias se desenvolveram, o acesso se popularizou e as pessoas internalizaram a magia do cinema, tornando o que antes era o esplendor da experiência em mais um quesito no formulário da crítica.

De volta ao meu experimento novelesco, como esperado, notei que minha vó e eu absorvemos os dramas e comicidades de maneira bem díspar. Um bom exemplo disso foi num dos primeiros momentos tragicômicos da novela: a idosa rainha de Montemor – um dos reinos em destaque – dava ordens ao príncipe Rodolfo, seu neto. Rodolfo sai de cena e a rainha olha a esmo por um momento. Logo uma aia se aproxima da rainha e fala algo sobre Rodolfo. A rainha então pergunta “Quem é Rodolfo?”

Num primeiro momento, recebi aquela cena com o peso que a frase “ela tem o mal de Alzheimer” denota, portanto, não me orgulho de dizer que a inesperada gargalhada de minha avó me contagiou. Refletindo sobre isso, percebo que faz todo o sentido que ela tenha achado aquela cena engraçada porque é o tipo de humor que foi massificado com “Os Trapalhões”, “Zorra Total”, “Sai de Baixo” e outros. Além disso, como uma pessoa não conectada na rede mundial de computadores, ela não precisa se preocupar em justificar para a entidade internética exaltada que aquela risada não a define como uma cidadã “alzheimerfóbica”.

Todo esse laboratório descontrolado iniciado pela experiência da novela demonstra como nós somos frutos do meio e o meio é definido pelo nosso tempo. Se hoje eu não consigo não reparar nas (não tão boas) atuações e nas obviedades de roteiro características do estilo “novela”, minha avó assiste a tudo livre do senso de retidão das formas aclamadas pela “academia”.

Cada capítulo de “Deus Salve o Rei” toma um tom mágico, pois as retinas cansadas dela refletem para mim toda a história de aventuras e desventuras que lhe perpassaram até esse momento. Essa observação me permite entender que o que nos torna livres e imaginativos quando crianças, e é o mesmo fator que nos faz austeros e cautelosos ou generosos e alegres quando envelhecemos. Nos olhos vividos de minha avó há o que em mim, hoje, é um espaço denso preenchido por níveis e níveis de regras: a poesia.

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Leandro Bezerra

Editor, redator e um serumaninho quase legal.