Resenha: Desventuras Em Série – 1ª Temporada

Apaziguados leitores do PontoJão que abriram esta resenha esperando mais um texto feliz e radiante sobre mais uma maravilhosa obra da Netflix e seus produtos de streaming: lamento lhe informar que esta resenha não é um destes textos, e recomendo que você não a leia. Vá ver coisas mais felizes, como nossa resenha do filme “Moana“, ou sobre o genial “A Chegada“; não fique aqui para saber como se saiu a adaptação da Netflix sobre as terríveis desventuras dos irmãos Baudelaire.

Se você ainda está aqui, foi avisado. Eu sou Erik Avilez, e esta é a Netflix e suas “Desventuras em Série”.

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Comecei a ler os livros há uma boa década atrás, quando eu era jovem e alegre, e consegui os últimos livros da série – são 13, e tenho certeza que de propósito – há pouco mais de cinco anos, quando era menos jovem e bem menos alegre. Não tardou para que a infortuna sequência de livros se tornasse a minha favorita – as “Crônicas de Gelo e Fogo” são felizes demais comparadas a história dos Baudelaire, e “Harry Potter” é um menino demasiado sortudo se comparado aos três órfãos. Recentemente, revisitei o primeiro livro, para me preparar para o lançamento da série e contextualizar os leitores deste site inequívoco – palavra que aqui quer dizer “que raramente comete erros em público que não envolvem chicotes de sadomasoquismo e peixes de aquário”. Mesmo após tanto tempo, o livro segue agradando graças ao seu tom cínico, satírico e humor ácido, os quais envolvem uma história misteriosa e divertida.

Falar do livro aqui é importante porque a série da Netflix é, antes de tudo, uma excelente adaptação. Daniel Handler, “autor”[1] dos livros, está como produtor-executivo da série e roteirista em diversos episódios; Neil Patrick Harris, que viveu o Conde Olaf na produção, confirmou em entrevista que nenhuma mudança substancial acontecia sem o consentimento do “autor”. Assim sendo, todas as nuances de desesperança, melancolia e humor cruel foram passados com atenção e carinho (?) para a tela – até mesmo a música de abertura, “Look Away” (“Desvie o Olhar”, em tradução livre), foi escrita por Handler.

O roteiro da série traz vários elementos recorrentes do livro, o principal deles sendo o narrador Lemony Snicket – real autor dos livros[2] -, que além de contextualizar as horríveis ocorrências dos Baudelaire, também participa de maneira ativa na história. Suas observações, além de esclarecedoras, também nos ajudam a ter pequenos vislumbres do mistério que circunda o incêndio na mansão Baudelaire (embora traga mais perguntas do que respostas).

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Nosso sorumbático narrador, Lemony Snicket.

A maneira como a versão literária foi respeitada aparece no próprio formato da série: a primeira temporada adapta os quatro primeiros livros, cada um recebendo dois episódios. Além disso, diversos elementos importantes dos livros ganharam tradução direta para as telas: os adultos explicam coisas óbvias para as crianças, como se elas fossem burras, repetindo o efeito de nos colocar na pele dos Baudelaire, nos ofendendo em nossa inteligência da mesma forma que à deles; alguns diálogos são explicados pelo narrador para em seguida ser repetido por um personagem em um contexto que corrobora ou contradiz completamente o que foi explicado anteriormente; é impossível determinar em que época se passa a história, usando desde telefones de meados do século passado até fazerem referências a Uber e streaming; e alguns elementos de macabro da série, que também existem nos livros, são dignos de “A Família Addams”.

E isso não é à toa. Enquanto as falas e atuações são entregues dentro deste espírito com um cinismo digno de “Rocky Horror Picture Show”, a ambientação da série parece ser convidativa à Gomez, Morticia e companhia. Isso se dá porque também temos como produtor-executivo da série Barry Sonnenfeld, conhecido por seu tom ácido e humor peculiar dirigindo filmes como “A Família Addams” e sua sequência, bem como “O Nome do Jogo” (“Get Shorty”, no original) e a trilogia “Homens de Preto”.

Enquanto estes dois produtores trazem elementos do livro à vida, o ator e produtor Neil Patrick Harris (o Barney, de “How I Met Your Mother”) traz mais que o Conde Olaf para a série. Os poucos números musicais e a teatralidade no timing dos personagens são claramente influências do ator/cantor/mágico/“paixonite adolescente”. Enquanto personagem, NPH (para os íntimos) está ótimo como Olaf, e seu jeito exagerado casa perfeitamente com o vilão, que além de maligno é um péssimo ator.

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Ainda nas atuações, todos os protagonistas e coadjuvantes demonstram ter abraçado o tom que a série propõe, demonstrando ótimo alinhamento entre diretores e produtores. Os irmãos Baudelaire se mostram tão miseráveis como de fato deveriam estar, enquanto a trupe do Conde Olaf parece algo saído diretamente da série “Carnivale”. Os demais coadjuvantes são pontuais, mas funcionam de maneira apropriada, embora não tenham tempo de série o suficiente para de fato nos apegarmos a eles.

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O que nos leva, tristes leitores, ao fato de que, assim como a vida dos Baudelaire e o triste fim de nossa amada Beatrice, “Desventuras em Série” é um programa que de forma alguma é perfeito. Ao dividir a série em oito episódios, com dois para cada livro, a Netflix criou quatro filmes, os quais funcionam bem de forma independente, mas caso assistidos em sequência perdem ritmo e podem se tornar maçantes para os espectadores menos apaixonados ou que não estão buscando uma resposta de como escapar de sua casa que misteriosamente pegou fogo de forma súbita.

Esta questão do ritmo é ainda mais séria porque o formato dos livros é consideravelmente repetitivo, principalmente nos três primeiros volumes da série. Com a cadência prejudicada pela condução da história, o fim se torna previsível quando você já viu o episódio-filme anterior, e a trama principal – em torno do incêndio que deixou os Baudelaire órfãos e o que parece ser uma sociedade secreta – caminha muito lentamente. Em termos práticos, os dois primeiros episódios são excelentes, bem como os dois últimos, mas os quatro do meio não são tão fáceis de ver em maratona.

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Seja como for, deprimidos leitores, a série funcionou deveras para mim – expressão que aqui significa “gostei muito e vi o show inteiro em dois dias” – apesar destes pesares porque sou um seguidor da alquebrada saga dos irmãos Baudelaire em suas desgraçadas infâncias há bastante tempo; difícil afirmar que a série agradará da mesma forma pobres incautos que sem querer clicaram em seu nome na Netflix. Com um forte elenco, roteiro muito afiado, mas com uma cadência incerta, “Desventuras em Série” ganha a atenção pelo seu charme lúgubre, porém luta para fazer com que a história tão perfeitamente literária funcione nas telas. Sabendo disso, caso não tenha medo de se sentir profundamente abatido e desesperançoso com a vida depois de ver tão combalida história, bata na porta do Conde Olaf e seja adotado pelo mais novo sucesso da Netflix[3].

[1]VDF: Todos sabemos que o verdadeiro autor é o Sr. Snicket, mas creio ser melhor preservar como possível sua real identidade secreta verdadeira.

[2] VDF: Certo, talvez tenhamos falhado neste propósito.

[3] VDF: Fontes seguras no Aquário Águas Acabrunhadas afirmam que a série está confirmada para durar três anos. A segunda temporada terá 10 episódios e cobrirá cinco livros, enquanto a última terá mais oito episódios para cobrir os dois livros restantes.

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erikavilez

Erik (sem C) é escritor, roteirista e dançarino de hula profissional lá fora. Aqui dentro, Erik é redator-chefe e comercial do site, além de criador, host e editor do PontoCast, o podcast carro-chefe da casa.