Deixe-me Entrar (2010)

“Do you think there’s such a thing

as evil?”

Título: Deixe-me Entrar (“Let me in”)

Diretor: Matt Reeves

Ano: 2010

Pipocas: 6,8/10

Dois anos depois do primeiro filme da saga crepúsculo ser lançado, entrava em cartaz nos cinemas Deixe-me Entrar (Let me in), com as estrelas mirins Chloë Grace Moretz (Abby) e Kodi Smit-McPhee (Owen), dando sequência a uma tendência que surgia nos filmes dessa época recente: histórias de vampiros. Entretanto, mesmo o filme contendo o mito vampiresco assim como tantos outros da época, ele traz algumas particularidades que fazem dele um filme especial. Longe de ser um clássico instantâneo, ou mesmo um filme incrivelmente original, mas acredito que “especial” seja uma palavra boa.

O enredo é simples, numa vizinhança pacata, onde nada acontece, há um menino como tantos outros, seu nome é Owen, um garoto comum com problemas de garotos comuns, mora com a mãe (pois os pais estão se divorciando) e sofre bullying na escola. Até que um dia, ele percebe que tem vizinhos novos, um homem de meia idade (supostamente o pai) e uma garota que aparentemente não sente frio, pois anda descalça na neve. A partir do momento em que esses novos moradores entram na vizinhança, começam a acontecer crimes estranhos. As pessoas eram assassinadas e seu sangue totalmente drenado. O roteiro é conduzido de forma que o mistério seja mantido apenas por tempo suficiente, mas não demora muito para o espectador “somar dois mais dois” e descobrir que os novos residentes do bairro têm alguma coisa a ver com esses acontecimentos tenebrosos. Entre um crime e outro, Abby, a nova vizinha de Owen, começa a se encontrar com ele à noite, pois ambos são adeptos de passeios noturnos, e um romance juvenil vai se desenhando. Não demora muito tempo e Owen descobre o segredo de Abby. Ela é na verdade um vampiro e seu suposto pai é quem mata a pessoas para levar o sangue para sua protegida. É em cima desse enredo que a trama de Deixe-me Entrar se desenvolve.

Como já disse anteriormente, apesar de o filme ser bem atuado e ter uma temática interessante, ele não é incrivelmente original, pois trata-se de um remake do Sueco Låt den rätte komma in” (em inglês Let the Right one in e em português Deixa Ela Entrar), o filme sueco, por sua vez, é baseado no romance homônimo escrito por John Ajvide Lindqvist. Como já é praxe, é claro que existem algumas diferenças entre as versões americana e sueca. Eu, particularmente, não me arriscaria a dizer que esse ou aquele é melhor, até porque nos sites famosos que fazem esse tipo de avaliação (o Rotten Tomatoes e o IMDb) eles não variam tanto, ainda que a versão americana esteja sempre um pouco atrás.

As principais diferenças entre as adaptações, além dos nomes das personagens (Oskar e Eli, no sueco) são que algumas sub-tramas foram simplificadas na versão americana, com personagens adicionados para isso (o caso do policial). Essa versão ainda conta com alguns efeitos especiais simples e extremamente efetivos na criação de climas mais intensos nas cenas em que Abby mostra a que veio. Junto a isso, o bullying que o protagonista sofre é outra questão um pouco diferente,  na versão americana ele é retratado de forma um pouco mais brutal. Além do mais, o filme americano contou com um pouco mais de recursos em relação ao elenco e à produção. Isso faz com que a toda a sub-trama por traz da morte do suposto pai de Abby faça mais sentido.

Dois pontos comuns aos dois filmes são a visão dos adultos e a abordagem do personagem fantástico. Tanto no filme sueco quanto no americano, a história é contada através dos olhos de Owen/Oskar e os adultos, embora façam parte da trama, são completamente neutros nos rumos da história. Inclusive, na versão de Matt Reeves, temos aí a mãe de Owen, que não tem seu rosto mostrado nem uma vez ao longo de toda a película e o pai completamente negligenciado (com apenas um diálogo ao telefone). Por fim, e aqui está o grande atrativo do filme, a questão do vampiro aqui é tratada de forma muito diferente do que vemos recentemente. Ao contrário dos vampiros “bonzinhos”, heroicos, até com certo glamour (e – por que não? purpurina), nos dois roteiros, o vampiro é visto como um ser amaldiçoado, que está irremediável e eternamente fadado a ser excluído do convívio normal com as outras pessoas. Essa questão é tratada até com certa dose de melancolia através do romance dos protagonistas (bem mais adocicado na versão americana).

Uma curiosidade (bizarra) é que, em diversos momentos da história, a protagonista (veja muito bem) supostamente feminina, pergunta ao protagonista masculino se eles ficariam juntos ainda que ela não fosse uma menina, e esse questionamento acontece com certa insistência. Pois bem, na verdade, segundo o livro, Eli é um menino que foi emasculado há séculos durante um ritual. Esse “detalhe” foi totalmente ignorado pelo filme americano, já que a suposta heteronormatividade do casalzinho faria mais bem às bilheterias. Já o sueco deixa isso aparecer, de formas, sutis e até mesmo duvidosas, através da aparência andrógina, à época, da atriz Lina Leandersson; ela também teve sua voz dublada, para que a voz de Eli não soasse tão feminina (uma pincelada que a olhares brasileiros pode passar batida) e a tomada em que Eli toma banho na casa de Oskar, que tem um frame muito rápido (muito rápido mesmo, é preciso muita atenção, para os mais ousados, um pause, para entender) que mostra a genitália de Eli (algo que só poderia acontecer no cinema europeu, visto que os atores envolvidos na cena tinha por volta de 12 anos de idade).

Lina Leandersson (na época do filme e em foto mais recente)

A tomada final do filme, a cena da piscina, é um show de produção do filme sueco, infelizmente copiado à risca pelo americano. Talvez o que possa decepcionar no fim do filme seja o fato de o final ser extremamente inverossímil. Apesar de se tratar de um filme de vampiros, existe uma preocupação grande com a verossimilhança, com o fato de haver um personagem fantástico vivendo num mundo real, e isso é quebrado pelo final, aparentemente, estilo “felizes para sempre” em que Oskar/Owen transporta Eli/Abby dentro de um baú num trem. Entretanto, se pararmos para pensar que talvez “felizes para sempre”  significa Oskar/Owen transformar-se no novo guardião de Eli/Abby e, por tanto, seu novo provedor de sangue, podemos buscar um pouco mais de originalidade no final, mas isso é muito pouco explícito e exige bastante esforço.

De qualquer forma, independente da versão, é um filme que recompensa o tempo de assisti-lo.

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