“Pretty Things”: os jovens que David Bowie enviou para o inferno

É a segunda faixa do disco. Você acabou de ouvir uma canção sobre mudanças que vêm à galope para a sociedade, e ninguém pode contê-las, e a próxima música lhe explica qual a consequência imediata que isso acarreta: a falta de identificação entre as gerações faz com que os filhos – muitos de maquiagem – e filhas – usando menos roupa do que seus genitores gostariam – deixem seus pais e mães loucos. O ano é 1971, o álbum é “Hunky Dory”, e David Bowie atesta o fato de que essa geração veio para destruir o mundo – ou ao menos aquele que conhecíamos – em sua canção “Oh! You Pretty Things”.

A letra traz uma manhã comum, com lareira e café, que é interrompida pela chegada de seres senão superiores, pelo menos claramente alienígenas: uma geração de proto-punks que se descobriam em glitter, canções que variavam entre niilismo e hedonismo (e às vezes ambos, por que não?) e em uma liberdade sexual que era mais iconoclasta do que libertadora em si. Em outras palavras, não confundem “liberdade” com “libertinagem”: eles sabem exatamente a diferença entre ambos, e escolheram a última opção.

Essa horda de homens de vestido e batom e jovens mulheres rebeladas batia à porta de adultos conservadores, filhos do pós-Segunda Guerra e herdeiros da prosperidade que principalmente os Estados Unidos usufruíam, como vencedores incontestes – e intocados – de uma guerra que devastou a Europa. Prole de uma pátria vencedora, os adultos do fins da década de 60 e início da década de 70 não entendem a revolta que essa juventude transviada parece incorporar, com seu comportamento contra a Guerra do Vietnã e obviamente preparado para chocar, enquanto seus indivíduos passeiam dia e noite (mas principalmente noite) pelas capitais e ruelas dos grandes centros urbanos de cunho liberal, como Nova Iorque e Detroit.

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The Bon Bons.

O impulso autodestrutivo desse povo que Bowie chamaria carinhosa e condescendentemente de “pretty things” (algo equivalente a “coisas bonitinhas”, em tradução livre) era uma força da natureza sem paralelos recentes. Iggy Pop, com os Stooges, e o Velvet Underground, capitaneado pelo icônico Lou Reed, destruíam conceitos com a mesma forma que se drogavam, embebedavam e torturavam suas guitarras em performances que muitas vezes eram mais viscerais do que musicais. O New York DollsRoxy Music e o Alice Cooper, por exemplo, também compunham um cenário artístico complexo, o qual transcendia a música e trazia atos de vaudeville e arte plástica como elementos integrantes da (contra)cultura que se erguia; nomes como Andy Warhol e Nico mostram que, na época, o pincel e a palheta andavam lado a lado.

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David Bowie, inclusive, também era pintor, embora nessa época estivesse mais interessado em ser a ponta da lança de uma revolução incômoda. Em seu álbum “Hunky Dory”, de 1971, Bowie amadurecia o que já demonstrara no ano anterior, na capa de “The Man Who Sold the World”: a capacidade de não necessariamente ser inventivo, em si, mas de catalisar e personificar tendências que o mundo ainda estava para conhecer. Como pessoa e figura artística, Bowie não criava os movimentos, mas era através dele que o cenário global descobria que esses movimentos existiam.

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Embora ele mesmo tivesse em si as características de sua geração – Bowie declarou ter vivido por anos à base de cocaína, leite e pimenta malagueta -, havia em suas palavras um ar diferenciado de alguém que, por mais que esteja surfando uma onda, entende que o mar é muito maior do que aquilo. Mesmo envolvido e imerso naquela realidade implosiva do início dos anos 70, mesmo tão cedo quanto 1971, Bowie diz que “vocês não sabem que vocês estão enlouquecendo sua mãe e seu pai?” com ares de profeta. É fato que ele diz que o homo superior – o modesto nome que ele dá para seus iguais – está “ali para ficar”, substituindo o homo sapiens que “já perdeu sua utilidade”. Ainda assim, ao chamar todos esses tresloucados, entorpecidos de narcóticos, de “coisas bonitinhas”, com “mamães e papais”, David Bowie demonstra entender que, superior ou não, aquela nova subespécie é imatura demais para tomar o mundo pelos chifres.

E assim, da mesma forma que Bowie chamou a existência de suas Pretty Things, ele também olhou para trás e, além de constatar o triste fim de toda uma geração, que brilhou como uma supernova de maneira intensa e fugidia, Bowie prediz não só a sua morte, mas sua condenação eterna.

Foram vinte e sete anos entre a ascensão e fogo da Pretty Things, e em 1999, Bowie lançou “The Pretty Things Are Going to Hell”, single para os mercados da Austrália e do Japão do álbum “hours…”. Enquanto o nome da música é uma referência a “Your Pretty Face Is Going to Hell”, do Stooges em seu álbum “Raw Power” (1973), a adoção do termo “pretty things” é uma clara referência à geração que ele chamou à existência quase três décadas atrás. Em seu refrão, ele faz um post-mortem analisando como as Pretty Things “ainda respiram, mas não sabem o porquê”, mostrando que o inferno não pertence às Pretty Things que morreram, mas àqueles que ainda vivem, presos em uma realidade que mostra que suas revoluções, ao contrário do que eles esperavam, não causaram as mudanças permanentes e irreversíveis no mundo – e que, de certa forma, se tornaram seus próprios “mamães e papais”, na medíocre realidade de ser obsoleto frente à uma geração tecnológica que se erguia ao fim do milênio.

É claro que em meio ao consumo enlouquecido de drogas e outros prazeres igualmente inebriantes, é difícil afirmar com certeza que David Bowie predisse uma geração evoluída, mesmo que incipiente, em “Oh! You Pretty Things”; é inegável que a música bebe de fontes diversas do misticismo vigente na época – como o ocultismo de Aleister Crowley e teorias cósmicas que ganhavam força à base de pseudociência e LSD. De qualquer forma, ao contrastarmos a carreira de Bowie em seus antes-e-depois, notamos que nos é apresentada uma lógica de que fins são inevitáveis – mas que, no caso das Pretty Things, precisamos fazer o maior estrago possível no status quo no nosso caminho até a porta de saída. Do glitter caótico das raízes do glam rock em “Hunky Dory” à retrospectiva sádica em “hours…”, David Bowie mostrou o que as Pretty Things sempre souberam: o destino de uma autodestruição nas proporções que elas executaram só poderia levar ao inferno, principalmente àquele terrível que queima ainda em vida.

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erikavilez

Erik (sem C) é escritor, roteirista e dançarino de hula profissional lá fora. Aqui dentro, Erik é redator-chefe e comercial do site, além de criador, host e editor do PontoCast, o podcast carro-chefe da casa.