Análise | David Bowie na cultura pop – reverberando além da música

É muito comum – e ligeiramente desgastante – nos referirmos a David Bowie como o “Camaleão do Rock”. Nascido em 8 de janeiro de 1947, Bowie de fato passou por muitas fases nos palcos: do folk do início de carreira discreto até o sucesso de “Space Oddity” (1969) até o som pós-moderno que o astro apresentou em “” (2016), passando por personagens – e álbuns – como Ziggy Stardust e Thin White Duke, encontrando espaço em nichos como o R&B em “Young Americans” (1975), encontrando estrelado pop na época da MTV dos anos 80 com “Scary Monsters” (1980) e “Let’s Dance” (1983), além de ser prolífico em jazz experimental durante os anos 90 e 2000. É uma carreira assustadoramente abrangente e louvável, mas o impacto de David Bowie na cultura pop vai muito além disso. No aniversário de 71 anos desse símbolo, vale ressaltar que sentimos Bowie reverberando até hoje, mesmo fora das ondas sonoras.

david bowie na cultura pop

 

Mas antes…

…de falar sobre David Bowie na cultura pop, é importante dar uma pincelada na importância que David Bowie tem na música – e digo “pincelada” porque se aprofundar neste tema é basicamente chover no molhado. Bowie influenciou figuras diversas, impactando desde músicos da sua geração – como Iggy Pop, do “The Stooges”, o qual teve disco produzido por Bowie nos seus anos de Berlim – até Lorde, a qual fez uma homenagem linda ao astro à época de sua morte, e Lady Gaga, que tem uma tatuagem de Bowie nas costelas e fez uma homenagem bem… Estereotipicamente estadunidense.

Além do largo alcance temporal, influenciando artistas de quase cinco décadas, o Blackstar também conseguiu afetar diferentes gêneros musicais. Marilyn Manson fez cover de “Golden Years”, os White Stripes fizeram sua versão de “Moonage Daydream” enquanto o Smashing Pumpkins (?) escolheu “Space Oddity” para apresentar. Se Bowie pegou emprestado o estilo do soul e do jazz, Janelle Monae retribuiu o favor ao fazer uma versão dance soul de “‘Heroes'”. De todos esses covers, talvez o mais relevante seja o que o Nirvana fez de “The Man Who Sold the World”: uma versão mais taciturna e ligeiramente perturbadora para seu “MTV Unplugged”.

Em nossas terras tupiniquins, o grupo Nenhum de Nós alcançou muito sucesso com “Astronauta de Mármore”, versão BR de “Starman”, enquanto Seu Jorge fez adaptações de diversas músicas de David Bowie para o filme “A Vida Aquática de Steve Zissou” – versões, inclusive, que ganharam elogios do próprio Bowie, o que não é para qualquer um.

A intersecção desta introdução com o impacto de David Bowie na cultura pop fora da música se dá com suas participações e colaborações em trilhas sonoras. Embora a versão de “Changes” que foi usada em “Shrek 2” seja marcante, Bowie também compôs “Cat People (Putting Out Fire)” para o filme “A Marca da Pantera”, além de ter composto a trilha de “Eu, Christiane F., 13 Anos, Drogada e Prostituída” (belíssimo título, inclusive). Para este filme, Bowie compôs uma versão em alemão de “‘Heroes'”, discutivelmente seu maior clássico.

Para os amantes de musicais, Bowie é reconhecido principalmente por sua contribuição ao clássico “Moulin Rouge!”, para o qual David cedeu músicas para releituras – “Diamond Dogs” e “‘Heroes'” – e ainda cantou “Nature Boy”, de Nat King Cole – na abertura do filme, marcando uma geração de cinéfilos no século XXI.

 

David Bowie na cultura pop: cinema

A carreira cinematográfica de Bowie é extensa e renderia (ou renderá?) um texto à parte. Foram muitos os seus papeis ao longo do tempo, principalmente na ficção científica e na fantasia – o que, obviamente, dialoga muito bem com o que sua carreira apresentou ao longo dos anos. Se Bowie passou anos cantando sobre ser um alienígena liderando uma banda de rock durante os anos 70, nada mais apropriado do que ele de fato sê-lo, por exemplo, em “O Homem Que Caiu à Terra”, de 1976, seu primeiro papel no cinema.

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Passando por vários papeis discretos ou muito alternativos para chegar ao grande público, 1986 seria um ano que mudaria isso para ele. Se por um lado ele achou um fracasso de bilheteria em “Absolute Beginners”, o astro alcançou a cultura pop em “Labirinto”, filme de Jim Henson com uma jovem Jennifer Connelly e muitos fantoches de Henson, criador dos Muppets.

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Outros papeis menores seguiram, consolidando a imagem de David Bowie na cultura pop, com ele chegando a transcender às paródias de si mesmo – o que ele fez em “Zoolander”, de 2001, e na série “Extras”, já em 2006. O último papel ficcional de destaque de Bowie foi o do inventor Nikola Tesla em “O Grande Truque”, também em 2006, após o qual alguns trabalhos de dublagem se seguiram. Com os pontos altos em seu Rei Goblin e Tesla, Bowie alcançou públicos diferentes ao longo dos seus 40 anos de carreira no cinema, mas respeitou a temática principal que permeou sua vida musical: o insólito.

 

David Bowie na cultura pop: estilo

É difícil falar sobre o impacto objetivo que Bowie teve na moda mundial; é como falar sobre como a alta costura influencia as lojas de shopping. Os valores temáticos e simbólicos acabam por suplantar o impacto direto; o efeito que Bowie tinha na moda não é o mesmo efeito de cópia instantânea que o corte de cabelo The Rachel, da Jennifer Aniston em “Friends”, teve nos anos 90, por exemplo.

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Por outro lado, é difícil falar de estilo, principalmente nos anos 70 e 80, sem citar a influência de David Bowie na cultura pop como um todo, e principalmente nas vestimentas. Ele nunca se posicionou como um criador, mas era um vanguardista nato, principalmente em localizar e reunir influências para construir uma identidade visual única. Em “Mate-Me Por Favor”, livro de Legs McNeil e Gilliam MacCain sobre as raízes e evolução do punk, é registrado como Bowie foi um dos precursores do movimentado denominado glam rock. Feito para chocar, o glam misturava purpurina e paetês com roupas, cabelos e maquiagem variadas para desafiar os paradigmas de sexualidade, ainda fortes principalmente na Inglaterra, onde atos homossexuais eram crime até 1967.

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Como um vanguardista exemplar, Bowie nunca surfava uma onda até ela morrer na praia; assim como foi um dos construtores do glam, David também foi um dos primeiros a abandoná-lo, aposentando seu personagem Ziggy Stardust no palco em 1973 – mesmo ano que o New York Dolls, outra influente e seminal banda glam, lançava seu primeiro disco. David Bowie era sempre um dos primeiros a liderar as grandes tendências, e um dos primeiros a deixá-las ao sentir algo novo no ar.

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Embora tenham sido prolíficos os ensaios fotográficos dos anos 70 de Bowie em roupas espalhafatosas, tornando este visual um resumo não-oficial da persona pública dele, ele não parou por aí. Após viver anos à base de pimenta malagueta, leite e cocaína e se mudar para Berlim para tentar uma reinvenção longe das drogas, Bowie encontrou, incorporou e popularizou a estrutura do industrial rock quase 20 anos antes do gênero se tornar popular, nos idos de 1990, com bandas como Nine Inch Nails – a qual, por sua vez, fez um cover em 2009 de “I’m Afraid of Americans”, do álbum “Earthling”, lançado por Bowie em 1997.

Se os anos 80 acharam Bowie em uma relação de amor e ódio com a moda vigente enquanto as músicas dele tocavam na MTV, os 90 encontraram o artista mais quieto, em termos de estilo. O cantor de “Fashion”, agora casado com a modelo Iman, com a qual teria uma filha e seguiria casado até seu falecimento em 2016, refletia sobre sexo, religião e a vida do homem contemporâneo em tons mais sóbrios.

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Bowie, curiosamente, voltaria a chocar em 2015 com o lançamento de seus singles referentes ao álbum “★” com um novo personagem. Sem nome e envolto em bandagens, esta representação – que eu vou chamar de Profeta, só para fins deste texto – versava sobre a morte, a esperança de transcendentalidade e a ascensão do homem à ícone – ou “deus”, em linguagem figurada – em tons de preto, com olhos de botão e tecidos no rosto. O visual era perturbador por si só, considerando o tom fúnebre do álbum, e fez críticos e comentaristas questionarem que diálogo era esse que Bowie travava com a morte.

Não seria exagero dizer que a alegoria se tornou mitologia quando David Bowie morreu dois dias depois.

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Morte à parte, o impacto do ★ de fato se ergueu além da vida. De Ziggy Stardust ao Profeta, das roupas à maquiagem, Bowie deixou um legado de sublevação e desafio de limites que não pode ser ignorado por qualquer um se interesse por qualquer vertente cultural.

 

Sobre este além

O trabalho do ícone é ser apontado, então Bowie não seria chamado assim se não fosse referência. Valeria dizer, ainda, o impacto que o artista teve na cultura em si, longe do pop, repercutindo na percepção da sociedade sobre sexualidade, relações raciais e mesmo sobre a percepção do que é arte através do cantor que era ator que era pintor que era todos ao mesmo tempo. Talvez ainda valha dizer, em outros aniversários.

O que fica é o fato de celebrarmos um aniversário em vez de fazermos um memorial à morte – esta que será lembrada em dois dias – exatamente porque Bowie era, sob uma perspectiva criativa, um parteiro: não era dele as ideias, mas era através de suas mãos que elas se tornavam conhecidas no mundo. Essa atividade, de dar vida – seja a personagens, estilos ou mesmo subgêneros musicais inteiros – é, em si, um ato de desafio a morte. Se duvidam se Elvis morreu, é cabível ter certeza de que Bowie vive, seja através de suas obras ou daquelas que dele beberam.

E se David Bowie era a “estrela negra”, como seu último álbum disse, então nada mais apropriado do que pensar na sua existência como uma supernova; incontáveis anos no futuro ainda veremos os reflexos dos impactos de David Bowie na cultura pop. Se isso não é viver, eu não sei o que é.

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erikavilez

Erik (sem C) é escritor, roteirista e dançarino de hula profissional lá fora. Aqui dentro, Erik é redator-chefe e comercial do site, além de criador, host e editor do PontoCast, o podcast carro-chefe da casa.