David Bowie: “★” (2016)

Quem acompanha o site há algum tempo conhece o amor inveterado que eu e a Belle Chris nutrimos pela vida e obra de David Bowie. O Camaleão do Rock assim foi chamado devido a sua capacidade de se transformar de um trabalho para outro, indo do glam rock em “The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars” ao blue-eyed soul em “Young Americans” com uma facilidade e êxito impressionantes. Ao longo de sua quase meia década de carreira, e completando 69 anos de idade hoje, Bowie se reinventa mais uma vez em seu vigésimo-quinto álbum, denominado ★ – ou “Blackstar”.

 

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Em um trabalho do calibre de David Bowie, em parceria com seu amigo e produtor de longa data, Tony Visconti, a qualidade de produção é algo dado, e aqui achado com facilidade. A experiência sonora é ímpar, visto que as músicas tem uma ambientação própria que torna difícil mesmo a definição do gênero musical a qual pertence. Há elementos de jazz fusion sobrepondo-se a uma bateria de rock, enquanto o vocal de Bowie e seu backing vocal assumem ares etéreos com camadas eletrônicas – como na segunda faixa do álbum “‘Tis a Pity She Was a Whore” (originalmente lançada com B-side do single “Sue [Or in a Season of Crime”]).

A própria faixa-título, que abre o álbum, nos faz passar pela viagem que Bowie fez ao compor e trabalhar neste disco. A música começa fantasmagórica, distante, cresce, se estabelece em um estilo mais tradicional, inclinado para o rock… Somente para no momento seguinte lançar-se novamente em sons espectrais e combinações inusitadas.

 

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É “Blackstar”, inclusive, que dá a tônica dos conceitos por trás do álbum. O longo (e perturbador) clipe-curta lançado para a música evidencia os elementos religiosos e de mitos urbanos, já comuns a Bowie, mas de uma forma inusitada. A presença de um astronauta adorado por uma seita nos remete, ao mesmo tempo, ao “Major Tom”, apresentado em 1969 em “Space Oddity”, com sua posterior queda em “Ashes to Ashes” (“Scary Monsters and Super Creeps”, 1980).

O fato do cadáver do Major Tom ser adorado também nos traz à memória o conceito de “Eram os Deuses Astronautas?” (1968), de Erich von Däniken, no qual o autor suíço teoriza a possibilidade de os deuses das culturas antigas serem raças alienígenas, governando e guiando a evolução humana. Sob este prisma de interpretação, em uma virada meio “2001 – Uma Odisseia no Espaço” (1968), a raça humana haveria ou sido extinta ou evoluído além de si mesma, servindo assim de inspiração ou raça mestra para uma nova espécie – as pessoas de rabo no clipe.

A segunda opção parece ser uma abordagem mais condizente com o resto das canções do álbum. Além da própria “Blackstar”, que tem o componente de morte e ressurreição em sua letra, “Lazarus”, como era de se imaginar, também referencia o Caminho do Messias, repetido em diversas abordagens religiosas.

A verdadeira arte do álbum vai além dos conceitos e demonstra a consistência do trabalho de Bowie: mesmo as canções que não são diretamente ligadas à temática principal acima continuam coesas em relação ao resto do álbum graças à uniformidade sonora. Embora cada canção seja distinta entre si, os elementos que mencionei no início trazem uma coerência magistral.

Temos exemplos disso em faixas como (a também soturna) “Girl Loves Me”, na qual Bowie se permite o uso de um palavrão repetidas vezes no refrão, algo inusual em suas composições, e que aqui não soa vulgar, mas evidencia a ansiedade e a inquietude do personagem ilustrado em sua distopia erótica – a própria letra contém jargões do Polari, um dialeto próprio da cultura underground de meados do século XX em Londres. Quando esta faixa se encerra, a quietude de “Dollar Days” gera um grande contraste, embora ainda mantenha a visão niilista da realidade. O álbum encontra o seu fim em “I Can’t Give Everything Away”, a qual ironicamente parece ter seus metais se esforçando quase sem fôlego, demonstrando a exaustão encontrada na letra da faixa.

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Arte conceitual do álbum.

Quando “Sue (Or in a Season of Crime)” e a já citada “‘Tis a Pity…” foram lançadas, no fim de 2014, ainda seguindo o sucesso do álbum “The Next Day” (2013), vimos que Bowie havia decidido se afastar do rock tradicional mais uma vez, mas o histórico do artista não nos deixava temerosos. Pelo contrário: aprendemos a esperar a absoluta qualidade e o desconforto naturalmente gerado por novas ideias.

Não consigo deixar de pensar, entretanto, que mais uma vez Bowie parece se ver como seu personagem; talvez o arco de Major Tom, da sua ascensão em “Space Oddity”, sua queda entre histórias e entorpecentes em “Scary Monsters”, e sua ressurreição em “Blackstar” seja o arco do próprio Bowie, ou ao menos a maneira como ele o vê; talvez ★ seja David Bowie encarando sua própria mortalidade.

Na canção-título, ele diz que “algo aconteceu no dia que ele morreu / seu espírito subiu um metro e se distanciou / outro assumiu seu lugar e conclamou: ‘eu sou uma estrela negra'”. Dentro dos labirintos de interpretação da letra, podemos considerar que Bowie se vê como um profeta do anti-status quo, sempre apontando a próxima barreira a ser quebrada, ou como a própria Estrela Negra, que morrerá e será substituída por outro arauto do amanhã, embora sua luz permaneça após sua extinção.

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A única coisa de fato conclusiva é que qualquer conclusão é precipitada, e ouvir este álbum uma vez só é um erro por ser insuficiente. As reflexões, seja no contexto do próprio artista ou da nossa sociedade cheia de messias midiáticos transitórios, fazem com que este disco seja mais do que um compilado de músicas, mas uma mensagem de contestação e inquietude.

Este é David Bowie, mais uma vez.

Este é ★.

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erikavilez

Erik (sem C) é escritor, roteirista e dançarino de hula profissional lá fora. Aqui dentro, Erik é redator-chefe e comercial do site, além de criador, host e editor do PontoCast, o podcast carro-chefe da casa.