Crazyhead (2016): espancando demônios e referências do terror-comédia

“Sabe quando as pessoas piram, ficam malucas, matam a família e o animal de estimação? É porque estão possuídas.” – Crazyhead

Há pouco mais de quatorze anos, em 2003, foi o ano em que o público da elogiada série “Buffy: A Caça-vampiros” se despediu da sua heroína. Criada por Josh Whedon, e estrelada por Sarah Michelle Gellar no papel da protagonista Buffy, a trama contava a sua trajetória envolvendo o seu papel como a Escolhida para lutar contra vampiros e demônios. Nessa luta, ela contava com a ajuda dos seus melhores amigos: Willow (Alyson Hannigan) e Xander (Nicholas Brendon); sem esquecer do guardião Giles (Anthony Head), enquanto tentava manter a área escolar nos trilhos.

Personagens da série “Buffy” em sua primeira temporada.

Da maneira mais tradicional possível, “Crazyhead” – do canal E4 e parceira de exibição com a Netflix – nos remete ao universo Buffy ao apresentar seu protagonismo feminino: de um lado, temos Amy (Cara Theobold), que acaba de ser liberada das consultas para tratar seu problema com alucinações, embora ainda lide com este problema; do outro lado, temos Raquel (Susan Wokoma) caçando e matando demônios. Logo, não demora muito para sabermos que ambas compartilham de algo em comum: a habilidade de enxergar o verdadeiro “eu” de uma pessoa – ou seja, a sua forma demoníaca.

A primeira impressão que a série deve passar, com certeza, é a ideia de “que já vi esta história antes”. Essa sensação não passa ao longo dos seis episódios que compõem a sua primeira temporada, mas fica evidente que seu objetivo não se preocupa com o elemento surpresa para alavancar o seu enredo sem grandes mistérios. É seguindo na simplicidade e sendo tão bem conduzida, que “Crazyhead” consegue agradar na sua curta trajetória e fechar com maestria o que pretendia.

Para desvencilhar da familiaridade, a série adota uma atmosfera leve e descontraída a fim de mesclar terror e comédia. Conhecendo um pouco do trabalho de Howard Overman na série “Misfits”, já dá para imaginar como o humor funciona aqui, mas não é sempre que as constantes piadas envolvendo sexo e genitálias acertam para tornar o ritmo de sua trama envolvente. Aliás, esse é o fator que deixa desejar: apesar de tamanha firmeza com o que vai trabalhando, não é o suficiente para conseguir empolgar e gerar interesse necessário para o que é apresentado, compensando com diálogos interessantes.

Mas as inspirações para a trama não se limitam em apenas duas. O show é verdadeiramente repleto de referências – como supracitado, a série sabe aonde quer chegar e não se importa se passa a sensação de familiaridade. No entanto, se entrega para incrementar com apostas diferentes em cada episódio, acertando em cheio ao referenciar um pouco do plot visto em “iZombie” ou a recente série da Netflix, “Santa Clarita Diet“. Dentre as fontes de criatividade se destaca também o longa-metragem dos anos 80, “Uma Noite Alucinante” – ou, como é melhor conhecido, “A Morte do Demônio”.

O seu elenco – muito bem escolhido – e personagens são outros acertos que pontuam “Crazyhead”. O carisma e a química em como cada um funciona do seu jeito, é realmente notório. Boa parte do elenco não aparenta esforço para ser o alívio cômico; todos se mostram à vontade e com espontaneidade para expressar o lado humorado série.

crazyhead

Em suma, “Crazyhead” foca mais no humor, do que no terror – que quando necessário, se mostra competente -, e apesar de não aproveitar tão bem o seu potencial em poucos episódios, ainda é divertida. Sem complexidade e de maneira clara, é através do humor que firma a força do protagonismo feminino e empoderamento que a compõe – ainda que não tenha durado sete temporadas como sua prima melhor sucedida.

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Felipe Oliveira

Gosto de tudo um pouco, mas me limito em não arriscar muito e talvez escrever seja o meu momento mais sincero no qual posso expor minhas ideias e pensamentos.