Resenha | Corra! (2017) – um excelente terror denuncia o racismo (sem spoilers)

Sem dúvidas, “Corra!” (“Get Out“) é dos filmes mais elogiados e comentados de 2017 – sendo reconhecido com quatro indicações ao Oscar , sendo elas de melhor filme, melhor diretor, melhor ator e melhor roteiro original. Desde as suas primeiras descrições e trailer, foi capaz de gerar a curiosidade diante do tema social que iria tratar, o racismo, e conquistar 99% de aprovação no Rotten Tomatoes é para elevar a empolgação de qualquer um. Felizmente, decidi conferir a película, me atendo apenas ao pouco que lembrava do trailer – e por favor, corra dele, pois é um resumo perigoso da excelência que o longa é. Para a minha surpresa, “Corra!” é tudo: brilhante, envolvente, arrebatador, intenso; com certeza é para apreciar cada minuto.

corra

Chris (Daniel Kaluuya), é um jovem negro que está indo conhecer os pais de sua namorada caucasiana, Rose (Allison Williams), e mesmo no trajeto até a casa da família ele já é confrontado por situações racistas – como, por exemplo, quando um policial na estrada querendo ver apenas a documentação de Chris depois da batida do carro contra um alce. Chegando na casa, Chris acredita que a insistente inconveniência dos pais de Rose é apenas para lidar com a ideia de a filha namorar um cara negro, mas conforme vai conhecendo a convivência da casa, percebe que coisas perturbadoras acontecem ali.

corra!

Embora “Corra!” pareça ser um filme simples por trabalhar em cima de clichês e contar com o humor para desenvolver o seu protagonista, existe muitos outros aspectos que tornam a sua abordagem uma experiência. Por boa parte do longa, estamos acompanhando todo o estranhamento que Chris sente com as pessoas da casa, e é exatamente nessas situações que o horror do filme surge: desde a aflição, a sensação de claustrofobia, e até mesmo alienação e anacronismo – elementos perturbadores por si só, mas que também ajudam a evidenciar o terror racial que Chris está enfrentando, enquanto todos parecem bem com isso.

À medida que se assiste “Corra!”, parece que uma grande metáfora está se desenrolando e você não está percebendo, mas na verdade, não há dificuldade para interpretar os seus significados, visto que o filme não se propõe a isto e quer deixar claro o seu argumento. Além da maneira fluida com a qual o roteiro funciona, a facilidade para encaixar reviravolta em cima de reviravolta sem soar convencional também merece destaque. E não pense que “Corra!” fica no raso ao retratar o seu problema social; ao contrário, ele vai a fundo, e para isso recorre a passagens históricas para mostrar o quão perturbadora é a história por trás da família de Rose.

E tudo isso rende uma experiência incessantemente angustiante diante das descobertas feitas por Chris. Novamente, a maneira que o enredo foi conduzido passa a sensação de que já vimos algumas de suas execuções antes, mas o roteiro e direção de Jordan Peele são sutis e fazem essa sensação valer menos perante o quão grandiosa é a sua obra. Sendo assim, o seu elenco é brilhantemente explorado, enquanto trabalha as várias nuances de seus personagens com atuações de tirar o fôlego.

“Corra!” é um filme aparentemente tranquilo, mas capaz de entregar uma intensa experiência diante da sutileza em que foi conduzido. Sem parecer apressado, sabe onde quer chegar, e, depois de tão grande feito, não poderia deixar de fechar com maestria e entregar um final gratificante – felizmente, o alternativo ficou de lado –  com saudações para os finais manjados e pessimistas dos filmes do gênero.

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Felipe Oliveira

Gosto de tudo um pouco, mas me limito em não arriscar muito e talvez escrever seja o meu momento mais sincero no qual posso expor minhas ideias e pensamentos.