Contos: a capacidade de abrir e explorar um mundo em poucas páginas

Stephen King. Neil Gaiman. Joyce Carol Oates. Edgar Allan Poe.  Tillie Olsen. Grandes nomes da literatura têm em seus currículos coletâneas de contos, ou ao menos a publicação de alguns deles, listados entre suas obras. Muitos escritores iniciantes (como esse que vos escreve, olá!) também decidem se aventurar no mundo da escrevinhação a partir da produção de histórias curtas com poucas páginas. Mas por quê? Qual o apelo desse formato? Esse texto é um guia para você que quer começar a ler – ou produzir – contos. Fica com a gente, prometo que será rápido.

 

Agilidade

E a velocidade, inclusive, é o principal elemento a favor dos contos. Do ponto de vista do escritor, um conto tem a capacidade de dar forma e vida à uma ideia em poucas horas, sem deixá-la se perder. Trabalhar um conceito em forma de romance, ou mesmo novela, demanda uma dedicação contínua ao longo de vários meses, com polimento e trabalho, até chegar no ponto em que a ideia pode ser exibida.

Para escritores em começo de carreira, isso possibilita que a fruição do trabalho venha logo, dando uma recompensa mais imediata para o esforço do autor; isso, para quem ainda está iniciando, é indispensável. Em vez de passar um longo tempo em uma obra para tê-la em sua primeira versão, um escritor novato pode ter seu trabalho pronto para ser massacrado por seus úteis e sinceros amigos em um dia, ou mesmo em horas.

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No verso da página.

Para o leitor, a vantagem é a mesma, porém sob uma perspectiva diferente. Em meio aos nossos dias conturbados e engolidos por rotinas ferozes, começar um livro pode ser um desafio desanimador – e nem precisa ser um golias de 900 páginas para nos abater. Quem lida no cotidiano com oito horas de trabalho, ou a produção de um TCC, ou com horas de estudo para um concurso público (ou tudo isso ao mesmo tempo) pode achar mesmo um livro de 250 páginas uma quimera invencível. Para estas pessoas – a maioria de nós -, os contos vêm como uma alternativa para consumo de literatura que não represente a desmotivação de ficar preso no mesmo livro por meses a fio.

 

Diversidade

Essa velocidade de produção e consumo permite que os escritores ataquem em fronts diferentes em sua escrita. Neil Gaiman, por exemplo, autor de coletâneas de contos como “Coisas Frágeis” (volume 1 e 2) e “Alerta de Risco”, varia na temática de seus contos com a mesma facilidade que varia nas suas produções de romance. Você pode ter acabado de concluir um conto de horror, virar a página e se defrontar com uma história singela de um cruzado perdido na casa de uma senhorinha inglesa na hora do chá em busca do Santo Graal.

E isso não é um exemplo. Acontece literalmente assim em um dos livros do autor de “Deuses Americanos“.

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Neil Freaking Gaiman.

Assim como os escritores podem se deleitar em viajar de uma história a outra sem se prenderem por muito tempo a um mesmo universo, os leitores têm a mesma dádiva ao ler uma coletânea de contos: você pode mergulhar em uma narrativa de suspense por sete páginas, se este for seu humor do dia, antes de navegar para um conto de um romance atrapalhado pelo fato incômodo de o rapaz ser um viajante do tempo.

Isso já é num livro meu, admito. E não me arrependo de nada.

 

Contos: um teste

Podendo escrever rápido e em diversos temas com facilidade e fluidez, os contos abrem uma janela excelente para testes de formatos, conteúdos e estruturas narrativas. Se você quiser criar um poema em prosa sem nunca ter feito isso antes, você não precisa apelar diretamente para um tomo monstruoso, meu caro Baudelaire: você pode escrever um pequeno conto para testar se aquele gênero lhe agrada. Se você sempre quis escrever uma história neo-noir, você não precisa começar fazendo uma viagem para pesquisar como era a Nova Orleans da década de 20; você pode somente sentar em seu computador, procurar algumas imagens para lhe inspirar e deixar que uma história mais simples deslize por seus dedos.

Escritores de sucesso publicaram livros muito famosos que começaram como um conto. “Clube da Luta“, por exemplo, nasceu de um conto de sete páginas escrito por Chuck Palahniuk – o autor, inclusive, recomenda que contos tenham este comprimento, sendo o tamanho perfeito para aprofundar uma narrativa sem que ela demande que você a desmembre.

Chuck Palahniuk, esse louco incrível.

Do outro lado, se você nunca leu um romance de investigação, você não precisa começar tentando descobrir quem cometeu aquele assassinato no Expresso do Oriente; Sir Arthur Conan Doyle pode lhe apresentar um estudo em vermelho que pode mostrar para você que o amor por contos pode ser bem elementar, meu caro leitor. Se você não sabe o que é horror cósmico, uma das muitas histórias do perturbado (e perturbador) H. P. Lovecraft pode lhe apresentar esse universo de pavor.

Em suma, se você quer testar a água com um gênero de literatura que ainda lhe é estranho, o conto é a porta de entrada para (drogas mais pesadas?) experiências mais complexas que lhe demandarão mais investimento emocional e de tempo.

 

Quem conta três contos

Seja como leitor ou escritor, ter contato com a produção de contos certamente lhe será produtiva. Se você está do lado de cá da tela, os contos lhe darão a maturidade e segurança necessária para você conhecer quais caminhos você consegue trilhar com mais calma e afinidade na hora de produzir seus escritos. Se você está do lado de lá, os contos lhe permitem que você explore diversos mundos com velocidade sem perder a qualidade que sempre buscamos na literatura.

Mais do que um formato literário, os contos nos capacitam com firmeza de passos para explorar novos mundos. Se quem conta um conto aumenta um ponto, escrever (e ler) mais deles lhe abre um mundo de reticências – às vezes decepcionantemente curtos em seu comprimento, mas provocantes e expansivos em essência.

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erikavilez

Erik (sem C) é escritor, roteirista e dançarino de hula profissional lá fora. Aqui dentro, Erik é redator-chefe e comercial do site, além de criador, host e editor do PontoCast, o podcast carro-chefe da casa.