A realidade do consumo pelo hype e seus estrangeirismos

Há algum tempo, eu falei sobre a maneira a qual assistimos a um filme, o que envolveu desde as expectativas, como o enxergamos, o gênero e a maior tendência entre os fatores citados: o hype. O hype nada mais é do que a essência momentânea de aderir a um elemento do momento. Digo momentânea porque logo vem em cima de tal fenômeno outro novo (ou desconhecido) fator para ser “hypado”. Esse é o consumo pelo hype.

 

Assim desgastamos rapidamente o que estamos consumindo. Passando o momento da tendência, logo vem “algo melhor” que merece a atenção para ser hypado. Mas final, o hype é realmente bom?

O meu consumo é pelo hype de uma série

Assistir e acompanhar o mundo das séries é uma maravilha. Ora nos despedimos de umas, ora estamos ansiosos esperando por uma novata vinda de um projeto do artista prestigiado entre nós. Vem a mid season, a summer season e a fall season, e estamos ligados em tudo que estar por vir. O bom desses períodos, é que algo realmente mundo bom possa surgir daí: enquanto os hiatos nos torturam, ou os plots da série que amávamos tanto não nos descem mais, um alívio para esse fardo deverá dar as caras nos levando a encaixar uma nova série na listinha de favoritos. Guilty pleasure ou não, é gratificante encontrar projetos diferentes, indies que nos afastem das séries que acompanhamos por quase 20 temporadas – é você, Grey’s Anatomy?

No meio disso, há uma prática que alguem que se ache um “seriador”: a maratona. Para discutir um pouco sobre isso, irei citar séries da Netlfix. Quem diria que “Stranger Things” iria se tornar um grande fenômeno para a grande streaming? Recheada de referência e nostalgia, em pouco tempo (graças ao poder do “consumo pelo hype”) a série alcançou vantajoso reconhecimento com sua primeira temporada, levantando burburinho nas redes sociais e, logicamente, sendo o gás motivador para as pessoas assistirem. Maravilha!

A maratona ganha força porque queremos logo consumir os episódios, saber o que acontece depois do infalível cliffhanger que te prende e te deixa ansioso para saber como termina aquele gancho detonador, ainda que seja previsível ou não se resulte em nada depois de esperar uma semana – eu ouvi o nome de “Scream”? – ou hiatos para saber o que acontece no episódio seguinte. O modelo como a Netflix funciona, logo elimina essa dolorosa espera com a temporada completa – ou dividida em partes, risos – a sua disposição para “maratonar” e assistir os episódios quantas vezes quiser.

série “Stranger Things”, segunda temporada.

O ponto negativo é que, no ritmo do hype, no papo de consumir dez episódios de cinquenta minutos ou meia hora num final de semana distancia a prazerosa sensação de apreciar a série. Depois vem outra série para “hypar”. Após uma semana, os episódios assistidos naquela maratona para bater meta e comentar nas redes sociais são rapidamente esquecidos. Participou do momento tendência, que logo também foi esquecido. O que seria diferente se assistíssemos “pausadamente” ou no formato de esperar um episódio por semana. A tendência seria armazenar tudo o que foi importante ou ruim no capítulo anterior e se preparar para o próximo – a sensação de sentir que a temporada finalmente vai engrenar, pegar o ritmo e entregar o episódio f*** não tem preço.

Série “Jessica Jones”, primeira temporada.

Jessica Jones”, “O Justiceiro”, “Demolidor”, “Punho de Ferro” (o imortal, protetor e blá, blá, blá), Black Mirror (que já apresenta um desgaste nas temáticas e abordagens). O que essas têm em comum é esperamos um ano pela nova temporada, para consumirmos tudo num final de semana. Assim se resume o consumo pelo hype no mundo das séries. Uma experiência apagada pelo calor do momento que logo cai no esquecimento.

O meu consumo é pelo hype de um filme

Bem, no mundo das séries o hype influencia a maratona e entre si essas coisas funcionam de algum jeito para uns – para outros, nem tanto. No cinema, o hype também desempenha o seu papel, na base da expectativa. Todo ano, todo mês, em determinado dia da semana temos o dia agendado para o lançamento de algum longa. Para os cinéfilos, a espera é grande desde a primeira notícia sobre o desenvolvimento do filme. Aí vem os primeiros materiais de divulgação, trailers e nisso acompanhamos até o vindouro dia do lançamento.

Para quem não se considera um cinéfilo mas aprecia a Sétima Arte de algum jeito, pode se dirigir a uma rede de cinema e  escolher um dos filmes em cartaz com algum conhecimento prévio (ou não), mas indo na intenção de aproveitar um bom filme. Se para as séries o hype influencia negativamente uma maratona, no cinema, o hype influencia negativamente na expectativa que colocamos num filme.

Logo vêm os primeiros comentários, as críticas especializadas e vamos moldando a expectativa com bases nessas impressões – claro – para saber se realmente vale a pena investir em tal filme. E quando a expectativa depositada não corresponde ao esperado? Isso vai variar dependendo do humor, da disposição, ou se estamos de fato familiarizados com o que será apresentado para depois não culparmos a opinião calorosa que rendeu bons comentários e te convenceu – ou apenas olhou para a média no Rotten Tomatoes e IMDB e deduziu que o investimento iria com toda a certeza valer a pena.

Um dos melhores filmes da DC

Pela questão da expectativa não ser atendida como o esperado, logo o consumo pelo hype desanima, o que nos resta é desmerecer alguma película pelo fator frustração. Então, se decepcionar por “Batman Vs Superman” e “Liga da Justiça” não terem sido tão bons quanto pareciam; como também o colorido e repleto de ação “Thor Ragnarok” não ter funcionado como o entretenimento esperado para alguns -; se “Doutor Estranho” não foi tudo o que falavam e foi mais um com a fórmula chata de filme de origem da MCU; ou se querer saber o porquê “Pantera Negra” se tornou um dos filmes mais lucrativos da Marvel, o veredito depois pode estar a critério da expectativa depositada.

O hype determina a expectativa e por vai, mas é muito melhor assistir sem esperar nada do que encaixar o filme pelo quesito decepção por não valer a pena no final.

 

O meu consumo é pelo hype de uma música

Se nas séries e filmes fazemos o apenas o consumo pelo hype, no mundo da música não poderia ser diferente. A música está para compor vários momentos importantes em nossas vidas. Desde quando erramos a letra, a música que nos faz chorar, a música que escolhemos cantar com alegria debaixo do chuveiro. Assim como há músicas que nos pegam e nos fazem ouvir diversas vezes sem nem mesmo sabermos o porquê.

consumo pelo hype

Não apenas isso. A música está atrelada ao nosso gosto pessoal e como identificamos a vida. Por isso nada há nada de errado e velho ao querer ouvir “Na Sua Estante” da cantora Pitty ou “Qualquer Jeito”, da cantora Katia. Seja como for, ainda que a música faça parte de uma época, não quer dizer que deixe de fazer parte de momentos recentes e muito menos que será esquecida em nome do hype.

Diferente de ouvir uma música por ser de fato importante, é quando ouvimos a serviço do hype. Um exemplo disso foi o fenômeno musical chamado “Despacito”, de Luis Fonsi ft Daddy Yankee. Cantamos a música com letras e jeitos diferentes, mas não dava para negar que o ritmo da faixa contagiava e se tornava dançante para qualquer um. O sucesso foi estrondoso e emplacou de todos os jeitos, ainda que só soubéssemos falar o “despacito”. A música era apreciada. O que veio depois é que o momento em que o consumo pelo hype passou. Logo o que por um tempo foi sucesso, no outro momemento foi também esquecido.

Partindo para um exemplo mais recente, temos “Que Tiro Foi Esse”, de Jojo Maronttinni. Ouvi trechos da música por aquilo que a estava fazendo famosa: os memes reproduzindo acidentes ao som da música. A intenção era ser divertido ao dar um susto a alguém que não estava a par do hit – o que deu certo no começo. Em seguida, não era necessário aplicar um susto real, os vídeos apenas repetiam as fórmulas já apresentadas pelos coleguinhas: o suposto acidente, depois a dança nos embalos da música.

Assim, a música da Jojo caiu na graça do hype e com o resultado esperado. Mas o calor ao ouvir o hit já passou. No meio disso, de maneira inesperada, vindo para ser chiclete, com um vídeo despretensioso, surgiu “Envolvimento”, de Mc Loma com as Gêmeas Lacração. O vídeo foi simples, bem-humorado e prometendo ser chiclete. Logo agradou os consumidores. Não demorando muito, o vídeo ganhou uma nova versão com produção de Kondzilla. Mais tarde, o trio famoso fechou contrato para toda semana lançar um novo hit no Youtube.

o primeiro vídeo do hit chiclete.

Se foi chiclete como prometia ou não, o efeito hype passou e nem mesmo recitar a marca conhecida de “cebruthius! UUUUUAAAAI” em toda faixa de ritmo dançante traz de volta o que o hype faz esquecer rapidamente.

 


Como anda o seu consumo pelo hype?? O hype te decepciona? Diz aí nos comentários ou no nosso grupo do Facebook ou do Telegram.

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Felipe Oliveira

Gosto de tudo um pouco, mas me limito em não arriscar muito e talvez escrever seja o meu momento mais sincero no qual posso expor minhas ideias e pensamentos.