Concrete and Gold – Foo Fighters (2017): do instinto de lutar e fugir

O mundo é um lugar inóspito, e todo mundo com bom senso está querendo sair daqui. Com uma perna quebrada em recuperação e seis meses de hiato do Foo Fighters, Dave Grohl teve bastante tempo para analisar a conjuntura atual antes de se por recluso num apartamento na Califórnia para compor as letras de “Concrete and Gold”. O nono álbum do Foo Fighters desde sua fundação, em 1994, demonstra uma certeza inusual enquanto a banda explora novas experiências sonoras, criando um álbum consistente sobre o desejo de fuga e todos os sentimentos conflitantes que isso gera.

Concrete and Gold
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Este contraste permeia o disco em toda sua execução. Sua primeira faixa, “T-Shirt”, fala com meiguice sobre querer escrever uma canção de amor por alguns segundos antes de explodir em guitarras e baterias, correndo para uma passagem quase invisível para “Run”. Canção que é chave de “Concrete and Gold”, a letra de “Run” fala sobre a necessidade de escapar da vida que levamos hoje – tanto da corrida de rato do capital e da sociedade superficial quanto especificamente da podridão assustadora do nosso tempo -, sendo crucial para entendimento do álbum; não é à toa que é o primeiro single de “Concrete and Gold”.

Fugir do mundo se choca contra a percepção de que simplesmente não temos como fazê-lo; há a necessidade latente em todos nós de fazer do mundo um lugar melhor, mesmo que seja no nosso universo familiar ou individual, e essa requisição emocional se choca contra o desespero e o desejo de fuga que é despertado em nós ao sermos bombardeados pelas notícias de guerras e violências físicas e simbólicas diariamente, aonde quer que formos. Essa dialética do lutar/fugir é vista logo depois em “Make It Right”, a qual constroi um trampolim para “The Sky is a Neighborhood” – que é quando outra estranheza que surge desse conflito interno é traduzida em som. Ambas as canções, e as seguintes, exploram harmonias complexas sob melodias agressivas, contando com cadências imperfeitas para compor o ambiente de desconforto ao longo de “Concrete and Gold”.

Embora o álbum de fato não apresente muitas variações dessa estrutura apresentada em seu primeiro terço, algumas faixas posteriores se destacam. “La Dee Da” traz um clima Rush-iano, enquanto “Happy Ever After (Zero Hour)” vai para a simplicidade sonora para questionar a existência de um final feliz pós-apocalíptico em sua letra. O final em piano de “Sunday Rain” faz uma boa ponte para “The Line” em sua linha harmônica, e a faixa homônima de “Concrete and Gold” traz um final reflexivo com tons fantasmagóricos de Pink Floyd para as ideias expostas por Grohl ao longo do trabalho. A música que aponta para “Brain Damage” e “Eclipse” faz com que o final do disco seja à altura – e tematicamente condizente – com o resto de si.

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É um prazer fazer esta resenha sobre “Concrete and Gold” especialmente porque o álbum traz em seu título uma dica do que há dentro dele: Foo Fighters constroi um disco bem cimentado em suas raízes enquanto experimenta com o pop – em grande parte trazido pelo produtor musical Greg Kurstin, que havia trabalhado com Adele e Sia, mas nunca com uma banda de heavy rock. Se o concreto sai do chão seguro no qual eles pisam, o ouro advém do sucesso nos riscos assumidos. Se buscavam uma estranheza agradável e um bom lugar para o qual fugir, “Concrete and Gold” sai bem sucedido dessa empreitada, coberto de pó de pedras e metais preciosos.

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erikavilez

Erik (sem C) é escritor, roteirista e dançarino de hula profissional lá fora. Aqui dentro, Erik é redator-chefe e comercial do site, além de criador, host e editor do PontoCast, o podcast carro-chefe da casa.