Como Não Perder Essa Mulher (2013)

“-Filmes e pornô são diferentes, Jon. Eles dão prêmios para filmes.

-Eles dão prêmios para pornô também.”

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Filme: Como Não Perder Essa Mulher (Don Jon)

Ano: 2013

Diretor: Joseph Gordon-Levitt

PIPOCAS: 6,5/10

É bom começar essa resenha com um fato importante: esse foi um dos casos mais sérios em erro de tradução de título. O original, “Don Jon”, é uma referência óbvia – inclusive dentro do filme – à Don Juan, sendo “Jon” apenas uma variante ítalo-americana do conquistador original. Além disso, a tradução do nome, “Como Não Perder Essa Mulher”, dá a ideia de um filme romântico, talvez uma comédia romântica que podia ser estrelada por Ashton Kutcher e Katherine Heigl – e Don Jon é tudo menos isso.

No filme, Jon Martello (Joseph Gordon-Levitt, um Robin-que-não-é-Robin do Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge mais musculoso e com menos poderes videntes) é um homem que nega seu vício por pornografia e objetificação da mulher, o que promete mudar quando ele conhece Barbara Sugarman (Scarlett Johansson, estrela de Hitchcock, Vicky Cristina Barcelona e de 95% dos meus sonhos) e Esther (Julianne Moore, do novíssimo Carrie, a Estranha e a Amor a Toda Prova). A chegada dessas mulheres questiona o modo que Jon via o mundo – e a si mesmo.

Don Jon (porque o outro título é bizarro demais) é um filme profundo sobre pessoas superficiais. Através da visão plástica de Jon, enxergamos mulheres como objetos, culto ao corpo, religiosidade supérflua e, é claro, muita pornografia (semiexplícita, para poder manter a censura 16 anos). Gordon-Levitt estreia na direção e roteirização nesse filme que se ocupa com muito ao mesmo tempo: Levitt acha espaço, em 90 minutos de filme, para críticas ao machismo vigente, à religião, ao modo com que as pessoas enxergam o sexo, à hipocrisia em relação à pornografia e como homens e mulheres somente tem “pornografias diferentes” – de qualquer forma, assuntos demais para 1h30 de duração.

Levitt se dá ao luxo de fazê-lo porque não se preocupa em desenvolver os personagens. Todas as figuras são clara e propositadamente unidimensionais, desde o Jon Sr. (Tony Danza, Crash – No Limite), pai do principal, até os amigos de Jon, um hispânico e um negro, para completar o time de clichês e cotas obrigatórias que Hollywood só coloca para poder aliviar a consciência e fortalecer estereótipos e sotaques.

Mesmo a (querida-amada-salve-salve) Johansson aqui desperdiça o talento com um papel totalmente sem graça e antipático; mesmo que fosse essa a intenção de Levitt, a direção preguiçosa – que se mostra ousada com planos médios e edição rápida, às vezes beirando uma esquizofrenia proposital – deixa a personagem à margem da estória, sem conseguir participar dela – mesmo quando isso seria necessário.

Julianne Moore consegue ser o personagem mais carismático, devido aos 5 minutos de desenvolvimento de personagem que recebe – o que já é mais do que os outros receberam.

Don Jon (sim, me recuso a usar o título sem sentido nenhum) é um filme com pretensões grandes demais e resultados que ficam aquém do pretendido. A venda como comédia romântica no Brasil ainda gera uma onda de revoltas de clientes que se sentem enganados ao receber uma película questionadora e ácida. Em suma, Don Jon é um bom filme, que vale por ser ousado e crítico, mas falha exatamente ao se afogar no seu excesso de críticas. Vê-se que Gordon-Levitt tem potencial na direção e na escrita, mas precisa se lembrar de que, às vezes, menos é mais.

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erikavilez

Erik (sem C) é escritor, roteirista e dançarino de hula profissional lá fora. Aqui dentro, Erik é redator-chefe e comercial do site, além de criador, host e editor do PontoCast, o podcast carro-chefe da casa.