Comentário | Como deveria ser “As Vantagens de Ser Invisível 2”?

Quando o livro de “As Vantagens de Ser Invisível” foi lançado, o sucesso foi limitado, mas seu impacto, não. Passado na transição entre os anos 80 e 90, a história que girava em torno de Charlie (Logan Lerman), Sam (Emma Lovely Watson) e Patrick (Ezra Miller) ressoou junto à geração dos anos 2000 com o impacto de um retrato preciso das diversas instabilidades inerentes à adolescência. A sensação ao fim da história é de que somos íntimos àqueles personagens – ou mesmo somos eles, em uma esfera ou outra -, e não queremos nos despedir deles… Mas e se não precisássemos? Como seria “As Vantagens de Ser Invisível 2”, partindo do filme original?

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Para isso, vamos lembrar do final dele – com spoilers, obviamente. Depois que Charlie e Sam se despedem e todos vão para a calçada, Patrick solta, espontaneamente, que está indo para Seattle devido a um burburinho de um movimento que está crescente na cidade. O filme não explicita, mas o implícito é o suficiente: ele está indo em direção ao grunge.

O movimento grunge, surgido no início dos anos 90 na cidade de Seattle e capitaneado pelo Nirvana, representou uma ruptura em relação à música, moda e comportamento vigentes à época. Os anos 80 haviam testemunhado uma era de superprodução: em termos de som, do heavy metal ao pop, as canções contavam com harmonias complexas sob vocais cuidadosamente afinados, bem como uma enxurrada de sintetizadores. Dessa forma, as canções demandavam cada vez mais produção e mão de obra no processo. Visualmente falando, o advento da MTV elevou figuras de artistas acima da sua arte, tornando personagens como Madonna e Michael Jackson mais do que músicos, mas símbolos. Para dar base a isso, os penteados exagerados do hair metal e as cataratas de acessórios tornavam a música um maravilhoso evento, quase circense – mas o grunge não queria saber disso.

Bon Jovi e suas cabeleiras.

Rejeitando a indústria musical da sua época, de uma forma geral, o grunge abandonou tudo isso e foi no sentido oposto. Roupas compradas de segunda mão em bazares, composições simples e vocais rasgados trouxeram Nirvana, Pearl Jam, Soundgarden e Alice in Chains para um público que não se identificava com a mercantilização da identidade, nem se viam mais nos artistas em evidência. O grunge era uma forma de rebelião e de auto-aceitação a partir da rejeição dos padrões comerciais da música da época – e é aí que nos voltamos para Patrick em um “As Vantagens de Ser Invisível 2”.

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Nirvana em Seattle.

O arco do personagem no filme original consistiu em mudar aqueles que o cercavam durante o seu próprio processo de firmar quem ele era. Enquanto Brad, o capitão do time de futebol, escondia ser gay, Charlie se ocultava confortavelmente de possíveis relações humanas e Sam lida com suas possibilidades e expectativas, Patrick continua a ser uma força constante de transformação – a si e aos outros ao seu redor.

Patrick ajuda Charlie a sair de seu casulo e dá suporte a Sam nas escolhas que ela faz, mesmo que perdendo Brad para o machismo acachapante de sua sociedade. Patrick faz isso tudo enquanto consolidava ai si próprio – um homem criativo, motivador e que se recusa a aceitar os padrões forçados pela sociedade. Assim sendo, nada seria mais natural do que o rebelde Patrick ir ao encontro de seus iguais em Seattle.

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Uma vez resolvidos os conflitos de Charlie no filme original, “As Vantagens de Ser Invisível 2” faria bem em trazer o crescimento do personagem que tanto ajudou outros a amadurecerem anteriormente. Uma vez lá, ver Patrick lidar com o nascimento do grunge proporcionaria uma oportunidade de ver como o rapaz que se recusa a atender às expectativas agressivas do seu entorno lidaria com estar no meio de outros desajustados.

Nesta abordagem, não seria a melhor escolha apoiar “As Vantagens de Ser Invisível 2” (com outro nome, por favor) sobre os ombros de Charlie, o qual já teve sua história contada, ou Sam, que já teve sua evolução bem explorada no filme original. Com Patrick, por outro lado, poderíamos ao mesmo tempo testemunhar um dos mais importantes movimentos da história da música enquanto acompanhamos Patrick no seu merecido protagonismo em se tornar ainda mais quem ele já é. Uma continuação mais do que apropriada, mas merecida.

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erikavilez

Erik (sem C) é escritor, roteirista e dançarino de hula profissional lá fora. Aqui dentro, Erik é redator-chefe e comercial do site, além de criador, host e editor do PontoCast, o podcast carro-chefe da casa.