A Sociedade dos Poetas Mortos e o caminho para cometer suicídio

Cometer suicídio é um tema consideravelmente polêmico e que tende a ser visto como um verdadeiro tabu para diversas discussões. Existem muitos mitos acerca do que realmente está acontecendo na cabeça de quem tem pensamentos suicidas e, às vezes, nenhum indicador para essas intenções. Recentemente, fomos abatidos com as mortes de Chirs Cornell e Chester Bennington e, trazendo a discussão ainda mais à tona, a série 13 Reasons Why, iniciada em março desse ano, gerou muita polêmica e fez com que muitas opiniões fossem emitidas a cerca do tema e correlatos comuns, como depressão, alto-mutilação e outros sintomas e consequências do sofrimento humano.

cometer suicídio

 

Com isso em mente, o que pretendo fazer aqui, primeiramente, é dizer que não há uma saída ideal para a dor e que cada pessoa lidará com isso de uma maneira singular. Porém, de forma alguma, cometer suicídio deveria ser uma opção. Apesar disso, para Neil Perry (Robert Sean Leonard), um dos personagens principais de A Sociedade dos Poetas Mortos (1989), não houve outra saída. O jovem fazia um curso preparatório para a universidade na melhor escola interna para rapazes daquele tempo, Welton, carinhosamente apelidada pelos seus alunos de Hellton (hell – inferno). Infelizmente, o personagem não teve sorte ou qualquer ajuda para lidar com seu sofrimento e, em um determinado momento, tirou a própria vida.

Tudo parecia se encaminhar para mais um ano normal em que todos os rapazes iriam dedicar um tempo exorbitante para estudar e aprender carreiras que eram do desejo dos seus pais. Isso, por parte dos pais, vinha coberto de boas intenções e/ou conveniência — afinal de contas, que pai não quer ter um filho médico e qual família não quer seus membros mais jovens dando continuidade aos negócios que os mais velhos construíram com tanta dedicação e, além disso, que mal há em obrigar um adolescente a fazer o que é melhor para o seu futuro? Mal sabem os donos de pensamentos assim que eles podem fazer com que as pessoas ao seu redor achem que cometer suicídio é uma opção.

Cometer suicídio

O que os jovens de Welton nem cogitavam é que um tufão chamado John Keating (Robin Willians) passaria por lá. O professor, visivelmente mais jovem que todo o corpo docente, trouxe ideias não muito convencionais de educação para uma época em que ainda se acreditava no castigo físico e na cópia como eficientes promotores do saber. Como o foco desse texto é o caminho que Neil percorreu até o suicídio, basta, aqui, ressaltar que o Professor Keating foi uma figura de grande inspiração para o aluno, que passou de um subserviente “tudo bem, pai” quando avisado que teria que largar a chefia de edição do jornal da escola, para um exímio ator shakespeareano, falsificando documentos e mentindo para participar de uma peça. O ponto crucial para a existência de toda essa transformação é uma constatação ensinada à exaustação nas aulas de Literatura ministradas por John Keating. Apesar de levemente macabro e óbvio, nada pode ser mais aterrador do que ouvir que, eventualmente, o sangue não irá mais circular em nossas veias e nosso corpo irá esfriar e morrer. Assim sendo, vale perguntar o que é que estamos fazendo da nossa vida?

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“Sempre entendi que a ideia da educação era ensinar a pensar por si mesmo”

Muito antes da máxima carpe diem/seize the day se transformar em uma frase perfeita para tatuar e, assim, fazer com que ela seja o enfeite para um corpo entediado, a recomendação era da mais alta importância para garotos que estavam prestes a se tornar bancários, contadores e médicos contra a sua vontade. É importante observar que não há nada de errado com nenhuma profissão, por mais normativa que ela seja. O deprimente é se dedicar exaustivamente para algo que só dá dinheiro.

No ato final, quando Neil é tirado do teatro por um pai que ignora completamente uma performance excelente de um personagem complexo escrito pelo maior nome da língua inglesa, o rapaz já começava a traçar o seu caminho. É claro, deve haver no personagem um senso de rejeição e de falta de apoio de sua família, mas a falta de saídas para ele o fizeram tomar a decisão convicta de cometer suicídio. A forma como podemos interpretar o pensamento de Neil é simples: uma vez que ele mesmo não pudesse cumprir seus próprios desejos e aspirações, não cumpriria os de mais ninguém.

Cometer suicídio

 

A morte de Neil é um último e triste ato de protesto contra qualquer tipo de limitação para a vida. Enquanto representação artística, ela deve nos fazer repensar prioridades e, em casos extremos, incentivar a busca por outras possibilidades.

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