Comentário: True Detective – 2ª Temporada (2015)

Dois meses e oito episódios depois do nosso texto de primeiras impressões, chegamos ao final da segunda temporada de True Detective neste domingo, dia 9/ago/2015. Uma temporada que trouxe uma proposta completamente diferente da temporada anterior, com um começo arrastado, mas que se encontrou –  e nos puxou junto à ela – logo antes da metade da temporada; tiroteios homéricos, questões e problemas sexuais, abusos e abusadores e o mundo que merecemos.

Esta foi a segunda temporada de True Detective.

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Neste segunda temporada, fomos apresentados a um novo caso, dentro do contexto do sul da Califórnia. Lá, Paul Woodrugh (Taylor Kitsch, o John Carter), um ex-paramilitar, encontra um corpo sentado enrijecido durante uma patrulha. O cadáver, sem olhos e sem genitália, vem a ser de um homem desaparecido, procurado por uma força-tarefa que tem Ani Bezzerides (Rachel McAdams, de todas as comédias românticas da TV) e Ray Velcoro (Colin Ferrel, “Na Mira do Chefe”) em sua composição. Para complicar a situação, o homem morto possuía títulos financeiros do mafioso em remissão Frank Semyon (Vince Vaughn, de alguma comédia meia-boca) – mafioso para o qual Ray também trabalha.

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Criador e roteirista de todos os episódios da série, Nic Pizzolato havia dito que a segunda temporada seria melhor do que a primeira. Um ponto de interrogação imediatamente brotou: como? A primeira temporada, tendo como protagonistas Woody Harrelson (no papel de sua vida até agora) e o Oscarizado Matthew McConaughey, havia contado uma história literalmente perfeita, com horror psicológico e o sinistro sul dos Estados Unidos como pano de fundo. Ela fora uma história que Pizzolato passara anos desenvolvendo e escrevendo; como poderia escrever algo melhor em alguns meses?

Finalmente, depois de 8 episódios, podemos dizer – infelizmente – que ele estava errado. A segunda temporada é maior em escala; temos mais personagens, mais arcos, e mais vidas estão em jogo, mas a qualidade não é superior. Ainda assim, a temporada foi muito boa, visto que “True Detective”, no pior dos seus episódios, é muito melhor do que 90% do que temos na TV hoje em dia.

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Em relação aos atores, boa parte do elenco principal veio de comédias românticas, mesma raiz de McCounaghey da temporada anterior (na época o ator havia se envolvido recentemente em papéis mais sérios, como o perturbador “Killer Joe”, “Clube de Compras Dallas” e “O Lobo de Wall Street”). Assim como na temporada anterior, eles surpreendem; Rachel McAdams domina a sua personagem e imprime uma força e perturbação à sua personagem que nos faz esquecer de seus papeis anteriores; Colin Ferrel é simplesmente impecável, e provavelmente o melhor personagem da temporada; Taylor Kitsch tem uma atuação discreta, mas rica em detalhes (seu personagem sempre fica mais à vontade e seguro com uma arma na mão, por causa de seu histórico, e mesmo suas explosões são contidas). Vince Vaughn destoa inicialmente e demora a convencer, mas na segunda metade da temporada já estava confortável na pele de seu Michael Corleone estadunidense.

Esquerda para direita: Ferrel, McAdams, Kitsch e Vaughn.
Esquerda para direita: Ferrel, McAdams, Kitsch e Vaughn.

O roteiro abandona o “American Gothic” da temporada anterior e foca em um urbano caótico mais palpável e menos etéreo. O pano de fundo deste ano foi a máfia dos transportes nos EUA, com uma subtrama temática de problemas sexuais, presente de alguma forma em todos os personagens. Além disso, a própria natureza emasculante do crime inicial e o desenrolar da história relaciona a busca pelo prazer como uma compensação pela perda da sexualidade. É o sexo destituído de sensualidade que busca dar significado para algo além de si, e acaba vazio (meio como apontava Frank Underwood em House of Cards: “tudo na vida é sobre sexo – menos sexo, que é sobre poder”.

A primeira metade da temporada, assim como no ano anterior, se apresenta de maneira mais lenta, construindo o alicerce de seus atores e história para que a ação possa se estabelecer. A desvantagem da segunda temporada se dá no fato de que o pano de fundo mencionado não é tão instigante quanto um culto macabro que sacrifica crianças, e os quatro personagens não conseguem ser tão profundos e complexos quanto Rust e Marty no ano passado – talvez exatamente por terem que dividir o tempo de tela entre quatro em vez de dois.

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No fim das contas, “True Detective” ainda é uma das melhores séries da atualidade, sendo prejudicada pelo simples fato de não ter sido tão excelente quanto ela mesma. Ainda assim, diversos episódios da temporada nos remetem à glória anterior em termos de qualidade, e não deve nada à TV como um todo. “True Detective” ainda está acima do que nós consumimos de entretenimento, e recebe toda a atenção (e tensão) que merece.

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erikavilez

Erik (sem C) é escritor, roteirista e dançarino de hula profissional lá fora. Aqui dentro, Erik é redator-chefe e comercial do site, além de criador, host e editor do PontoCast, o podcast carro-chefe da casa.