Comentário | Trilogia Toy Story (1995 – 2010) – crescer é inevitável

Toda criança tem o seu brinquedo favorito. O tempo passa, outros aparecem, mas sempre há o mais querido. Mas isso não é um motivo de tirar a vontade de querer um brinquedo novo, hábito esse que começa desde cedo. Como esquecer de quando criança, com a mão agarrada na mão de minha mãe, passar por uma vitrine, seja com um tênis, um doce ou um brinquedo e ouvir aquele velho “na volta a gente compra” (sem falar que essa é a desculpa que uso quando o produto da loja é caro), “você já tem um desse em casa”. Mesmo não tendo o desejo de possuir algo pela curiosidade atendido, era prazeroso brincar com brinquedos que eu já tinha.

Meu irmão era bem mais quieto e conseguia se distrair fácil com os brinquedos, enquanto eu insistia em aprontar alguma coisa desastrosa. Por mais inquieto que eu fosse, uma hora não resistiria ao momento incrível que era poder sentar e criar um mundo para os brinquedos, imaginando suas aventuras, histórias e inventando nomes para personagens. Não sei você, mas quando vi que o meu Optimus Prime foi quebrado durante o curto período que me ausentei do meu irmão e dos meus primos, o brinquedo deixou de ser importante para mim.

A Sétima Arte tem um poder fabuloso. A todo tempo ela reproduz as nossas histórias, expõe pensamentos e experiências mais íntimas. Nem que seja no previsível, sempre terá um pouco de nós a ser contado. Considerado o primeiro longa das emocionantes produções da Walt Disney Pictures e Pixar, em 1995, “Toy Story” foi uma aposta ousada, bela e curiosa em vários aspectos. Como supracitado, o cinema tem o seu jeito de falar da gente, e animação se propôs a falar da criança, o seu crescer e amadurecer de maneira pura e envolvente através de brinquedos.

Andy (John Morris) é uma criança feliz com os brinquedos que tem, e fica ansioso como qualquer outra criança quando sabe que irá ganhar novos brinquedos, ainda mais quando se trata do seu aniversário. A técnica era não mostrar muito os rostos dos personagens humanos, aparentemente os deixando em segundo plano, quando o foco eram os brinquedos favoritos de Andy, que tinham vida e faziam coisas quando ninguém estava olhando. Quem diria, o mundo dos brinquedos, dos nossos brinquedos.

Foi utilizando da metalinguagem, de um jeito simples e comovente que “Toy Story – Um Mundo de Aventuras” provou ser um material inteligente e importante. Como mencionado, os humanos pareciam ser o segundo plano diante do curioso mundo dos brinquedos, quando, na verdade, tinha algo especial sendo desenvolvido juntamente com esses brinquedos. A mágica não estava apenas atrelada ao fato dos brinquedos falarem e fazerem coisas, mas por serem usados para mostrar como o comportamento das crianças influenciam eles, seja na ansiedade em ganharem um novo brinquedo, no tratamento que dão para tal brinquedo novo e exatamente por quererem conhecer a novidade.

É realmente incrível e tocante vermos as crianças e a forma com que brincam sendo representadas no longa. Para um primeiro filme, foi gratificante ter Andy como o dono cuidadoso dos seus brinquedos, enquanto Sid (Erik Von Detten) era o que não valorizava o que tinha e se divertia os destruindo – graças a isso, pudemos ter o gostinho de conhecer o lado dos brinquedos emendados que querendo ou não, toda criança tem ou teve.

Foi através da rivalidade entre o caubói de pano Woody (Tom Hanks) – que se rendia à ideia de ser o brinquedo favorito de Andy –  e o patrulheiro espacial Buzz Lightyear (Tim Allen) – o novo brinquedo de Andy que Woody sentia ciúme -, nas mais variadas e inusitadas aventuras que um brinquedo poderia se envolver, que “Toy Story” cativou ao mostrar a importância de um brinquedo para uma criança.

Já na sequência, Toy Story 2, a conhecida fórmula do antecessor voltou a dar as caras, no entanto, diante da belíssima história, a repetição não foi tão impactante a ponto para que o longa desmerecido. Se em “Toy Story” Woody quis se redimir do seu ciúme resgatando Buzz Lightyear, e acabaram se envolvendo em altas aventuras, aqui, é a vez de Woody ser resgatado pelos seus amigos brinquedos. Durante a empreitada, o caubói acabou descobrindo sua história de origem.

Apesar da familiaridade com o enredo do primeiro filme, Toy Story 2 se tornou especial por explorar ainda mais o mundo dos brinquedos à medida que trabalhava a personalidade do querido dono, Andy. Uma coisa é certa: todo cuidado é pouco, e isso não poderia deixar de ser aplicado para os brinquedos. Para qualquer criança, o seu brinquedo favorito é o melhor e especial de alguma forma, e tê-lo estragado ou quebrado pode desanimar.

Um dos aspectos que marcou os brinquedos foi o discurso de Woody sobre pertencer a Andy acima de tudo. Se no primeiro longa a figura humana não precisou ser destacada para compor o enredo, em Toy Story 2 as coisas foram diferentes. Assim como um dia a infância passa, o momento de brincar com brinquedos também se vai e novas experiências surgem para essas crianças que não serão para sempre pequeninas.

Para Jessie, a boneca de pano caubói, ser abandonada pela dona era um triste fato que ela não queria passar outra vez. Como um brinquedo, o que mais importava é ser útil para o seu dono, e esse prazer Woody já não podia dar para Andy, que já não gostava de ter o seu brinquedo favorito por perto depois que o braço descosturou. Assim, Toy Story 2 estabeleceu a sua temática sobre quando os brinquedos deixam de importar em algum momento para uma criança que está mudando, sobre os brinquedos esquecidos ou que nunca foram aproveitados, nisso, soube também desenvolver arcos importantes para os demais brinquedos, num longa envolvente e divertido.

Em 2010, onze anos depois que o segundo longa da franquia fez sucesso, Toy Story 3”veio quando parecia que o mundo dos brinquedos havia sido encerrado. De novo, ficou impossível negar a familiaridade e repetição nos arcos dos filmes. Ora, se em Toy Story 2 o público pôde ver que uma hora a criança cresce e perde o interesse pelos seus brinquedos, porque o terceiro filme voltou a tocar no assunto?

O que mais gosto em “Toy Story” é o fato de ser uma obra repleta de possibilidades, e que sabe aproveitá-las da melhor maneira. Durante dois filmes, o que pudemos saber de Andy é que ele e sua irmãzinha eram criados por uma mãe solteira, enquanto seus dias eram impactados por mudanças que a mãe precisava fazer na casa, o que logo remetia às aventuras dos brinquedos. Através da imagem em que os toys tinham do seu dono, é que traçamos que Andy estava mudando.

Agora, com 17 anos, faltando poucos dias para Andy mudar para faculdade é que Toy Story 3 deu início ao seu enredo. Como não poderia deixar de ser, os brinquedos precisavam de uma nova aventura para que o longa pudesse trabalhar em cima de mais outra perspectiva sobre as crianças, o que dependia da grande decisão de Andy: jogar o que restou de seus brinquedos fora, deixá-los no sótão ou doar para uma creche.

Qualquer que tenha sido a decisão, Toy Story 3, utilizando alguns dos conhecidos brinquedos, traçou mais uma vez o caminho e a reflexão entre o fugir para o novo e ser o sinal de alegria esperança para outros donos, ou pertencer ao velho. Nesse trajeto, de maneira encantadora, conduziu o público a conhecer como funciona a influência das crianças sobre os brinquedos na creche e como tais brinquedos se sentiam ao lidarem com vários tipos de crianças.

Novamente, mesmo que as aventuras dos brinquedos parecessem as mesmas, o que tinha de louvável e belo era como o brincar, o inventar e o refúgio no mundo criado pelas crianças é maravilhoso quando observado.

toy story

Crescer é inevitável, porém assustador, colorido, desafiador e cheio de possibilidades. E nada melhor do que o tempo para provar isso. De um jeito belo e às vezes até sutil, sendo repetitivo e se reinventando, que “Toy Story” transitou sobre essa fase que é crescer e amadurecer e conhecer a si mesmo; como também uma mãe ver a sua criança mudar e almejar algo além do mundo dos brinquedos. Com Andy indo para a faculdade, o que tivemos como adeus foi o pensamento de saudade sobre aquele pedacinho de nós que não queremos deixar ir, seja com Andy oscilando entre decidir o que fazer com os seus brinquedos, seja com sua mãe tendo que lidar com a síndrome do ninho vazio e aceitar que o seu filho cresceu e precisava ir.

Com Toy Story 4 confirmado para o ano que vem, com certeza podemos esperar uma animação de carga dramática de peso da Pixar, não é mesmo?

 


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Felipe Oliveira

Gosto de tudo um pouco, mas me limito em não arriscar muito e talvez escrever seja o meu momento mais sincero no qual posso expor minhas ideias e pensamentos.