Comentário: The Get Down – 1ª Temporada

A Netflix fez novamente! Lançou uma série que não é original apenas na descrição “Original Netflix”. Caso você ainda não tenha terminado de ver The Get Down, vale a pena ler as excelentes primeiras impressões aqui no nosso site. Se esse não for o caso, bem vindo ao Bronx de 1977. Lugar e tempo de intensa efervescência social, cultural e política. Enquanto em Manhattan as pessoas iam para o trabalho, voltavam, e levavam as suas vidinhas, o Bronx estava em chamas, literal e figurativamente. Junto dos prédios que eram queimados para que os proprietários recebessem o dinheiro do seguro, as discotecas ainda movimentavam muito dinheiro, enquanto os jovens estavam dando origem a um tal de hip hop, junto a todo um movimento de cultura urbana que envolvia a arte dos grafiteiros e o break que ardia nos becos e túneis de Nova York.

1977. A insistência em falar da data é proporcional à sua relevância, visto que a “paz e amor” dos hippies dos anos 60 já havia ficado bem pra trás. O que valia agora era o escapismo das discotecas, em que se esquecia dos problemas enquanto o mundo acabava na pista de dança, no embalo de sábado à noite. E como falar de fugir da realidade sem mencionar as drogas, que se proliferavam vertiginosamente nos EUA. Em contrapartida, as rimas do rap, aos poucos, surgiam ao som dos scratchs nas pick ups, trazendo a dura realidade das ruas de forma poética e verdadeira, enquanto o pessoal das roupas extravagantes olhava com desconfiança e se perguntava o que diabos esses jovens estão fazendo com aqueles discos.

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E o no meio de todo esse background tão rico, ainda existe uma história. Na verdade, histórias. A principal delas é a do protagonista Ezekiel (Justice Smith), jovem órfão que tenta transitar entre dois mudos. Ao conhecer o seu “mentor”, Shaolin (Shameik Moore), Zeke vislumbra um futuro na cena musical que ainda está surgindo, porém, ele também luta para conseguir oportunidades que atendam ao seu potencial e às expectativas de sua professora e família no “mundo dos brancos”. Enquanto isso, Mylene (Herizen F. Guardiola), par amoroso do protagonista, luta para deixar o Bronx e, de certa forma, as amarras para trás, tornando-se uma cantora disco de sucesso.

Em outro plano, o já mencionado Shao, treina incansavelmente para se tornar DJ e desbravar horizontes maiores do que qualquer universidade jamais poderia mostrar. E ainda existem histórias menores de personagens secundários que não deixam de ser interessantes, a exemplo, o arco de Dizzee (Jaden Smith) à procura de liberdade e encontrando-a com um parceiro de grafite. São muitas histórias e, nem sempre tão inovadoras. Vemos que Ezekiel ruma para a jornada do herói. Órfão, encontra um mentor, descobre habilidades, passa por testes. Futuramente, sabemos que ele vai ter que tomar a decisão mais difícil da sua vida. Provavelmente, algo que virá na segunda parte da primeira temporada. A montagem do último episódio, por exemplo, seguiu uma estrutura facilmente identificável e tradicional para finales. Mas foi extremamente bem executado.

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Dessa forma, o destaque absoluto vai para o enlace dessas histórias. The Get Down é sobre absolutamente todos os temas que já foram citados nesse texto, porém, é a música que amarra todos eles. É tanto assim que os personagens que não estão contextualizados musicalmente na trama, parecem descontextualizados, o que faz com que uma referência ao punk no último episódio pareça perdida, mas promissora.

A ideia de ter algo punk na série seria interessante, pois as críticas à política e sociedade são inerentes aos personagens, em sua grande maioria, marginalizados. Desde o grafiteiro talentoso tratado como desocupado e depredador, até o líder da comunidade que, apesar de muito popular entre o povo, é visto com diversas ressalvas, porque todos sabem que os fins pelos quais Fracisco (Jimmy Smits) luta são nobres, mas nem sempre os meios seguem o mesmo caminho. Isso fica evidente ao longo da pernada final da temporada. Ainda sobre isso, vale lembrar que é até cômico que estejam todos tão interessados em acabar com a arte das ruas (grafite e as festas hip hop), mas a distribuição deliberada de cocaína não é sequer mencionada em nenhuma das cúpulas do poder na série.

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Em conclusão, The Get Down juntou uma série de temas de difícil abordagem de maneira original. A interação, o relacionamento e o desenvolvimento dos personagens são muito orgânicos, eles funcionam como avatares para pessoas comuns. Juntando tudo isso ao visual (lindo) grandiloquente que deu à série o atual título de produção mais cara da Netflix, The Get Down não é apenas substancial, mas também uma experiência visual e auditiva!

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